O Hotel,1981-1983

DASARTES 118 /

SOPHIE CALLE

O CENTRE POMPIDOU MÁLAGA REVISA QUASE 40 ANOS DE CRIAÇÃO DA FRANCESA SOPHIE CALLE POR MEIO DE UMA EXPOSIÇÃO INÉDITA QUE RELEMBRA CERTOS TEMAS HABITUAIS DA ARTISTA: RELAÇÕES AMOROSAS, AUSÊNCIA OU MESMO PERDA

A exposição abre com a série Le Mari (O Marido, 1995), que narra a relação sentimental entre Sophie Calle e seu ex-parceiro Greg Shephard, com quem dirige o filme No sex last night, um filme autobiográfico sobre a jornada que fizeram juntos pelos Estados Unidos em 1992.   

L’Hôtel (O Hotel, 1981-1983) mostra uma nova faceta de Sophie, que entra na pele de uma camareira de hotel e expõe a intimidade de estranhos sem que eles saibam.  

Com a série Douleur exquise (Dor apurada, 1984-2003), a artista examina uma difícil ruptura sentimental vivida em 1984, que equilibra com os relatos da dor de pessoas anônimas.   

A digressão termina com Souris Calle (2018), uma das suas últimas obras, apresentada pela primeira vez na Espanha. A artista relata a perda de seu gato Souris (que se traduz como Rato e Sorriso) e o vazio de sua ausência por meio de um vídeo e um álbum de música. 

No Brasil, a mídia cobriu extensamente a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle, que esteve em cartaz em várias cidades do país. Afinal, o que pretendia essa artista, que foi abandonada pelo namorado e transformou isso em um trabalho de arte? Muitos condenaram os temas íntimos e pouco ortodoxos abordados por Calle, mas não o público, que reagiu com compaixão à situação dela. Em entrevista exclusiva à Dasartes, Calle falou de sua obra.

A cirurgia plástica,
2013.

TRECHOS DA ENTREVISTA POR MARIANA GOMES PAULSE 

 TAKE CARE YOURSELF (CUIDE DE VOCÊ, 2007) 

 “Recebi uma carta de rompimento por e-mail que não soube responder. Era como se não fosse a mim destinada. Terminava com as seguintes palavras: Cuide bem de você. Tomei essa recomendação ao pé da letra. Pedi a 107 mulheres, escolhidas por sua profissão, seu talento de interpretar a carta sob um ângulo profissional. Analisá-la, comentá-la, interpretá-la, dançá-la, cantá-la. Dissecá-la, esgotá-la. Fazer-me compreender. Falar no meu lugar. Uma maneira de sentir o tempo do rompimento. No meu ritmo. Cuidar bem de mim. Primeiro, eu não sabia como responder a essa carta, então, eu pedi conselhos a uma amiga. Talvez porque eu esteja acostumada a usar elementos da minha vida na arte, rapidamente me veio a ideia e já tentei visualizar o que poderia ser feito em termos de imagem. A partir daí, o trabalho tomou forma bem rapidamente.”

Take care yourself
(Cuide de você, 2007)

EXQUISITE PAIN (DOR APURADA, 1984-2003) 

 “Em 1984, ganhei uma bolsa do Ministério de Relações Exteriores francês para ir ao Japão por três meses. Parti em 25 de outubro, sem saber que essa data marcava o começo de uma contagem regressiva de 92 dias para o fim de um caso amoroso. Nada extraordinário – mas para mim, na época, o momento mais infeliz de minha vida, e um pelo qual eu culpei a viagem em si. 

Voltei à França em 28 de janeiro de 1985. A partir daquele momento, sempre que as pessoas me perguntavam sobre a viagem, eu pulava a parte sobre o oriente e contava sobre o meu sofrimento em vez disso. Por minha vez, passei a perguntar aos amigos e pessoas com quem cruzava: ‘Quando foi que você mais sofreu?’ 

Fiz isso sistematicamente até que superei minha dor, comparando-a com a de outras pessoas, ou gastando minha estória por simples repetição. O método se provou radicalmente eficaz: três meses mais tarde, eu estava curada. No entanto, temendo uma possível recaída, decidi não explorar o experimento artisticamente. No momento em que voltei a ele, 15 anos haviam se passado.”

