Wayne Thiebaud, Three Machines, 1963. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

DASARTES 153 /

WAYNE THIEBAUD

WAYNE THIEBAUD, ARTISTA NORTE-AMERICANO QUE CONQUISTOU FAMA NOS ANOS 1960 COM SUAS NATUREZAS-MORTAS INUSITADAS, TRANSFORMOU VITRINES DE PADARIAS E LANCHONETES EM VERDADEIROS PALCOS DO COTIDIANO AMERICANO

Wayne Thiebaud, Cakes & Pies, 1994-1995. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

WAYNE THIEBAUD: O ROUBO COMO ARTE

Os bolos e as fatias de torta de Wayne Thiebaud (1920-2021), pintados com cores pastéis e sombras exuberantes, são facilmente confundidos com representações realistas – mas há ali um quê de poesia, sociologia e surrealismo que vai muito além da estética apetitosa.

Thiebaud não se limitava a pintar sobremesas. Sua nova exposição no museu De Young, em São Francisco, mergulha em um aspecto menos conhecido (e fascinante) de sua trajetória: suas apropriações e releituras da história da arte. Ele mesmo confessava, com ironia e franqueza: “É difícil pensar em artistas que não foram influentes para mim, porque sou um ladrão obsessivo.”

Wayne Thiebaud, Display Cakes, 1963. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Thiebaud via no ato de “roubar” – ou seja, apropriar-se de ideias visuais de outros artistas – um elo direto entre inspiração e originalidade. Para ele, o verdadeiro objetivo era criar uma “espécie visual” de arte, e seu mantra era claro: “A arte vem da arte. E de mais nada.”

Essa crença o levou a ver o passado e o presente da arte mundial como igualmente relevantes. Ao mesmo tempo em que críticos de sua época rejeitavam estilos tradicionais e até mesmo a pintura figurativa, Thiebaud olhava para trás – para os mestres antigos – em busca de caminhos para avançar.

Wayne Thiebaud, Buffet, 1972-1975. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

ARTE COPIADA, ARTE CRIADA

Em seu processo criativo, Thiebaud às vezes copiava literalmente obras de outros artistas. Curiosamente, apesar de frequentar museus com frequência, ele fazia a maioria dessas cópias a partir de reproduções encontradas em sua vasta biblioteca pessoal de livros de arte e catálogos de exposições.

Wayne Thiebaud, A Sunday on La Grande Jatte (after Georges Seurat), 2000. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

“Se estou tendo dificuldade com uma pintura, posso voltar e pintar algo baseado no trabalho de outro artista – ou desenhar a partir dele – ou, simplesmente, observá-lo e tentar usar as ideias que ele teve. Isso pode incluir [Vincent] van Gogh, [Giorgio] Morandi ou Barnett Newman. Todos tiveram um impacto tremendo no que eu queria explorar. E, sim, eu realmente roubo coisas deles – um plágio descarado.”

Ao trabalhar com reproduções planas, sem a textura tridimensional das obras originais, Thiebaud focava na composição e nas formas bidimensionais. Essas imagens “destiladas” ajudaram a consolidar seu estilo singular – uma representação ligeiramente abstrata e surrealista, muitas vezes derivada da memória e da imaginação, e raramente da observação direta.

Wayne Thiebaud, Model for the Bar at the Folies Bergère (after Edouard Manet). © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Copiar, para ele, era também uma forma de entender as intenções e os métodos de outros artistas. E ele não se intimidava em encontrar falhas nos “velhos mestres”: “Nenhuma pintura é totalmente bem-sucedida. Você pode aprender muito observando os mestres e tentando identificar o que não funcionou.”

Wayne Thiebaud, Woman in Tub, 1965. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

COLECIONADOR, CURADOR DE SI MESMO

Thiebaud não era apenas um artista e estudioso da história da arte – também era um colecionador apaixonado. Ele comprava ou trocava obras de artistas que admirava, e fazia questão de mantê-las expostas em sua casa. Embora tivesse algumas peças abstratas, preferia obras representacionais – uma espécie de contraponto pessoal à dominação do modernismo, que, frequentemente, marginalizava artistas vistos como “datados”.

“Acho que temos uma ideia equivocada sobre de onde vem a pintura. Não é uma atividade hermética. Não nasce do indivíduo. É algo coletivo, comemorativo, cheio de camadas, que surge de grupos de pessoas. Se você olha para a história da pintura, vê enclaves de artistas que trabalharam juntos, que se apoiaram, que dependeram uns dos outros. Você precisa de confronto, de questionamento crítico.”

Wayne Thiebaud, 35 Cent Masterworks, 1970-1972. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Wayne Thiebaud, Girl with Pink Hat, 1973. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Sua coleção funcionava como uma ponte – conectando Thiebaud a uma comunidade estendida de artistas, vivos e mortos, com os quais ele mantinha um diálogo constante por meio das imagens.

“A verdadeira alegria de ser pintor, para mim, é bem simples: é esse encantamento de estar conectado a uma comunidade inteira de pessoas que amo e admiro ao longo da história. É uma maravilha se sentir parte de algo que já dura há mais de um milênio – essa linguagem que chamamos de pintura e desenho.”

