DASARTES 94 /

Sandra Cinto

SEGUNDO SANDRA CINTO, SEUS DESENHOS EXPLORAM O ÍNTIMO, A BELEZA, O SUBLIME, O ENCANTAMENTO E, ASSIM, A CURIOSIDADE. DAS IDEIAS NA CABEÇA AOS OLHOS NO CÉU É SUA NOVA PANORÂMICA NO ITAÚ CULTURAL, QUE PERCORRE SEU PROCESSO CRIATIVO DE 30 ANOS. A ARTISTA FALOU PESSOALMENTE À DASARTES SOBRE QUATRO DAS OBRAS MAIS IMPORTANTES DE SUA CARREIRA.

Sem titulo, 2001. Foto: Sérgio Guerini.

THE GREAT SUN, 2016

Este é um projeto que realizei para uma escola pública na cidade de Nova York, no bairro do Bronx. Um painel de azulejos que fica no hall de entrada dando boas-vindas a todas as pessoas que entram na escola. Faz parte de outro projeto que existe dentro dessa cidade chamado Percent for Art, que destina 1% do valor total da construção da obra para a inclusão de obras públicas em escolas, hospitais, creches e bibliotecas.
Quando comecei a desenvolver esse projeto, quis trazer a imagem do sol porque acho que a escola deve fazer o papel do sol, mesmo em dias sem sol, no sentido mais livre da palavra. Também acho que a educação é a coisa mais importante, então a escola deve ser o lugar mais lindo, luminoso, mais cheio de energia. A escola é um grande astro e o sol é para todos!
Pela primeira vez no Brasil, eu apresento nesta exposição os estudos, a maquete, as referências e as imagens da instalação.

Great Sun, 2016.

BRAÇO ESCULPIDO, 2006

Este é o meu próprio braço esculpido em alabastro. Foi desenvolvido pelo Graphic Studio, que é um Centro de Pesquisa em Artes, dentro da Universidade do Sul da Flórida. A diretora desse Centro me convidou para desenvolver uma escultura e eu tinha esse sonho em trabalhar com alabastro há muitos anos, na técnica tradicional, esculpindo a mão, com martelinho. E lá eles encontraram um técnico que executou essa peça e levou cerca de seis meses para esculpir o braço. É um trabalho muito autobiográfico, é o meu braço, minha mão, a mão que desenha, afaga, mas é também o braço do trabalhador. Eu venho de uma família operária; meu pai trabalhou 30 anos em uma fábrica e, para mim, esta é a mão que trabalha, que ara a terra.
A classe trabalhadora está passando por um momento tão difícil e este trabalho faz uma referência a isso. É uma peça muito bonita do ponto de vista formal. O alabastro é uma pedra muito interessante, é translúcida, você vê através da pedra como se fossem as veias do corpo humano. O Itaú Cultural adquiriu essa peça e proporcionou a vinda dela ao Brasil, e isto me deixou muito feliz.

Braço esculpido, 2006

CONSTRUÇÃO, 2006

Esta obra aconteceu quando fiz uma residência artística de dois meses na Itália, na Civitella Ranieri Foundation, e pude ver pessoalmente as pinturas do Giotto. Lá desenvolvi um trabalho que já tinha desejado há muito tempo: tingimento sobre papéis. Quando regressei ao Brasil, dei continuidade a esse processo, também trabalhei com desenho da representação de estrelas em um terço desses papéis. Em seguida, instalamos todos os papéis que produzi nas paredes da Galeria Casa Triângulo. Eu chamei essa instalação de Construção porque ela é um céu construído, totalmente imaginado, mas esse céu diz muito, pelo fato de eu ser uma artista que mora em São Paulo, uma cidade superurbana, com muitos prédios, concreto, poluição e trânsito. Fala do desejo de ver o céu, desejo de paisagem. Se eu morasse em uma cidade que permitisse um contato maior com a natureza, talvez não produzisse esses trabalhos, este céu de papel, um céu para as pessoas entrarem de alguma forma e se conectar com o espaço.
É uma ótima oportunidade de rever a reconstrução dessa instalação. As instalações têm esse dado, as obras são efêmeras e muitas delas são desmontadas.

Construção, 2016.

NEBLINA, 2019

Esta é uma instalação inédita que construímos na parede de uma sala redonda de 9 m de diâmetro, com tom azul noturno. Ela é povoada com desenhos de estrelas, muitos pontos de luz, que eu chamo de “poeira de estrela”, abismos e balanços, lustres e pontes. Para mim, é uma paisagem cósmica e eu decidi fazer bastante “poeira de estrela”, porque acredito que somos todos “poeira de estrelas” e, quando temos essa consciência, nós nos empoderamos, porque vemos que temos luz dentro da gente. Passamos por um momento no mundo em que a arte pode ser uma das formas de empoderamento da sociedade e eu gosto de pensar que a minha forma de dizer para o outro: “você é poeira de estrelas” foi feita de uma maneira muito simples, com canetinhas muito finas, em um período de tempo alargado de duas semanas. Cada pontinho dessa instalação, cada traço é impregnado de muito amor, energia e desejo de transformação e coisas boas. Deixamos uma luz baixa e pufes para que as pessoas se sentem aqui e, de alguma maneira, se conectem com seu próprio interior, que esta obra lhes traga uma mensagem boa, para que se sintam bem e se percebam “poeira de estrelas”.

Poeira de estrelas, 2020.

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