DASARTES 106 /

Wasily Kandinsky

NOVA EXPOSIÇÃO DE KANDINSKY INCLUI UMA IMPORTANTE SELEÇÃO DE OBRAS DO PINTOR DE ORIGEM RUSSA, AUTOR DE PRODUÇÃO TARDIA, QUE COMEÇOU A ESTUDAR PINTURA EM MUNIQUE, EM 1896, QUANDO JÁ TINHA 30 ANOS. AS DIFERENTES FASES DE SUA VIDA – KANDINSKY VIVEU ENTRE RÚSSIA, ALEMANHA E FRANÇA, ALÉM DE DUAS GUERRAS MUNDIAIS – E, PRINCIPALMENTE, […]

NOVA EXPOSIÇÃO DE KANDINSKY INCLUI UMA IMPORTANTE SELEÇÃO DE OBRAS DO PINTOR DE ORIGEM RUSSA, AUTOR DE PRODUÇÃO TARDIA, QUE COMEÇOU A ESTUDAR PINTURA EM MUNIQUE, EM 1896, QUANDO JÁ TINHA 30 ANOS. AS DIFERENTES FASES DE SUA VIDA – KANDINSKY VIVEU ENTRE RÚSSIA, ALEMANHA E FRANÇA, ALÉM DE DUAS GUERRAS MUNDIAIS – E, PRINCIPALMENTE, O CONTATO QUE MANTEVE COM OS DIFERENTES MOVIMENTOS DE VANGUARDA DOS PAÍSES ONDE VIVEU, INFLUENCIARAM SEU TRABALHO DE FORMA EVIDENTE

Tradução por André Belculfine

Alrededor del círculo, 1940 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020.

O Guggenheim Museum Bilbao apresenta com acesso online e gratuito Kandinsky, uma exposição abrangente de pinturas e obras sobre papel de Wasily Kandinsky (1866-1944) na qual apresenta a obra e a evolução artística de um dos principais renovadores da pintura do início do século 20, precursor da abstração e reconhecido teórico da estética. No esforço de libertar a pintura das suas ligações com o mundo “natural”, Kandinsky descobre um novo tema baseado exclusivamente na “necessidade interior” do artista, preocupação que o acompanhará ao longo da sua vida.

Através do percurso cronológico delineado nessa exposição abrangente, o público poderá mergulhar na obra de Kandinsky e observar a evolução da sua pintura, desde as suas primeiras imagens, que contêm uma iconografia cuja realidade dos objetos e cenas é reconhecível, até as incursões completas em uma abstração que reflete sua aspiração ao essencial. Uma oportunidade única de apreciar a obra de um autor singular e ver como as cores e as formas ganham vida própria.

Essa exposição ilustra a evolução completa da trajetória do artista, dividida em três seções geográficas que abrangem os principais períodos de seu desenvolvimento artístico.

São Jorge, 1911 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

 

OS PRIMÓRDIOS: MUNIQUE

Kandinsky passou a infância entre sua cidade natal, Moscou, e Odessa (hoje Ucrânia), onde sua família nutria o gosto pela arte e pela música. Ele estudou direito e economia, mas, em 1895, decidiu mudar de curso e se tornou um dos gerentes da empresa de artes gráficas de Moscou, Kushnerev. Um ano depois, após encontrar inspiração em uma exposição do impressionismo francês e na ópera Lohengrin de Richard Wagner, ele viajou para Munique para se dedicar à arte. Memórias da Rússia, como móveis decorados com cores vivas ou imagens de casas de camponeses, bem como historicismo romântico, poesia lírica, folclore e fantasia fazem parte de seus primeiros trabalhos.

Kandinsky e sua companheira, a artista alemã Gabriele Münter, viajaram pela Europa e Norte da África, entre 1904 e 1907, antes de retornar e se estabelecer novamente em Munique, em 1908. As paisagens bávaras multicoloridas que Kandinsky criou em 1908-1909 apresentam elementos composicionais típicos da gravura, como formas claramente delineadas ou perspectiva achatada. Essas pinturas diferem marcadamente de seus exercícios neoimpressionistas anteriores, feitos por leves toques de cor.

Nuvem dourada, 1918 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020.

Já em 1909, Kandinsky adotou um estilo cada vez mais expressionista, afastando-se da representação de cenas naturais e se inclinando para a pintura de histórias apocalípticas. Alguns dos motivos recorrentes em sua obra, como o cavalo e o cavaleiro, simbolizam sua cruzada contra os valores estéticos convencionais e seu anseio por um futuro mais espiritual por meio do poder transformador da arte. Continuando com sua luta contra as normas da figuração, Kandinsky está convencido de que a cor, a forma e a linha podem traduzir a “necessidade interior” do artista em afirmações universalmente compreensíveis, oferecendo uma visão regenerativa do futuro.

Curva dominante, 1936 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

Enquanto morava em Munique, Kandinsky liderou os grupos de vanguarda mais importantes da cidade, como The Phalanx (Phalanx) e a New Munich Artists Association (Neue Künstlervereinigung München), e publicou vários tratados fundamentais, como The Spiritual in art. Em 1911, fundou, junto com Franz Marc, Der Blauer Reiter (O Cavaleiro Azul), uma sociedade heterogênea de artistas interessados no potencial expressivo da cor e na ressonância simbólica (muitas vezes espiritual) da forma.

