Cisne com pincel, 2003-2012. Foto: © Jason Mandella.

DASARTES 82 /

Verzutti

Exposição monográfica que o Centre Pompidou dedica à artista brasileira ERIKA VERZUTTI, a primeira em grande escala na Europa, revela uma obra sensual, repleta de evocações de animais e vegetais. Veja texto da curadora da mostra.

Em uma época em que muitos artistas estão interessados ​​em integrar o vivo no próprio trabalho, a abraçar o biológico em um fascínio pelas inovações tecnológicas que mudam o ser humano e sua autopercepção, Erika Verzutti contempla-o como um processo vital em si mesmo, abrangendo os princípios de geração e indisciplina.

Avô, 2014.
Foto: © Thomas Strub.

Ela agrupa assim seus trabalhos em várias “famílias”, evocando de bom grado suas esculturas como seres interconectados, primeiro em sua imaginação, depois em sua materialidade, porque muitas vezes um gerou o outro. Seu primeiro papel machê de 2014, depois do uso de cerâmica e bronze por dez anos, com o título de Avô (2014), deu origem a uma verdadeira linhagem. O ovo, tema de muitas esculturas, também é uma metáfora para um trabalho que quer ser “fértil”: “Produzir um trabalho é como quebrar um ovo”.

No entanto, essa geração interna ao trabalho mantém uma aparência insubordinada. Porque ela segue uma lógica muito pessoal, cheia de meandros e surpresas, pois Erika Verzutti abraça o mundo em 360 graus, sem estabelecer hierarquia entre o que chama sua atenção, do mundo real para a história da arte passando pela cultura GAFA (Google/ Apple/ Facebook/ Amazon). Sua abordagem contém tanta determinação, vontade, força sensual e venusiana, como dúvidas, falhas e caos, que alimentam suas esculturas. Ela finalmente precisou de certo prumo para desenvolver, na década de 2000, uma obra com uma dimensão humorística, até mesmo irônica, de aparência não acabada, quando dominava na arte brasileira uma arte descendente do modernismo neoconcreto, onde a abstração disputava com o conceitual. É, portanto, na contramão dessa história que ela concedeu alguns retornos e surgiu no cenário artístico, após alguns anos de tentativa e erro.

Pavão, 2014. Foto: © Thomas Strub.

Em 2003, nasceu a Família Tarsila, em homenagem a Tarsila do Amaral, a artista surrealista brasileira a partir de quem empresta muitas vezes o tema de sua pintura Sol poente (1929), uma forma fálica curva que evoca para ela tanto um cisne quanto um pepino ou um dinossauro. Cisne com pincel (2003-2012), um bronze em forma curvada como um longo pescoço com as cerdas de uma escova em sua extremidade, tem imediatamente várias características da prática de Verzutti.

O título, “Cisne com pincel”, enfatiza a incorporação do mundo animal no trabalho. Revela a importância da dimensão da linguagem na escultura de Verzutti, que às vezes adquire dimensões surpreendentes, suscitando associações mentais no espectador. “Eu gosto de títulos”, disse Verzutti, “nunca paro com isso. Eu acho que um artista deveria nomear as coisas e depois calar a boca.”

Porco, 2017. Foto: © Eduardo Ortega.

A forma do “cisne” faz seu retorno várias vezes, até tomar um tamanho humano, em 2014, com o Cisne com calco, onde a árvore tropical da tela de Tarsila está no topo da floresta. Essa escultura em fibra de vidro e papel machê repentinamente se torna um palco para um performer empoleirado em saltos altos, que, em vez do pincel, vem estender seu braço ao “bico” do cisne enquanto declama um monólogo escrito por Verzutti.

Verzutti trabalhou em casa por vários anos, em sua cozinha, antes de sair para um estúdio um pouco maior, prestando atenção constante aos vários estágios do processo de criação de suas esculturas. Reivindicando o home made quando muitos artistas se cercam de assistentes e habilidades, Verzutti primeiro trabalha suas esculturas com um barro marrom (que ela ama modelar) em um diálogo que tem tanto a ver com a sua interioridade e suas tendências psicológicas do momento como com a própria arte. Ela também usa vários objetos, muitas vezes orgânicos, que naturalmente povoam sua cozinha, as frutas e os legumes, para fazer moldes.

Mineral, 2013. Foto: © Eduardo Ortega.

