A INTENÇÃO E O GESTO

Prisma Triangular, 1981-2015. Foto: © Sérvulo Esmeraldo
Sérvulo Esmeraldo (1929-2017) é referência obrigatória na história da arte brasileira. Nasceu na cidade do Crato, no Cariri cearense, região carregada de cultura e beleza em pleno Brasil profundo e verdadeiro. Como a maioria dos artistas de sua geração, iniciou seus trabalhos a partir da observação da paisagem. De imediato interessou-se pelo movimento, pela transformação dos fenômenos da natureza, pela dinâmica dos corpos e pela dialética do saber.
Ainda criança, começou a produzir pequenas engenhocas que se apropriavam da corrente dos riachos abundantes na região. Nessa busca entre os fenômenos naturais e a intervenção humana, o artista aproxima arte e ciência, processo e criação, objetividade e liberdade criativa. A percepção de determinada equação visual descoberta pela observação da paisagem é imediatamente respondida pela ação transformadora do artista. Há, portanto, uma decorrência direta entre a intenção e o gesto, entre o que se vê, o que se descobre, o que se cria e o que se transforma.
Ao longo de toda sua vida, Sérvulo morou em Fortaleza, em São Paulo, no Rio de Janeiro e, depois, por duas décadas, em Paris. Em meados da década de 1970, o artista retorna à Fortaleza e, sob o impacto da paisagem equinocial, suas obras incorporam a cor e a monumentalidade. Sérvulo, viajante, jamais deixou de ser o menino curioso do Crato. Por isso, suas obras se distanciam da austeridade construtiva e se afirmam como elementos carregados de beleza, inquietude e sedução.

Relevo, 1981/2016. Foto: © Sérvulo Esmeraldo

Prismas, 1981-2015. Foto: © Sérvulo Esmeraldo.
Seus trabalhos gráficos determinam as bases da práxis do artista. Ela garante a Sérvulo a régua e o compasso. Com esses instrumentos, o artista subverte o plano na busca da dinâmica do movimento. Tudo em Sérvulo é fluido, é devenir, é líquido. Na tríade dos grandes construtivos brasileiros, as obras de Amilcar de Castro estruturam-se pela concretude, pela força do elemento Terra, enquanto Franz Weissmann cria vazios que perpassam os trabalhos e os definem como o elemento Ar. Sérvulo Esmeraldo trabalha a matéria iminente, a forma nômade, a transparência que determina o seu elemento Água. E, para finalizar o círculo, podemos, nesse raciocínio, afirmar que ele se completa, na geração seguinte, com Tunga e suas portentosas matérias em ebulição características do elemento Fogo.
Esta mostra busca sintetizar a extensa produção de Sérvulo Esmeraldo, reunindo obras de diversas dimensões em variados materiais; trabalhos de potência gráfica, outros de cromatismo intenso, objetos em movimento real ou virtual, sintetizados pelos excitáveis, trabalhos que definem o talento e a inteligência do artista.

Sem Título, 2015. Foto: © Sérvulo Esmeraldo
Depois do vendaval e da destruição, as obras do artista parecem bailar sobre uma brisa amena, como que metaforicamente anunciando tempos sem ódio, armados apenas com a permanente presença da arte como elemento essencial de valorização e identificação do que há de mais belo na espécie humana.
LINHA E LUZ: A EXPOSIÇÃO
POR DODORA GUIMARÃES

