Ao inaugurar paradigma na historiografia da arte europeia que se consolidaria a partir do século 18, Johann Joachim Winckelmann estabeleceu critérios que se baseavam na escultura grega clássica como forma de beleza ideal, manifestos nos modelos de proporção, equilíbrio e harmonia. Para o historiador, por essa razão, o barroco representava não apenas um afastamento desses valores, mas uma degeneração estilística, marcada pelo excesso, pela multiplicidade e pela assimetria. Essa rejeição se exemplificava de modo contundente na injúria dirigida a Gian Lorenzo Bernini, cuja obra Winckelmann considerava um exemplo de mau gosto e de corrupção dos princípios clássicos. Segundo ele, Bernini teria levado a escultura ao exagero teatral, à dramaticidade excessiva e à ornamentação desmedida, comprometendo aquilo que entendia como a essência da verdadeira arte: a simplicidade, unidade e harmonia formal. Essa perspectiva influenciou profundamente estudiosos e artistas que se seguiram e contribuiu para uma rejeição sistemática ao barroco como campo de invenção, relegando-o ao papel decadente diante do classicismo que se sedimentava a partir de então.

Espiral, 2021. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.

Sem título, Série Torção, 2015. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.
Na produção artística contemporânea de Sonia Gomes, entretanto, esse barroco, longe de caracterizar excesso ou desvio, converte-se em terreno fértil à produção de formas cuja soma das diferenças gera potência, inovação e resistência. Isso porque, aqui, ele se transforma em síntese de linguagens que se entrecortam nas dinâmicas de tecidos ameríndios, afro-brasileiros e de matriz europeia, tornando-se expressão de resistência cultural e afirmação identitária. Como aponta Paulo Miyada, curador da mostra que ora se apresenta no Instituto Tomie Ohtake, essa origem não pode ser entendida como continuidade mecânica ou repetição estéril, mas como ideia de que o barroco é um terreno que não cessa de rebentar distintas criações, ontem e hoje.
Nesse contexto, é fundamental considerar a reflexão de João Adolfo Hansen sobre o próprio conceito de barroco. Hansen problematizava a ideia de barroco como categoria fixa e universal, questionando sua aplicação acrítica e anacrônica à produção artística colonial e contemporânea. Para Hansen, o barroco não é um conceito estável, mas um campo de ruínas, ambiguidades e múltiplas interpretações, que desafia qualquer tentativa de definição única ou teleológica. O autor sugeria que, em vez de buscar uma essência barroca, é mais produtivo investigar as ruínas, os vestígios e as transformações que o termo sofreu ao longo do tempo, reconhecendo sua pluralidade e sua capacidade de se reinventar em diferentes contextos históricos e culturais.

Sem título, Série Pendentes, 2021. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.
Frequentemente reaproveitando materiais impregnados de memórias e afetos…
E a obra de Sonia Gomes materializa essa potência. Nascida em Caetanópolis, Minas Gerais, a artista construiu uma trajetória marcada por experimentação e ruptura de fronteiras entre arte, artesanato e práticas cotidianas. Suas esculturas e instalações são compostas por tecidos, linhas, rendas, cordas, objetos encontrados, arames e madeira, frequentemente reaproveitando materiais impregnados de memórias e afetos. Seu processo criativo envolve costuras, amarrações, torções, sobreposições e cortes, formando abrigos, tramas e invólucros que dialogam com a escala do corpo e com a ancestralidade. Cada obra é resultado de uma pesquisa manual e sensível, em que o gesto de torção, embrulho e costura evocam práticas femininas e saberes transmitidos por gerações, em especial pela avó benzedeira e parteira.