Exquisite pain
(Dor apurada, 1984-2003)

 NO SEX LAST NIGHT (SEM SEXO NA NOITE PASSADA, 1992) 

 “Cada um de nós falou quase exclusivamente para a câmera, porque nosso relacionamento se deteriorou tanto que não nos falamos mais. Falta de diálogo, falta de técnica, tudo se resume a isso.  

Em Take care yourself (Cuide de você, 2007) e Douleur exquisite (Dor apurada, 1984-2003), fiz um trabalho a partir do término de uma relação amorosa, propondo às pessoas que falassem sobre a experiência mais dolorosa da vida delas. Esses são os dois únicos trabalhos, de todos que eu fiz, em que há alguém que eu conheço como tema, além de No sex last night (1992), que foi feito em conjunto. Normalmente, os sujeitos são anônimos.”  

Em No sex last night, Sophie Calle iniciou uma viagem de carro pelos Estados Unidos com seu parceiro, Greg Shephard, da Costa Leste à Costa Oeste, rumo a Las Vegas, cidade onde planejavam se casar, apesar do fato de que seu relacionamento estava desmoronando. O filme mostra as perspectivas entrelaçadas dos dois protagonistas, que se filmam durante as três semanas de viagem, em seu Cadillac e nos muitos motéis onde passaram a noite.

No sex last night
(Sem sexo na noite passada, 1992)

 

SUITE VÉNITIENNE, 1979 

Nos registros de eventos cotidianos de Suite vénitienne (1979), em que eu sigo um desconhecido, eu não procuro qualquer evento extraordinário. Se algo extraordinário acontece, acaba para mim, porque se torna jornalístico. Imagine se o cara que eu estou seguindo mata alguém: é o fim, o tema me pregou uma peça. Eu só posso trabalhar com a banalidade.”

ADDRESS BOOK (LIVRO DE ENDEREÇOS, 1983) 

 “Em Address Book, eu tive problemas, mas, mesmo quando eu fui culpada disso, a excitação foi maior, então eu faria de novo.”  

 Em Address Book, Calle telefona às pessoas que aparecem em um caderno de endereços encontrado na rua e pede que eles falem do proprietário do caderno. Esses depoimentos foram publicados em 28 episódios no jornal francês Libération, montando um retrato de um homem a partir do ponto de vista de conhecidos. O proprietário do caderno processou Calle por invasão de privacidade.  

L’HÔTEL (O HOTEL, 1981-1983)  

 “Observei em detalhes vidas que me eram estranhas”, explica a artista na tentativa de definir essa ambivalência entre a descoberta e a impossibilidade de captar, mesmo no mais íntimo, a essência do outro. 

 Em 16 de fevereiro de 1981, Sophie Calle conseguiu um emprego como empregada doméstica em um hotel veneziano. Durante três semanas, ele analisou o sono e a intimidade dos hóspedes. A fotografia a cores de cada sala está associada a um texto semelhante a um boletim de ocorrência, salpicado de reflexões pessoais e ilustrado com fotografias em preto e branco. Fotografia e pesquisa coincidem aqui geminados em um desejo de representar a realidade.

(hotel, 1981-1983)

Sophie Calle nasceu em 9 de outubro de 1953, em Paris. Seu pai, Robert Calle, era médico e colecionador de arte. Desde a infância, visitava regularmente a Camargue, região do sul da França de onde vem a família paterna, pela qual sente um carinho especial.   

No início dos anos 1970, ela deixou a França e viajou pelo mundo. Ao regressar, em 1979, começou a seguir estranhos na rua, gesto artístico que deu origem ao seu primeiro projeto, Suite vénitienne.

Suite Vénitienne, 1979

 Em 1981, mudou-se para Malakoff, ao sul de Paris, e estabeleceu seu estúdio em uma fábrica abandonada, que dividia com os artistas Christian Boltanski e Annette Messager. Sua retrospectiva M’as-tu-vue, no Centro Pompidou, em 2003, aumentou sua notoriedade entre o público em geral. Realizou inúmeras exposições em todo o mundo e, em 2007, representou a França na Bienal de Veneza. Sophie Calle também é autora de vários livros, incluindo Historias reales, traduzido em seis idiomas.   

SOPHIE CALLE •
CENTRE POMPIDOU MALAGA • ESPANHA •
01/11/2021 A 30/4/2022

 

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