Embate (O Eu e o Outro), 2010. Foto: © Sidney Amaral

DASARTES 125 /

SIDNEY AMARAL

SIDNEY AMARAL (1973-2017), ARTISTA CONTEMPORÂNEO QUE FALECEU DE FORMA PRECOCE, DEIXOU UM LEGADO QUE ALARGA A REFLEXÃO SOBRE A DIÁSPORA AFRICANA. SESC BELENZINHO EXPÕE CONJUNTO DE OBRAS DO ARTISTA QUE EVIDENCIA A SUA VERSATILIDADE

VIVENDO ATÉ O FIM O QUE LHE COUBE

POR CLAUDINEI ROBERTO DA SILVA

Bem Me Quer, Mal Me Quer | 2011. Foto: © Sidney Amaral

Só muito recentemente a arte afrodiaspórica produzida no Brasil recebe a atenção merecida, e, no entanto, mesmo esses incipientes cuidados são considerados, por alguns, excessivos e mesmo desnecessários. Essa fração da crítica e do público ignora que, durante longos anos, a produção simbólica dos afrodescendentes padeceu as consequências deletérias do racismo estrutural que torna invisível a história dessa parcela da nossa população. Apesar disso, e concomitantemente aos avanços das lutas antirracistas, por inclusão e igualdade, as realizações artísticas emergem e se afirmam a partir de uma excelência que confirma qualidades geralmente recusadas aos criadores da diáspora afroatlântica. Ora, são várias as estratégias usadas pelos artistas negros e negras na construção de repertórios plásticos que enfrentem a complexidade da realidade em que estão inseridos. A obra legada por Sidney Amaral participa de uma tradição de excelência que considera de maneira crítica e dialógica o fazer arte e sua inserção nos circuitos ainda reticentes, não obstante os avanços, em recebê las. Será que vimos o suficiente das obras que já observamos?

Se As Minhas Palavras Não Forem Melhores Que O Meu Silêncio, 2011. Fotos: © Sidney Amaral.

A escultura, o desenho, a pintura, a gravura são todos veículos apropriados à verve poética de Amaral, que, por meio delas, formulava narrativas de uma tal densidade que torna possível observá-las a partir de pontos de vista distintos. Dada a sua refinada execução, a série de “naturezas mortas” presentes na exposição, existe a possibilidade de considerar Amaral participante de uma tradição que remete ao pintor negro Estevão Roberto da Silva, acadêmico que teve atuação importante no fim do século 19. Ao mesmo tempo, investigar essas “naturezas mortas” nos aproxima do cotidiano do artista e mesmo da subjetividade que elas expressam. A série de desenhos em que o artista, magnificamente, representa as próprias mãos parece confirmar a opção que ele fez por revelar todo um universo de subjetividade partindo de pequenas partes que falam sobre o todo.

Sem título.

Notável pelo domínio das técnicas de que lança mão na realização dos seus trabalhos, Sidney Amaral, de maneira recorrente, produziu autorretratos. Nesses trabalhos, não foi apenas a sua biografia que estava sendo elaborada, o que ele nos ofereceu, a partir daí, diz respeito a todos que dessa experiência participam, por meio da reflexão silenciosa que tem como gatilho a contemplação das obras.

Dada a densidade formal e de conteúdo que a obra legada a nós por Sidney Amaral tem, uma das questões que se levanta é justamente esta: Será que vimos o suficiente dessas obras que já observamos? O conhecimento sugere que o diálogo travado entre nós e as obras de arte é continuamente renovado por nossas vivências, não sendo, por isso, imutáveis os sentidos que atribuímos a elas, tanto mais a essas de Sidney Amaral, tão plenas de um vigor que pode ser observado até nos desenhos preparatórios que têm destaque nesse cotejo de obras que o Sesc Belenzinho apresenta e pretende nos aproximar do universo desse artista incontornável.

O Pão Nosso, 2014. Fotos: © Sidney Amaral

APROXIMAÇÕES PARA ULTRAPASSAR O FIM

POR DANILO SANTOS DE MIRANDA

Diálogos/Encontro, 2015. Fotos: © Sidney Amaral.

Assumir o corpo como território de linguagem pode ser um percurso em direção ao reconhecimento das camadas discursivas que o compõem e que dele podem emergir desde sua constituição material e subjetiva.

Sendo linguagem, assume, portanto, a qualidade plural, e não universal, de forma que o que se nomeia no ocidente, nas Américas e no Brasil é atravessado por experiências embricadas em uma densa malha de fios que se interseccionam e costuram corporalidades marcadas pelo trauma da escravidão, genocídio de povos originários, múltiplas desigualdades, racismo estrutural e demais efeitos da colonização.

Estudo para O Anjo, 2016. Foto: © Sidney Amaral.

Estudo para O Anjo, 2016. À direita: Dor Fantasma, 2014. Fotos: © Sidney Amaral.

Encarnada no mundo, a carne é impossível à neutralidade, e é dessa posição que Sidney Amaral apresentou sua obra igualmente encarnada enquanto recurso de elaboração e fabricação de narrativas. A partir de diversas técnicas como desenho, escultura, pintura e gravura, o artista e educador fazia do autorretrato e de elementos do cotidiano um dos caminhos frequentes para alcançar representações ambíguas, irônicas e, por vezes, desconfortáveis sobre o que pode ser a experiência social e íntima de uma pessoa negra no país.

Banzo ou A Anatomia de Um Homem Só, 2014. Foto: © Sidney Amaral.

O contraste elaborado por suas criações aciona a complexidade humana e, da especificidade de fazer uso de sua própria imagem, transcende do indivíduo ao coletivo, estabelecendo potências de identificação e significações frente às violências raciais que homogeneízam e destituem pessoas negras de sua condição de sujeito. É dessa espessura poética que se consolida a exposição Viver até o fim o que me cabe! – Sidney Amaral: uma aproximação, com curadoria de Claudinei Roberto, guardião não só de suas produções após o precoce falecimento de Sidney, como da tentativa de nos aproximar de seu acervo vivo.

O alcance de Sidney Amaral percorre temporalidades que permeiam o presente, de forma que sua morte não o extingue, mas nos convoca a não hesitar no resguardo de artistas contemporâneos, exercício caro ao Sesc diante da compreensão de que promover o patrimônio afro-brasileiro é promover a cultura brasileira, e partilhar das perguntas que a arte nos impõe é nos colocar em contato com a coletividade e fortalecer novos conhecimentos para além dos hegemônicos.

Claudinei Roberto da Silva é artista visual e de
performance por formação (e prática) e tem uma
extensa experiência como curador.

Danilo Santos de Miranda é gestor cultural e Diretor
Regional do Sesc São Paulo desde 1984.

VIVER ATÉ O FIM O QUE ME CABE! – SIDNEY AMARAL: UMA
APROXIMAÇÃO • SESC BELENZINHO • SÃO PAULO •
26/10/2022 A 26/2/2023

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