Prisma Triangular, 1981-2015. Foto: © Sérvulo Esmeraldo
“O brilho de uma réstia de luz sobre um objeto, de repente, ganha uma importância imprevisível”, recordava Sérvulo Esmeraldo contando do prisma cilíndrico que inventou aos 11 anos. Munido de um dispositivo muito simples – uma latinha de manteiga cheia d’água com um pedaço de espelho no fundo –, capturava o clarão das frestas do telhado num quarto escuro. – “Passava horas admirando o espetáculo do espectro solar refletido na parede…”
Sérvulo Esmeraldo estabeleceu para si a aventura de observar o mundo. No Crato, cidade contornada pelo platô da Chapada do Araripe, cresceu contaminado pela paisagem circundante, sobretudo pela linha do horizonte, sua guia da vida inteira. A exposição Sérvulo Esmeraldo: Linha e luz trata do rico universo desse artista atento e disciplinado, revelando as evidências da linha como fator determinante de seu trabalho, nos campos do desenho, da escultura, da gravura, do objeto e dos excitáveis.
A mostra é um percurso desenvolvido ao longo de quase 70 anos – em Fortaleza, no convívio com os pintores da Sociedade Cearense de Artes Plásticas (SCAP); em São Paulo, na efervescência das primeiras bienais, quando ele teve acesso ao que se fazia no mundo como artes plásticas, e realizou duas exposições de gravuras que lhe abriram caminho para uma bolsa do governo francês para estudar em Paris; na França, onde viveu e trabalhou por mais de 20 anos, experimentou a maturidade e o reconhecimento como gravador e artista cinético; no retorno ao Brasil, em Fortaleza, onde chegou com uma ideia muito definida: dotar a capital cearense de um acervo considerável de esculturas públicas.

Prisma, 1984. Sem título, 1989-2013. Foto: © Sérvulo Esmeraldo.
Com algumas obras pontuais anteriores à sua partida para a França – caso de uma marinha, datada de 1950, pintada em Fortaleza, e de xilogravuras que assinalam a transição do figurativo para o geométrico, a curadoria optou por enfatizar o período europeu do artista, pouco conhecido das novas gerações, destacando a sua obra gravada, do mesmo modo que o trabalho do artista perscrutador, cuja contribuição efetiva à arte cinética internacional, com a série que denominou de Excitáveis, ainda carece de estudos e maior divulgação. Essas obras misteriosas, construídas em caixas à maneira de quadros, hermeticamente fechadas, contendo no interior dezenas ou mesmo centenas de pequenos elementos leves e articulados que se movimentam por meio de cargas eletrostáticas produzidas pelo próprio observador, quando este lhe toca a superfície, começaram a circular em exposições no Brasil só muito recentemente.
Datam do mesmo período algumas esculturas que obedecem a um programa que chamou de Análises de Superfície. Trata-se de blocos compactos de plexiglass (acrílico), com lâminas brancas e pretas alternadas e coladas entre si, nas quais o escultor obtém planos onde cada linha define ponto por ponto a topografia de sua superfície. Também em acrílico, os objetos óticos que chamou de Réfléchissants.

Planos, 1985. Sem título, 1989-2013. Foto: © Sérvulo Esmeraldo

Torção II, 1985. © Sérvulo Esmeraldo
Como pode se ver em alguns exemplares do desenho serial e programado, dos anos 1970, seu interesse era sempre na dinâmica da linha, independentemente do meio ou do material. Nesse grupo de trabalhos específicos, ele partia, muitas vezes, de um quadrado decomposto em triângulos (em gaufrage), por exemplo, que, recompostos segundo um esquema preestabelecido, geravam outras formas por justaposição. Ou definiam espaços que eram realçados com mancha ou pontilhado.

Desenho, 2016. Foto: © Sérvulo Esmeraldo
A volta à terra, como ele se referia ao retorno ao Brasil, é a parte monumental da exposição, com esculturas e relevos de 1980 a 2015. A série Teoremas (em aço trefilado) ressalta seu amor pelas matemáticas, pela beleza das coisas exatas. Os sólidos reforçam a preferência do artista pelo triângulo, que ele enfatiza, assumidamente: “Na sua aparente simplicidade, o “T” é, na realidade, o “dono” das matemáticas. A mais simples das figuras geométricas, com seus três vértices, dinamiza um espaço plástico definido como nenhuma outra forma. Além do mais, é indeformável! “
Marcus Lontra é curador e crítico de arte, tem realizado
diversas exposições coletivas e individuais pelo país
Dodora Guimarães é cofundadora, curadora e presidente
do Instituto Sérvulo Esmeraldo.
SÉRVULO ESMERALDO: LINHA E LUZ • CCBB •
RIO DE JANEIRO • 19/4 A 26/6/2023
SÃO PAULO • 30/8 A 20/11/2023


