
Artista Arthur Bispo do Rosário, Colônia Juliano Moreira, RJ, 1985. © Walter Firmo. Acervo IMS.
Walter Firmo incorporou desde cedo em sua prática fotográfica a noção da síntese narrativa de imagem única, elaborada por meio de imagens construídas, dirigidas e, muitas vezes, até encenadas. Linguagem própria que, tendo como substrato sua consciência de origem – social, cultural e racial –, desenvolve-se amalgamada à percepção, já presente no início de sua trajetória profissional, da necessidade de se confrontar e se questionar os cânones e limites da fotografia documental e do fotojornalismo. Em um sentido mais amplo, questionar a própria fotografia como verossimilhança ou mera mimese do real, incorporando em sua obra procedimentos criativos específicos e conceituais de valoração e exaltação do objeto e tema de interesse maior em seu percurso artístico: a representação da população negra do país.
Ao longo de sua trajetória de mais de 70 anos como fotógrafo, percorreu e produziu imagens de puro encantamento em todas as regiões do país. Construiu retratos icônicos de grandes nomes da música popular e da cultura brasileira. Enalteceu seus personagens e suas múltiplas manifestações culturais e religiosas. Criou, ao longo desse percurso, uma sólida presença na imprensa e na fotografia autoral.
Nascido e criado no subúrbio carioca, filho único de paraenses – seu pai, de família negra e ribeirinha do baixo Amazonas; sua mãe, de família branca portuguesa, nascida em Belém –, Walter Firmo construiu a poética de seu olhar voltada principalmente para a elaboração de um registro amplo e generoso da população negra do Rio de Janeiro e de todo o país, em sua vida cotidiana, seus afetos, suas religiosidades e suas festas. Uma verdadeira ode à integridade, altivez e resiliência dessa população e de suas múltiplas manifestações culturais.

Casamento Cabo Verde, 1988. © Walter Firmo. Acervo IMS.

Funcionário Hotel Nacional, RJ, 1972. © Walter Firmo. Acervo IMS.
Em um processo próprio de construção de linguagem, estruturado em torno da ideia quase antropofágica de elaboração de um tableau vivant dos trópicos, experimentou e estabeleceu, já a partir do início dos anos 1960, um diálogo direto e inovador com nossa paisagem, população e luz – tropicais e transatlânticas, rurais e periféricas, sensuais e extasiantes. Sua fotografia foi sendo engendrada ao longo dos anos em um verdadeiro estúdio a céu aberto, sob a intensa luz tropical, dedicada essencialmente à representação e à visibilização do negro na sociedade brasileira.
“O Brasil é um desvario de cor. É ornamento, é febril, alucina. Fazer fotografia brasileira é tirar partido desse patrimônio. É ignorar os tons pastéis e endeusar os verdes e rosas, nacionalizando os temas. É esquecer o olho europeu e o americano e valorizar o que é nosso”, escreveu Firmo, em texto publicado no livro Walter Firmo – Antologia fotográfica, de 1989. Esse texto apresenta os principais elementos de estruturação da obra do autor, uma narrativa em terceira pessoa na qual ele discorre sobre sua jornada e concepção formal e estética da fotografia. Trata-se de um processo de reflexão crítica a respeito de sua linguagem e trajetória pessoal, que se desenvolveu desde seus primeiros trabalhos na fotografia em preto e branco, das primeiras imagens realizadas com sua Rolleiflex no subúrbio carioca e nas aulas da Associação Brasileira de Arte Fotográfica, ainda aos 15 anos, até o início da carreira na imprensa diária no jornal Última Hora, em 1955, e no Jornal do Brasil, a partir de 1960. Em 1965, ele ingressou no universo da fotografia em cores como o primeiro fotógrafo contratado pela revista Realidade, transferindo-se em 1966 para a revista Manchete, publicações que o levariam a percorrer extensivamente o país ainda antes dos 30 anos.

Família na Rodiviária de Petrópolis, RJ, 1990. © Walter Firmo. Acervo IMS.

Pixinguinha, RJ, 1967. © Walter Firmo. Acervo IMS

Filhos Eduardo Firmo e Aloísio Firmo e Pais de Walter Firmo José Baptista e Maria de Lourdes, RJ, 1985. © Walter Firmo. Acervo IMS.
A carreira de Firmo na imprensa se estendeu por três décadas, de 1955 a 1986. Depois desse período, trilhou um caminho mais autoral, voltado a temas de seu interesse, entre eles a construção de um vasto repertório de imagens produzidas junto às manifestações culturais e festas populares de várias regiões do país. Nunca deixou de fotografar em preto e branco, mas, particularmente em torno desses temas, desenvolveu crescente ênfase e interesse pelo uso da cor. Tendo como referência os trabalhos de fotógrafos como David Drew Zingg, Ernst Haas e Gordon Parks, sua intensa experimentação formal e cromática em torno de nossa luz tropical e de uma “cor brasileira” resultou em amplo reconhecimento de seu trabalho pelo grande público e pela crítica como o de um grande mestre colorista, até aqui a face mais reconhecida e evidenciada de sua produção autoral.

Doces Bárbaros, Gal Costa, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Caetano Veloso no Canecão, RJ, 1976. © Walter Firmo. Acervo IMS.

Ensaio sobre nu e negritude, Santo Amaro, BA, 2002. ©Walter Firmo. Acervo IMS

Cartola Angenor de Oliveira desfilando no Carnaval, RJ, 1970. © Walter Firmo. Acervo IMS.
Entretanto, diante da vasta produção de Walter Firmo e das inúmeras manifestações de seu pensamento, tanto em seus textos publicados como nas entrevistas que concedeu, percebe-se claramente aquilo que efetivamente estrutura e dá corpo à obra dele ao longo de toda a sua trajetória: não simplesmente a cor, mas a sua negra cor. Aquela que expressa, tanto em sua potência cromática plena, em suas imagens coloridas, como também em sua ausência absoluta, nas poderosas imagens em preto e branco que realizava (a maioria delas ainda inédita), uma prática autoral, criativa e engajada, que buscava de forma permanente a visibilização e a valoração daqueles que descendem da violenta diáspora africana que marca e conforma inescapavelmente passado, presente e futuro deste país, tecendo, assim, de modo contínuo, “no verbo do silêncio a síntese do grito”.
Negritude e encantamentos, narrativas e experimentações. São esses, portanto, os elementos principais e estruturantes das múltiplas poéticas em construção permanente que conferem sentido e lugar à obra de Walter Firmo.
Sérgio Burgi é curador e coordenador do acervo de
Fotografia do Instituto Moreira Salles.
Trecho do texto do catálogo Walter Firmo: no verbo do
silêncio a síntese do grito, publicado pelo Instituto
Moreira Salles, 2022
WALTER FIRMO: NO VERBO DO SILÊNCIO A SÍNTESE
DO GRITO • CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL •
RIO DE JANEIRO • 9/11/2022 A 27/3/2023


