DASARTES 90 /

Tomás Saraceno e Dominique Gonzalez-Foerster

Com sua nova mostra más-que-humanas, o museu Thyssen-Bornemisza, em Madri, expõe obras de TOMÁS SARACENO e DOMINIQUE GONZALEZ-FOERSTER com dois objetivos; chamar um novo público para o museu e criar um diálogo entre as artes e as ciências naturais. Por Leonardo Ivo.

Com sua nova mostra, o museu Thyssen-Bornemisza, em Madri, expõe obras de Tomás Saraceno e Dominique Gonzalez-Foerster com dois objetivos; o primeiro, chamar um novo público para o museu graças à sua coleção de arte contemporânea organizada pela TBA21 (Thyssen-Bornemisza Art Contemporary). O segundo, é criar um diálogo entre as artes e as ciências naturais. Longe dos gabinetes de curiosidades dos séculos passados, as obras de Saraceno e Gonzales-Foerster nos levam a indagações, criando experiências que transcendem nossos sentidos. Mas o que Tomás Saraceno e Dominique Gonzales-Foerster têm em comum? O último propósito desta exposição é também ligar dois temas que, bem distantes um do outro, podem ser unidos: a música e a teia de aranha.

Tomás Saraceno, Instrumento solitario semisocial híbrido, 2019. Foto: ©Studio Tomás Saraceno,2019

Esta exposição se assemelha a “Carte Blanche” (carta branca) ocorrida no Palais de Tokyo em Paris, imersa na escuridão. Começa então uma aventura sensorial. Depois de atravessar as cortinas da entrada, um fantasma lírico nos acolhe; é apenas a obra Opera (QM.15), de Gonzalez-Foerster, que nos mostra um holograma da artista, vestida como a grande Maria Callas (1923-1977). Adornada de vermelho, ela faz mímicas das músicas cantadas pela musa, uma performance que só pode ser qualificada de sobrenatural. Callas é umas das grandes personalidades que Gonzales-Foerster incorporou a suas obras, bem como Sarah Bernhardt e Marilyn Monroe. Essas figuras do passado moderno são para a artista “aparições”, assombradas por sua arte, que as levam à tragédia. Assim que elas tomam vida pela instalação, uma “sessão espiritual” então começa, a música “invisível” transparece então através o holograma.

Passando a primeira sala, círculos vermelhos produzidos pelas luzes nos levam à obra seguinte, desta vez da autoria de Saraceno: How to entangle the Universe in a Spider Web? Em uma simples tela negra, linhas desenhadas por teias de duas espécies de aranhas diferentes são reveladas por um laser vermelho. Semelhantes a veias sanguíneas, essas teias nos lembram o ritmo biológico invisível da natureza/fauna que nos rodeiam. As teias de aranha vivem na obra de Saraceno e, como ele nos mostra em seu vídeo Living at the bottom of the ocean of air (Underwaterspider), apresentado em uma sala auxiliar, as próprias aranhas usam suas teias para enfrentar as adversidades. A aranha subaquática filmada pelo artista vive graças ao ar que ela conserva na própria teia, a qual cobre o abdômen deste pequeno predador.

Dominique Gonzalez-Foerster, OPERA(QM.15), 2016. Foto: Andrea Rossetti, 2016

A fascinação do artista pela estruturação de teias de aranha nos coloca frente à questão do espaço: uma arquitetura natural, com suas próprias plantas originais e únicas. Esse aspecto é estudado pela obra Hybrid semi-social solitary instrument HD 74874, uma instalação-escultura, suspendida por fios de carvão, fabricada por quatro aranhas diferentes. A estrutura final, encaixada e protegida atrás de um cubo de vidro, leva-nos aos tempos dos gabinetes de curiosidades. Mistério e fascinação nos submergem, o microcosmo criado pelas aranhas desenham estruturas que nos lembram uma via láctea. Outras obras resultam de uma pesquisa feita no ateliê do artista onde colaboram etnólogos, entomólogos, aracnólogos e geógrafos para estudar áreas como a biotermologia: as vibrações produzidas, dispersadas e percebidas pela aranha. Além do mais, o trabalho científico feito pelo artista e sua equipe leva a colaboração de espécies de aranhas que geralmente não trabalhariam juntas. Esse aspecto se encontra nas esculturas e também no trabalho sobre papel de Saraceno em sua série Solitary, onde o traço de teias nos mostra a complexidade dessa arquitetura biológica.

Tomás Saraceno, Solitary semisocial mapping of Ceginus, 2018. Foto: © Studio Tomás Saraceno, 2019.

Como notam vários cientistas, a teia de aranha lembra as simulações feitas no computador de nossa teia cósmica. As paisagens flutuantes e emaranhadas criadas pelas “aranhas Saraceno” geram conexões sensoriais através dos vários ecossistemas, produzindo assim uma atenção sem precedentes a vozes inaudíveis e estruturas invisíveis que nos rodeiam. A obra de Tomas Saraceno nos leva a estudar e apreciar o comportamento único dos aracnídeos, deixando para trás medos e preconceitos. Seu propósito é criar uma obra artística. Essa atitude é compartilhada com Dominique Gonzales-Foerster, com suas aparições fantasmagóricas e suas musas modernas. Gonzales-Foerster também transcende nossa experiência humana nos mostrando uma visão que não pode ser explicada de maneira racional. As obras selecionadas da coleção do TBA21 nos convidam a explorar questões sobre tecnologia, atraindo-nos para um mundo desconhecido e intangível.

Dominique Gonzalez-Foerster, OPERA(QM.15), 2016. Foto: Andrea Rossetti, 2016

A alegoria da Obra Inacabada, como sugerida por Cesare Ripa no início do século 17, mostra uma figura feminina que segura entre suas mãos várias teias de aranha. Penso que esta exposição é uma tentativa de abolir a concepção moderna dessa alegoria, criando uma obra de arte abrangente e multidisciplinar.

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