Circle Yellow-19, 2019. Foto © Marc Domage

Dasartes 88 /

Takesada Matsutani

Retrospectiva no Centre Pompidou resgata a obra de TAKESADA MATSUTANI. O artista japonês possui uma jornada rica e original, iniciando com a pintura tradicional de nihonga e evoluindo para surrealismo, abstração até o seu período gutaï.

A retrospectiva permite traçar de forma ampla uma rota rica e original, começando a partir de um primeiro período que mistura, no final do ano de 1950, a pintura tradicional nihonga com uma “veia” surrealista, para evoluir em direção a uma abstração informal e posteriormente para Gutai, no início do ano 1960.

O fascínio de Matsutani pela matéria orgânica e sua propagação, já sensível de seu período Gutai, bem como a relação do artista com o espaço e o tempo, marcado pela cultura do budismo, levou-o, em seguida, nos anos 1970, a uma aventura em telas com toques hard-edge e, em seguida, a um trabalho noir muito pessoal.

Em 1963, com 26 anos, Matsutani é aceito no grupo Gutai (nome que evoca a relação concreta do artista com o material) por seu fundador Jiro Yoshihara (1905-1972). Suas telas abstratas de superfícies cobertas com bolhas abertas, obtidas a partir de um método de sua invenção utilizando cola vinílica, seduziu Yoshihara por sua novidade. O crítico Michel Tapie, promotor da arte informal no Japão no final dos anos 1950, também saudou a entrada de Matsutani em Gutai. Assim começava um diálogo com a matéria orgânica, base da obra que estaria por vir, e que Matsutani batizou como Propagação, na década de 1960.

Resistance (Pressure), 1958.
Foto © Kaoru Minamino © Takesada Matsutani

A vida e sua expansão fascinaram fortemente esse artista, que sofreu durante sua adolescência de tuberculose.

Ter observado células no microscópio pela primeira vez reforçou esse interesse, assim como as obras abstratas de Kandinsky.

Em 1966, por ganhar o primeiro prêmio de um concurso artístico franco- japonês, ele pôde se beneficiar de uma estada de seis meses na França, onde finalmente decidiu se instalar.

De 1967 a 1971, ele se dedicou à gravura no Atelier 17, de Stanley William Hayter, de quem ele se tornou assistente. Descobriu também a serigrafia e se comprometeu com um novo estilo próximo do hard-edge americano. Mas, para ele, as noções de propagação, incluindo o desenvolvimento nas três dimensões, predominaram sempre, sem uma verdadeira influência das teorias americanas.

Superposition 92-2, 1992. © Takesada Matsutani.

Na França, Matsutani reconsiderou, por meio de várias leituras, sua reflexão espiritual, marcada pelo xintoísmo e o budismo, que foram a base de sua infância. Dessa forma, ele evoluiu para um estilo cada vez mais pessoal, onde a experiência do material orgânico se misturava com um trabalho sobre o conceito de espaço-tempo.

A partir de 1977, ele começou a série Streams ou Courants, onde se concentrou no uso do papel, do grafite e da tinta sumi. Essas obras, feitas em longas tiras de papel com quase dez metros de comprimento, tornaram visível o gesto paciente do artista, a sucessão de traços de grafite, o tempo necessário para se concluir a obra, assim como o momento final em que a tinta flui pela ação de Matsutani.

Tendo redescoberto seu velho material “fetiche”, a cola vinílica, ele a integrou ao longo dos anos 1980 aos Streams para criar superfícies curvas na tela ou no papel.

Stream-87-P, 1987. Foto: Patrick Rimond.

Matsutani desenvolveu mais amplamente o trabalho in situ com instalações cada vez mais imponentes, muitas vezes ativadas durante performances (aplicação de tinta sobre tela ou pedra). A partir de 2015, a cor começou a desempenhar um papel significativo no trabalho de Matsutani, com formatos incomuns e circulares de cores brilhantes, amarelas, azuis e verdes.

Um dos poucos artistas japoneses que construiu a maior parte de sua carreira na França, Matsutani recebeu uma homenagem merecida e tardia por sua aventura artística excepcional que o levou através de uma experimentação constante com a matéria orgânica conectada ao espiritual, em direção à busca de sua “imagem interior”.