Sem título, Série Pendentes, 2021. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.
A poética dos retalhos e das sobreposições em Sonia Gomes habita uma estética dos movimentos, elaborando uma linguagem visual e tátil que propõe sentidos provisórios e originais. Suas esculturas, como as séries Torção, Raiz, Lugar para um corpo e Meu amarelo é ouro, apresentam formas orgânicas, curvas, espirais e volumes assimétricos, muitas vezes penduradas ou suspensas no espaço expositivo, criando ambientes imersivos e dinâmicos (e que ganharam força especial na referida mostra). O uso de tecidos desgastados, tramas imperfeitas e materiais reaproveitados traduz simbolicamente as complexidades e contradições da existência brasileira como um todo, material e simbólica, acumulando memórias silenciadas e latências de formas inesperadas. O protagonismo da agulha, que une partes distintas, pode, com efeito, simbolizar a capacidade de costurar essas experiências e lembranças.
Ainda que a agulha carregue uma ambiguidade: a reparação, a cura e a reconstrução, pode também ferir, pois, ao atravessar o tecido, inscreve marcas de dor e memória. Sonia Gomes reconhece essa dualidade, afirmando que “o mesmo instrumento capaz de terebrar um tecido para feri-lo pode ser a cura ou a reparação de uma dor através de outra costura”. Assim, suas obras evocam tanto as cicatrizes quanto as possibilidades de recomposição, tornando visível o processo histórico de constituição da brasilidade, marcado por feridas ignoradas e silenciadas, mas também por gestos de resistência e reinvenção. Cada ponto, cada emenda, cada sobreposição pode apontar não apenas para a complexidade do corpo social brasileiro, mas também para a potência de criar novos sentidos a partir do que foi cerzido e transformado.

Gaiola, 2021. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.

Sem título, Série Torção, 2012. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.
A própria artista reflete sobre o sentido de sua produção: “O material chega aqui pedindo socorro!” – diz Sonia Gomes, ao comentar o modo como recolhe tecidos e objetos já usados, carregados de histórias e afetos, para transformá-los. “A forma guarda uma vida”, indicando que cada peça é resultado de uma soma de experiências, memórias e gestos, e não de uma busca por unidade ou perfeição. Sonia Gomes reconhece o barroco em sua obra, não como citação direta à história da arte, mas como herança viva, como campo de liberdade e invenção: “Barroco, mesmo”, reafirma a artista, assumindo a multiplicidade e a exuberância como parte de sua identidade criativa.
Assim sendo, ao transformar o têxtil em superfície de resistência, Sonia Gomes afirma a soma das identidades como força política e poética, deslocando um tipo de trabalho invisibilizado por uma condição social, étnica e de gênero para o campo da visualidade artística. Distinguindo fazeres economicamente secundarizados e diluindo fronteiras instituídas pelo mercado da arte, a artista constrói uma identidade afrocentrada, marcada pela resistência e reinterpretação.
Portanto, no barroco de Sonia Gomes, encontra-se a dignidade das feridas, das memórias e das ancestralidades. Suas esculturas têxteis são superfícies de narrativas individuais e coletivas, formas de habitar e ocupar territórios, instrumentos para a luta contra qualquer tipo de violência e mecanismo diário em favor da sobrevivência. Se a alma, o olho e a mão estão inscritos no mesmo campo, como observava Walter Benjamin, então eles interagem e definem uma prática em que a narrativa tecida é também narrativa de corpo e pensamento, trabalho e voz.

Sem título, Série Torção, 2005. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.

Espiral, 2021. Foto: Estudio em obra. © Sonia Gomes.
Se, para Winckelmann, o barroco era o excesso que ameaçava a unidade, para Sonia Gomes é justamente na soma que reside a potência criativa e transformadora do “barroco contemporâneo”. Sua obra convida a repensar o lugar da multiplicidade, da memória e da resistência na arte, e ensina que a soma não é apenas acúmulo, posto que criação. O barroco, mesmo, é o gesto poético que provoca assombrosa e preciosa beleza: é no excesso, na sobreposição e na mistura que se revelam a potência de criar novos mundos.
Fabrício Reiner é mestre em Filosofia com especialização em Culturas e Identidades Brasileiras (2016) e Bacharel em História (2005), ambos pela Universidade de São Paulo. Aperfeiçoou-se em museologia e história da arte em Siena (2008). Desenvolveu e participou de diversos projetos acadêmicos e curatoriais junto à Biblioteca Mário de Andrade, à Biblioteca Guita e José Mindlin e ao Instituto de Estudos Brasileiros da USP. Doutorando em História da Cultura pela USP, atua como pesquisador e curador.


