Franchise Freedom, 2017. Foto: © Studio Drift.

DASARTES 131 /

STUDIO DRIFT

A DASARTES FALOU COM EXCLUSIVIDADE COM O STUDIO DRIFT, COLETIVO HOLANDÊS FUNDADO EM 2007 PELOS ARTISTAS LONNEKE GORDIJN E RALPH NAUTA, QUE EXPÕE PELA PRIMEIRA VEZ NO BRASIL. A DUPLA TRABALHA CRIANDO ESCULTURAS, INSTALAÇÕES E PERFORMANCES EXPERIMENTAIS QUE FUNDEM ARTE, DESIGN, TECNOLOGIA, CIÊNCIA E NATUREZA

Drifter Coded Nature, Stedelijk Museum, 2018. Foto: Ronald Smits. © Studio Drift.

Sempre fui hipnotizada pela natureza. Na infância, tínhamos um pequeno lago em nosso jardim e eu passava horas deitada de bruços pendurada com a cabeça (quase) na água, examinando todos os organismos vivos. Acho fascinante que o mundo natural pode se abrir para você se você tirar um tempo para admirar. Em um metro quadrado, há tanta vida e movimento a serem descobertos. Desde então, nunca mais parei de olhar e me questionar sobre os processos naturais.

DRIFT se inspira nesse mundo natural para criar ambientes que conectam as pessoas dentro dele, transformando um espaço em um campo de vida e movimento. Ao criar obras de arte que reproduzem movimentos universais, procuramos provocar a mesma reação subconsciente em ambientes além do mundo natural, provocando uma sensação de admiração e poesia. O que me leva à minha primeira obra de arte escolhida:

 

SHYLIGHT

Shylight, 2023. CCBB Rio. Foto: Joana França. © Studio Drif

Shylight examina o processo durante o qual certos tipos de flores fecham à noite – para conservar seus recursos e como método de autodefesa. Esse mecanismo natural altamente evoluído é chamado de “nictinastia” e nos inspirou a criar Shylight. A escultura desce, desdobrando-se e se recolhendo novamente em si mesma em uma coreografia hipnotizante, espelhando a nictinastia das flores reais.

Como humanos, respondemos visceralmente a uma flor desabrochando, e nosso desafio foi dar forma a esse exato sentimento. Shylight se tornou uma obra de arte que parece viva graças aos seus movimentos imprevisíveis e naturais. Ao contrário dos objetos feitos pelo homem, os seres naturais (incluindo as pessoas) estão sujeitos a uma constante metamorfose e adaptação ao seu ambiente. Shylight é a nossa resposta à pergunta “como objetos inanimados podem imitar essas evoluções e processos naturais enquanto expressam caráter e emoção?”.

Shylight, 2023. CCBB Rio. Foto: Joana França. © Studio Drift.

 

EGO

Ego, 2020. Ossip van Duivenbode. Foto: © Studio Drift

Ego é um bloco móvel de grande escala feito à mão. Escolhemos esse material de fluorocarbono devido à sua qualidade reflexiva. Se você incide luz sobre ele, os fios podem absorver e irradiar um prisma de cor. Fiquei atraída pela ideia de usar um bloco, que considero a forma definitiva feita pelo homem. Ego, portanto, representa o estado de espírito humano e como sua rigidez muda de uma perspectiva para outra; expondo emoções e mecanismos humanos como medo, esperança e estados de solidão.

A obra de arte originalmente fazia parte de uma interpretação moderna de uma das óperas mais antigas do mundo – l’orfeo, encenada pela The Dutch National Touring Opera. A instalação pairava sobre as cabeças dos artistas e mudava de forma para representar o mundo interior dos personagens no palco. Como essa foi a primeira vez que um bloco desse tamanho foi tecido, tivemos que desenvolver nosso próprio tear. Durante a apresentação, um marionetista dirigia o bloco ao vivo por meio de algoritmos e softwares para que ficasse totalmente alinhado com os dançarinos e cantores. Isso permitia que Ego aparecesse sólido em alguns momentos e, em outros momentos, fluido como a água.

 

FRAGILE FUTURE

Fragile Future, 2023. CCBB Rio. Foto: Joana França. © Studio Drift.

Fragile Future foi meu projeto de graduação e evoluiu para nossa primeira arte DRIFT. A escultura consiste em circuitos elétricos tridimensionais de bronze conectados a dentes-de-leão emissores de luz. Estes são verdadeiros dentes-de-leão que anualmente são colhidos à mão e colados, semente a semente, a luzes LED. Embora os dois elementos contrastem visualmente (circuitos rígidos e angulares com dentes-de-leão delicados), eles se unem como nossa visão de um cenário futuro positivo.

Embarcamos nesse projeto como uma visão crítica, mas utópica, sobre o futuro do nosso planeta, onde dois elementos aparentemente opostos fizeram um pacto para sobreviver. Com esse trabalho, espero que as pessoas olhem e valorizem a natureza de maneiras diferentes ou reveladoras. No final, toda tecnologia é baseada na natureza, e a natureza é muito mais avançada do que qualquer tecnologia que possamos inventar.

Flylight Carpenters. Foto: Carpenters Workshop Gallery. © Studio Drift.

 

AMPLITUDE

Amplitude, 2023. CCBB Rio. Foto: Joana França. © Studio Drift.

Amplitude é uma instalação cinética de vidro. Quarenta barras de vidro são colocadas em pares e suspensas no teto. Os pontos de conexão servem como pivô para cada par, dando a impressão de que estão suspensos no espaço, atraindo uma sensação de leveza. Os fios são conectados a um sistema elétrico que move as barras para cima e para baixo. Cada par se move em uma fase diferente do outro, parecendo asas batendo suavemente. O vidro reflete a natureza e a fragilidade inerente ao movimento. Ao mesmo tempo, o vidro em movimento espalha a luz natural do espaço e a reflete em raios em movimento.

O movimento e os elementos móveis (dentro e fora do equilíbrio) estão presentes em toda a natureza. Sem movimento não há vida e queremos que as pessoas sintam essa essência ao vivenciar Amplitude. Descrevo, portanto, esta obra como uma homenagem ao nosso desejo humano de poder voar, apesar da força da gravidade, e à poesia da persistência diante da adversidade.

CODED NATURE

Coded Nature, 2023. CCBB Rio. Foto: Joana França. © Studio Drift.

Coded Nature é um software que exibe um enxame digital interativo em tempo real, exibido em uma tela de vídeo LG de 55”. Um enxame autônomo de blocos DRIFT voadores responde ao movimento do público diante dele, refletindo tanto as infinitas oportunidades de criação na natureza quanto o fluxo contínuo de mudanças.

Há mais de uma década, estudamos os padrões de voo dos pássaros estorninhos em bando. O bando, como um organismo autônomo, expressa liberdade, enquanto os pássaros individuais devem aderir a regras estritas para não voar uns contra os outros. A imagem resultante é uma tradução maravilhosa de como vivemos juntos, como pessoas, e buscamos nosso próprio lugar dentro ou fora da sociedade.

STUDIO DRIFT: VIDA EM COISAS • CENTRO CULTURAL BANCO DO BRASIL •
(CCBB RIO 29/3 A 22/5/2023) • (CCBB SÃO PAULO 13/6 A 7/8/2023) •
(CCBB BELO HORIZONTE 26/8 A 6/11/2023) •
(CCBB BRASÍLIA 27/11 A 21/1/2024)

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