 

 

Compartilhar:

Confira outras matérias

Reflexo

VIVIAN CACURI

VIVIAN CACCURI CRIA OBJETOS, INSTALAÇÕES E PERFORMANCES QUE BUSCAM REFORMULAR A EXPERIÊNCIA COTIDIANA E, POR EXTENSÃO, PERTURBAM AS NARRATIVAS TRADICIONAIS. EM …

Flashback

ARTEMISIA GENTILESCHI

ARTEMISIA GENTILESCHI FOI UMA DAS MAIORES PINTORAS DO PERÍODO CONHECIDO COMO BARROCO ITALIANO. NASCIDA NA ÚLTIMA DÉCADA DO SÉCULO 16, …

Capa

LYNETTE YIADOM-BOAKYE

AS FIGURAS NAS PINTURAS DE LYNETTE YIADOM-BOAKYE NÃO SÃO PESSOAS REAIS – ELA AS CRIA A PARTIR DE IMAGENS ENCONTRADAS …

Destaque

JUDY CHICAGO

MUSEU DE SÃO FRANCISCO CELEBRA A ARTISTA FEMINISTA PIONEIRA JUDY CHICAGO COM A PRIMEIRA RETROSPECTIVA DE SEU TRABALHO. DESDE O SEU …

Alto relevo

KATHARINA GROSSE

A PINTURA DE KATHARINA GROSSE PODE APARECER EM QUALQUER LUGAR. SEUS EXTENSOS TRABALHOS SÃO MUNDOS VISUAIS MULTIDIMENSIONAIS NOS QUAIS PAREDES, TETOS, …

Alto relevo

AQUILO QUE NÃO SE VÊ - PARA OXÓSSI

“Fungos e liquens aniquilam as nossas categorias de gênero. Eles reorganizam nossas ideias de comunidade e cooperação. Ferram com o …

Garimpo

JANA EULER

CONSTRUINDO FABULAÇÕES PICTÓRICAS EXCÊNTRICAS, AS INÚMERAS TÉCNICAS DE CRIAÇÃO DE IMAGENS DA ARTISTA ALEMÃ JANA EULER EXAMINAM E EXAGERAM AS …

Reflexo

Ana Paula Oliveira

A ARTISTA MINEIRA RADICADA EM SÃO PAULO, ANA PAULA OLIVEIRA CRIA SITUAÇÕES POR MEIO DE DIVERSAS LINGUAGENS E MATERIAIS E …

Flashback

JAMES TISSOT

PINTOR BRILHANTE DA ALTA CLASSE SOB O SEGUNDO IMPÉRIO E DOS COSTUMES DA SOCIEDADE VITORIANA INGLESA, DOS ARISTOCRATAS ELEGANTES E …

Capa

ALEX KATZ

ALEX KATZ (NEW YORK, 1927) É UMA DAS FIGURAS-CHAVE DA HISTÓRIA DA ARTE AMERICANA DO SÉCULO 20 E UM PRECURSOR …

Destaque

WOLFGANG TILLMANS

WOLFGANG TILLMANS É CONHECIDO POR EXPLORAR OS LIMITES DA FOTOGRAFIA E DA IMAGEM. TODAY IS THE FIRST DAY É A …

Alto relevo

FRANK WALTER

A OBRA DO ARTISTA CARIBENHO FRANK WALTER PARECE ESTAR EM OPOSIÇÃO ÀS ATRIBUIÇÕES RACIAIS E NACIONAIS PERMANENTES ÀS QUAIS ELE …

Alto falante

A MALHAÇÃO DE BRITTO

No passado mês de agosto, uma polêmica mobilizou as chamadas redes sociais no limbo de silício. Um episódio que trouxe …

Reflexo

FLAVIA JUNQUEIRA

AS INGÊNUAS BEXIGAS DE ENCHER DA ARTISTA FLAVIA JUNQUEIRA POVOAM O BRASIL DE NORTE A SUL. INSEREM CONOTAÇÕES POLÍTICAS, FILOSÓFICAS, …

Flashback

LUCAS CRANACH

ARQUETÍPICO HOMEM RENASCENTISTA, LUCAS CRANACH, O VELHO, FOI UM DOS ARTISTAS ALEMÃES DE MAIOR SUCESSO DE TODOS OS TEMPOS. AS …