Tempo e sol de Luzia, 2019. Foto: Pedro Freitas.

DASARTES 83 /

Thiago Martins de Melo

Em momento de alta produção, THIAGO MARTINS DE MELO ganha individuais simultâneas no Rio de Janeiro e São Paulo e, com obras inéditas, constrói panoramas intricados e simbólicos da américa latina contemporânea. Por Ulisses Castro.

Filho de artista plástico, o maranhense Thiago Martins de Melo convive com arte desde a infância. Durante a adolescência, ele próprio passou a estudar pintura e arte contemporânea, chegando a ingressar mais tarde na faculdade de Educação Artística. Abandonou o curso para se formar em Psicologia, área na qual também possui o título de mestre. Apesar de se dedicar a uma variada gama de meios expressivos – entre eles a instalação, o vídeo e a escultura –, é a pintura que tem trazido ao artista maior projeção e reconhecimento. Melo é dono de uma pincelada vigorosa, que deixa na tela não apenas o rastro do pincel, mas também a própria massa da tinta em relevo, às vezes saída diretamente do tubo, estratégia empregada para imprimir tridimensionalidade tátil à pintura. Independentemente da mídia adotada, o trabalho do artista é capaz de arrebatar o espectador através de diversas instâncias – seja pelas cores, pelas dimensões, pela temática ou pela complexidade compositiva.

A chegada de Ogum e Iansã pós-Eckhout, 2019. Foto: Pedro Freitas

Tradicionalmente, Melo traz para sua obra temáticas sociais do contexto no qual está inserido, desde o mais restrito, a cidade de São Luís, do Maranhão, até o mais amplo, a América Latina. Interessa-lhe especialmente a opressão praticada sobre as minorias – índios, negros, homossexuais, favelados, artistas ou qualquer grupo de pessoas que não se encaixe na noção de Estado-nação pasteurizado que tem se anunciado no país nos últimos tempos. Apesar de não sentir na pele os desatinos sofridos por essa população tratada como marginal, não abre mão de ser um observador e, mais do que isso, um porta-voz. Nesse sentido, Melo se apresenta como um artista que utiliza seu trabalho para denunciar aspectos da sociedade que considera cruéis, injustos, absurdos.

Cada símbolo do universo criado por Melo é instigante e recompensador

Na visão de Thiago, esse tipo de temática exige uma urgência que dificulta a lida com questões formais e acadêmicas. É preciso ação imediata para que a obra reflita os acontecimentos da vida real. Apesar disso, o artista possui processo executivo que passa pelo estudo minucioso da composição, definido por ele mesmo como “barroquismo compositivo”. Ainda assim, Melo se permite tomar decisões durante a fatura das obras. Nada é engessado. A composição é flexível e aceita que determinados aspectos sejam resolvidos ou alterados durante a execução do trabalho. Para o espectador atento, isso se torna perceptível na obra e se constitui como uma característica plástica importante no trabalho do artista.

Sem título, 2019

Aliás, estar atento é uma condição sine qua non para o espectador das obras de Thiago Martins de Melo. Muito embora ele trabalhe com telas de grandes formatos, geralmente justapostas em grupos de dois, três ou quatro unidades formando verdadeiros painéis, o artista transita muito bem entre diversas escalas compositivas. Isso exige do espectador diferentes níveis de aproximação com a obra, desde os mais íntimos até os mais distanciados, a fim de que os episódios narrados por Melo em sua pintura sejam apreendidos em sua completude. Investir tempo decifrando cada detalhe, cada ícone, cada símbolo do universo criado por Melo é instigante e recompensador.

Necrobrasiliana, 2019. Foto: Filipe Berndt.

O expressivo currículo de Thiago Martins de Melo conta com participações em importantes exposições mundo afora, além de obras incluídas em coleções particulares e institucionais ao redor do globo. Agora, a Galeria Cavalo organiza a primeira individual do artista no Rio de Janeiro. Intitulada Rasga Mortalha, a exposição apresenta trabalhos inéditos de escultura, pintura e filme de animação. O título faz menção à lenda da coruja Suindara, folclore muito comum nas regiões Norte e Nordeste. Acredita-se que seu vulto branco e seu canto selvagem, que lembra o som de um pano sendo rasgado, sejam prenúncio de morte para aqueles que os presenciam. Essa é apenas uma das referências buscadas por Melo para a elaboração de Rasga Mortalha. Elas incluem ainda a poesia de Gonçalves Dias, o messianismo de Glauber Rocha, o conceito de necropolítica cunhado pelo pensador camaronês Achilles Mbembe, a mitologia Tupinambá́, a atual luta do povo Gamela no Maranhão, a literatura de cordel e as guerrilhas armadas nas selvas latino-americanas. É inevitável que tamanha multiplicidade de temas reflita plasticamente na obra do artista, revelando sua habilidade em organizar as complexas narrativas visuais que se propõe a fazer.

À esquerda: Rasga Mortalha, 2019 (Frame de vídeo).

 

Rasga Mortalha • Galeria Cavalo • 28/3 a 15/6/2019
Necrobrasiliana • Galeria Leme AD • 30/3 a 4/5/2019

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