Thiebaud talvez seja lembrado principalmente por suas coloridas sobremesas em vitrines cintilantes. Mas por trás do brilho está um artista profundamente intelectual, que entendia a arte como um legado contínuo – um fluxo de ideias compartilhadas, reaproveitadas, ressignificadas. Em um mundo que valoriza o “original”, Thiebaud nos lembra que o novo pode muito bem nascer do antigo, e que o roubo – na arte – pode ser o mais sincero ato de amor.

Wayne Thiebaud, Betty Jean Thiebaud and Book, 1965-1969. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Wayne Thiebaud, Window Views, 1989-1993. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

VIDA E OBRA

Wayne Thiebaud nasceu em Mesa, no Arizona, foi criado no sul da Califórnia e passou a maior parte de sua carreira no norte do Estado. Ele ganhou destaque em 1962 com pinturas que retratavam uma colorida e tipicamente americana variedade de vitrines de padarias, cafeterias e delicatessens, decoradas com comidas deliciosas – ou duvidosas.

Wayne Thiebaud, Bar-B-Qued Chickens, 1961. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Nas décadas seguintes, Thiebaud abordou novos temas, incluindo grupos de figuras e retratos, paisagens urbanas densamente organizadas, vastas paisagens naturais e palhaços em performances comoventes. Suas representações abstratas do mundo real não apenas desafiaram a percepção do realismo no meio artístico, como também convidaram o público a decidir se seus temas cuidadosamente posicionados eram dignos de admiração, crítica – ou ambos.

Wayne Thiebaud, Happy Birthday Joseph 1977 Manet, 1977. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Wayne Thiebaud, Supine Woman, 1963. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.

Thiebaud também foi um professor influente e admirado de arte e história da arte no Sacramento Junior College (atualmente Sacramento City College) e, mais tarde, na Universidade da Califórnia, em Davis. Seu legado como artista, professor e mentor influenciou significativamente a evolução da arte americana nas décadas posteriores à Segunda Guerra Mundial.

Wayne Thiebaud, Eating Figures (Quick Snack), 1963. © Wayne Thiebaud Foundation / Licensed by VAGA at Artists Rights Society (ARS), New York.


WAYNE THIEBAUD: ART COMES
FROM ART •
DE YOUNG – FINE ARTS
MUSEUMS OF SAN FRANCISCO •
EUA • 22/3 A 17/8/2025

 

Timothy Anglin Burgard é curador sênior do
Fine Arts Museums of San Francisco.

 

As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
Compartilhar:

Confira outras matérias

Reflexo

ANDRÉ GRIFFO

Sala dos provedores, 2018
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de …

Garimpo

FELIPPE MORAES

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a …

Capa

TAMARA DE LEMPICKA

“A BELEZA É UMA ARMA”
Reconhecido por suas sucessivas rupturas e pela constante busca pelo novo, o Modernismo não foi capaz …

Alto relevo

POP BRASIL

Desconsiderando a narrativa linear ou um eixo unívoco, a curadoria aposta na multiplicidade de formas, discursos e contradições, assumindo a …

Reflexo

Carmela Gross

Quando eu fiz a primeira ESCADA (a de 1968), aquilo era quase um jogo. A escada estava lá. Eu só …

Do mundo

PINO PASCALI

Nascido em Bari – no extremo Sul da Itália, em 1935, Pino Pascali se mudou para Roma – onde frequentou …

Flashback

MARÍA BLANCHARD

María Blanchard nasceu no dia 8 de março em Santander, em uma família da nova burguesia da cidade. Filha de …

Alto relevo

GERVANE DE PAULA

Gervane de Paula, que só agora recebeu uma individual em uma prestigiada instituição paulista, a Pinacoteca de São Paulo, debutou …

Do mundo

ANTONI TÀPIES

Há 100 anos nascia Antoni Tàpies, lendário artista catalão que impulsionou a vanguarda europeia do século 20 graças à sua …

Flashback

MARY CASSATT

A história da arte é sempre viva. Ela muda de tempos em tempos. Artistas, temas e técnicas voltam ao debate, …

Reflexo

MARCELA CANTUÁRIA

 

Em 1° Salão Latino-americano y Caribeño de Artes / Salão das Mulheres (depois de Willem van Haetch), estabeleci um posicionamento …

Capa

Bienal de Veneza

Quando o tema da Bienal de Veneza foi anunciado, confesso que fiquei desanimada: Estrangeiros em qualquer lugar (somos todos estrangeiros). …

Alto relevo

Francis Bacon

Poucos pintores do século 20 se opuseram de forma tão marcada às interpretações de suas telas e, no entanto, tiveram …

Entrevista

Carlos Cruz-Diez

Esculturas e pinturas que mudam de acordo com os movimentos do espectador são a marca registrada de Cruz-Diez, artista venezuelano …

Matéria de capa

KATHARINA GROSSE

COR, RUÍNA E UTOPIA
O Staatliche Museen zu Berlin, gigantesca instituição cultural alemã, traria entre abril e outubro de 2020 a …