Em 1913, os temas recorrentes em sua obra, como o cavalo e o cavaleiro, as colinas, as torres e as árvores, já estavam sujeitos ao traço e à cor. À medida que seus contornos caligráficos e formas rítmicas revelam cada vez menos traços de suas origens figurativas, Kandinsky começava a desenvolver a abstração e a formular o que chama de “o poder oculto da paleta”.

Círculos en negro, 1921 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

DOMÍNIOS CÓSMICOS: DA RÚSSIA À BAUHAUS

Após a eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, Kandinsky foi forçado a deixar a Alemanha e se estabeleceu em sua Moscou natal, onde a vanguarda buscou formular uma linguagem estética universal por meio de formas geométricas. Após romper seu relacionamento com Gabriele Münter e seus laços com outros colegas alemães, Kandinsky observava as experiências de seus contemporâneos russos, mas percebeu que a abordagem objetiva e com foco na produção não correspondia à sua própria busca artística pela espiritualidade.

No branco, 1920.
© Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

Em 1922, Kandinsky voltou à Alemanha com a então esposa Nina e começou a lecionar na Bauhaus (Escola de Artes Aplicadas), fundada pelo arquiteto Walter Gropius e patrocinada pelo Estado. Kandinsky descobriu ali um ambiente favorável à sua convicção de que a arte pode transformar o indivíduo e a sociedade. Ele continua a investigar a correspondência entre cor e forma e seus efeitos psicológicos e espirituais, e as formas geométricas, que ele usava em planos sobrepostos, passaram a dominar seu vocabulário pictórico. Essa mudança se deveu, em parte, à influência do tipo de obra que viu na Rússia. Kandinsky continuava a se distanciar, entretanto, do que considerava a arte “mecanicista” dos construtivistas e a arte “pura” dos suprematistas como Kazimir Malevich, insistindo que mesmo as formas mais abstratas têm conteúdo expressivo e emocional. Para Kandinsky, o triângulo incorporava ação e agressividade; o quadrado significava paz e calma; e o círculo, o reino do espiritual e do cósmico.

Foi nessa época que a obra de Kandinsky chamou a atenção do colecionador Solomon R. Guggenheim, que, junto à esposa Irene e a conselheira artística Hilla Rebay, visitaram-no em seu estúdio da Bauhaus, em Dessau, em 1930, e adquiriram o monumental Composition 8 (1923) além de outras peças. Kandinsky continuou a ensinar na Bauhaus até 1933, quando a escola foi fechada devido à pressão do governo nazista.

Composition 8, 1923 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

MUNDOS MINÚSCULOS: PARIS

Kandinsky passou os últimos 12 anos de sua vida no bairro parisiense de Neuilly-sur-Seine. Ele tinha viajado para a França, em dezembro de 1933, vindo da Alemanha nazista após o fechamento da Bauhaus em Berlim, onde lecionou. Esse foi um período muito prolífico para Kandinsky, apesar da instabilidade política e subsequente escassez. O artista fez experiências com materiais (por exemplo, combinando areia e pigmento) e seu vocabulário formal apresentava uma paleta mais suave e formas biomórficas. Embora tenha coletado espécimes orgânicos e enciclopédias científicas durante seus dias na Bauhaus, ele não introduziu esse tipo de iconografia em seu trabalho até 1934. As intrincadas composições dessa fase lembram mundos minúsculos de organismos vivos, claramente influenciados por seu contato com o surrealismo, pela arte de Jean Arp e Joan Miró, e pelo interesse pelas ciências naturais, especialmente embriologia, zoologia e botânica. Kandinsky mostrava uma predileção por tons pastel (rosa, roxo, turquesa e dourado) que lembravam as cores de suas origens russas.

O Arrojo Moderado. 1944 © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

Em seu último período, Kandinsky sintetizou elementos anteriores de sua carreira, sua passagem pela Bauhaus e a prática de seus contemporâneos. Ele trabalhou em formatos de grande escala e usou fundos escuros que lembravam suas telas expressionistas e seus trabalhos sobre lendas russas. Também incorporou motivos que aludem a Paul Klee e aos surrealistas que ainda estavam ativos em Paris, apesar de sua relutância em se associar a eles. Em Around the Circle (1940), essa influência se manifesta na composição complexa e dinâmica de lúdicas formas biomórficas. Em meados de 1942, as adversidades da guerra levaram o artista a realizar pequenas obras em painel, distantes das grandes telas de sua produção anterior em Paris. No entanto, Kandinsky continuava a criar composições imaginativas que refletiam cada vez mais seu interesse pela ciência, inspirando-se em revistas e enciclopédias que incluíam ilustrações relacionadas à biologia.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as autoridades alemãs confiscaram o trabalho de Kandinsky e de outros pintores modernos, declarando-o como “arte degenerada”. Os stalinistas na União Soviética fecharam museus e enviaram as pinturas de Kandinsky para depósitos. O artista morreu em 1944, aos 78 anos, deixando para trás uma prolífica obra.

Fragmentos, 1943. © Vasily Kandinsky, VEGAP, Bilbao, 2020

 

KANDINSKY • GUGGENHEIM BILBAO
ESPANHA • 20/11/2020 A 23/5/2021

Megan Fontanella é curadora de Arte Moderna do
Museu Solomon R. Guggenheim de Nova York

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