O tema da obra nunca é o primeiro passo no processo de Verzutti, mas a “conversa”, em suas próprias palavras, que ela manterá com sua escultura no processo de sua realização. Assim, vários problemas comuns cruzam seus trabalhos, alguns revelando-os mais do que outros. Assemblages, adições ou subtrações, modelagem e moldagem constituem as primeiras fases. Essas esculturas são então feitas no bronze ou cimento antes de adicionar relevos de pintura até que, a partir de 2014, ela se volta para o papel machê, o que lhe confere a autonomia de todo o processo, embora ela tenha sempre controlado todos os passos. Essa prática “tradicional”, assim como suas muitas referências inesperadas ao surrealismo, de Tarsila do Amaral a Maria Martins, reivindica certa liberação das injunções conceituais da época ao mesmo tempo que propõe um verdadeiro desafio de reinvenção da escultura em relação as grandes figuras que ela olha – e quem olha – e que não são necessariamente aquelas que fazem referência ao internacional. E é precisamente essa atitude rebelde, a rejeição aos ditames, a indiferença às oposições binárias, a surpreendente segurança, até a impertinência, reminiscência de Franz West ou Mike Kelley, que lhe permitem, graças a uma inventividade e um poder sugestivo únicos, criar esculturas sensuais e estranhas, engraçadas e cintilantes, violentas e frágeis. Graças à adição de beterraba e aipo, Beijo (2011) evoca claramente as criaturas híbridas e imaginárias em bronze de uma Maria Martins, vindas de uma mistura entre o humano e o vegetal, referindo-se ao gênero feminino e masculino em uma exuberância erótica e vitalista que seduziu André Breton e Marcel Duchamp. Mas Beijo faz esquecer suas referências vegetais para se transformar em um cara a cara entre duas criaturas fálicas perturbando os gêneros, cujos bicos alongados se enfrentam sem se tocarem.

A aparente espontaneidade e a irreverência das esculturas de Verzutti, no entanto, não devem eliminar outras energias que inervam seu trabalho, pois seu processo vital é às vezes tingido de certa melancolia, quando não se confronta diretamente com a ideia de luto. A série de cemitérios, incluindo a exposição Pet Cemetery, em 2008, veio quando a artista temia que seu gato morresse. Ao mesmo tempo, essas esculturas alinham as sobras de obras que não deveriam servir para coisa alguma. Seu primeiro cemitério, Indigentes (2008), também é composto de rejeitos, esculturas malsucedidas colocadas em pedras. O cadáver de um cão de plasticina fica ao lado de uma caixa de mármore e de pontas de cerâmica pintadas, à maneira de Peter Fischli e David Weiss.

Estrela sem maquiagem, 2015.
Foto: Michael Brzezinski

Cemitério com Franja (2014) também inclui sobras e objetos encontrados, enquanto Mineral (2013) reproduz uma espécie de floresta mineral congelada em bronze. A escolha de material mais resistente talvez não seja indiferente ao desejo vitalista de Verzutti, que parece se opor a todo o custo ao declínio, para evocar a resistência das camadas de pedras geológicas que retornam aos tempos pré-históricos. O cemitério de animais realizado para a Bienal Veneza em 2017, no Giardino delle Vergine, povoado com várias esculturas como Porco (2017) ou Dinossauro com Capacete (2017), resistiu valentemente por vários meses à vegetação que o invadiu pouco a pouco.

Nos últimos anos, Erika Verzutti fez uma reviravolta em seu trabalho, com duas famílias menos desenfreadas e mais sóbrias: os Missionários e Brasília. Com a exposição Missionária, realizada em São Paulo em 2011, ela diz sentir a oportunidade de se reconectar com uma história da arte modernista na América Latina. De fato, essa exposição mais abstrata encontra um inegável sucesso. Pepinos (2011) marca um ponto de virada. A referência ao trabalho de Sérgio de Camargo, isto é, a uma tradição mais geométrica e ainda não racionalista, revela uma atenção tanto à ordem das coisas quanto à insanidade do ordenamento.

Beijo, 2011.
Foto: © Eduardo Ortega.

É com a série Brasília que Erika Verzutti se confronta mais diretamente com a tradição modernista brasileira, e especialmente com a cidade que simboliza o desenvolvimento do Brasil nos anos 1960, com os edifícios de Lúcio Costa e Oscar Niemeyer. A construção de Brasília, que teve início ao mesmo tempo que a exposição de arte concreta realizada em São Paulo em 1956, abre caminho para uma cidade nova, utópica, funcionalista e autoritária. Para Brasília (2010), ela moldou jaqueiras, grandes frutas que associa ao reino mineral, ao operar cortes geométricos bem executados, colocando em seguida sobre o bronze planos de tinta acrílica branca ou azul. “O fruto de jaca é um bloco, uma espécie de monólito da natureza. É um volume apenas esperando para ser esculpido. Quando eu iniciei sobre sua carne pela primeira vez, tive a impressão de atacar uma fera selvagem. E eu achei que esse corte limpo e moderno é uma imagem muito brasileira! Isso tem relação com o Brasil, com a construção de cidades, entendida como uma abordagem pioneira, porque construímos no coração da natureza.”

A escultura de Erika Verzutti nunca deixa de reivindicar indisciplina mesmo na ordem, a sensualidade e a liberdade, e, por fim, a energia do próprio processo vital.

 

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