
Untitled (S.398, Hanging Eight-Lobed, Four-Part, Discontinuous Surface Form within a Form with Spheres in the Seventh and Eighth Lobes) c. 1955. © Ruth Asawa.

Untitled (S.230, Hanging Single-Lobed, Five-Layered Continuous Form within a Form). © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
Ao desafiar distinções entre abstração e representação, figura e fundo, espaço negativo e positivo, a obra de Ruth Asawa (1926–2013) nos convida a refletir sobre como elementos aparentemente distintos interagem em uma composição e como essa composição, por sua vez, se relaciona com o ambiente ao redor. A prática profundamente interconectada de Asawa oferece um modelo de como o fazer artístico pode se constituir como uma forma de estar no mundo. “A maneira como se vê determina o que se faz”, escreveu ela em 1946. “A maneira como se faz determina quem se é.”
Nascida em Norwalk, Califórnia, filha de imigrantes japoneses, Asawa tornou-se artista tanto em decorrência quanto apesar de uma série de injustiças. Em 1942, sua família foi removida à força e encarcerada sob uma política federal de guerra que visava pessoas de ascendência japonesa. Durante esse período, ela aprendeu a desenhar a partir da observação direta em aulas de arte ministradas por outros detentos. Em 1946, após ser impedida de obter um diploma para lecionar arte devido ao preconceito antijaponês, ingressou no progressista Black Mountain College, na Carolina do Norte. No ambiente democrático da instituição, construiu um percurso criativo baseado na experimentação e em uma ética de trabalho rigorosa e contínua. Desde sua experiência em Black Mountain até o final de sua vida em São Francisco — para onde se mudou em 1949 —, Asawa delimitou parâmetros em sua prática para investigar ideias de transparência, continuidade e espaço. A partir de 1968, ampliou seu projeto artístico ao se engajar diretamente com sua comunidade por meio de obras públicas, educação artística e atuação cívica.
COMO VER

Tamarind Lithography Workshop, Inc., Los Angeles Chair (TAM.1558), 1965.
Ao longo de diferentes meios e em todas as etapas de sua prática, Ruth Asawa explorou a continuidade, a transparência e a intercambialidade de conceitos aparentemente contraditórios, como figura e fundo, abstração e representação. Ela articulou essas ideias centrais pela primeira vez no Black Mountain College, uma escola multidisciplinar com currículo baseado na experiência sensorial e no uso de materiais, que frequentou entre 1946 e 1949. Ali, Asawa cursou disciplinas como matemática, filosofia, música e dança. Estudou arte com Josef Albers, entre outros, de quem aprendeu, como ela própria diria mais tarde, “como ver”.
Asawa recorreu às experiências de sua infância — especialmente ao trabalho repetitivo realizado na fazenda de seus pais e às aulas de caligrafia que teve em uma escola de língua japonesa — em suas primeiras investigações sobre linha, forma e espaço.

Untitled (PF.293, Bouquet from Anni Albers) early 1990s. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
O modelo pedagógico singular do Black Mountain College enfatizava tanto o trabalho individual quanto o coletivo, o que mostrou à jovem artista, como ela escreveria mais tarde, que “não há separação entre estudar, realizar as tarefas cotidianas da vida e criar o próprio trabalho”. As obras desse período no colégio, demonstram sua abordagem holística na criação de composições e seu compromisso em desenvolver ideias por meio de um processo iterativo.
TUDO ESTÁ CONECTADO, CONTÍNUO

Untitled (BMC.145, BMC Laundry Stamp), c. 1948–49. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
Em 1949, Asawa mudou-se para São Francisco, cidade que se tornaria seu lar definitivo. Após a revogação das leis da Califórnia que proibiam o casamento interracial, ela se casou com o arquiteto e ex-aluno do Black Mountain College Albert Lanier, com quem constituiu família. Paralelamente, Asawa passou a construir sua carreira artística, dedicando-se em tempo integral a experimentos com a construção da forma, tanto no espaço — por meio de suas esculturas em arame entrelaçado — quanto no plano bidimensional, em desenhos e gravuras.

Installation view, ‘Ruth Asawa Doing Is Living,’ David Zwirner, Hong Kong, November 19, 2024 to February 22, 2025. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
A busca incansável da artista por novas possibilidades dentro de seus processos levou à criação de seu tema escultórico mais característico: uma “forma contínua dentro de uma forma”, que ela descreveu como “uma forma que está dentro e fora ao mesmo tempo”. Em um único lóbulo, uma sequência de esferas se encerra mutuamente, criando uma superfície contínua e ininterrupta. Asawa continuaria a desenvolver esse tema por décadas, destacando a continuidade como fio condutor de sua obra. “Você pode mostrar o dentro e o fora, e o dentro e o fora estão conectados”, afirmou. “Tudo está conectado, é contínuo.”
O QUE O MATERIAL PODE FAZER
A partir de sua base em São Francisco, no início da década de 1950, Asawa lançou uma carreira multidisciplinar que rapidamente ganhou impulso. À medida que passou a participar de exposições e a receber encomendas privadas, sua produção criativa se expandiu em número e escopo. Seu trabalho ressoou não apenas nos círculos das artes visuais, mas também entre designers, arquitetos e na indústria da moda. Alheia às distinções tradicionais entre disciplinas, Asawa também se dedicou ao design de interiores, criando projetos baseados em suas gravuras e relevos em papel.
Asawa descrevia seu processo como “pegar um elemento simples e levar essa ideia por diversos materiais até chegar, por fim, a uma nova forma”. O arame lhe permitiu explorar a linha em três dimensões — ela considerava as linhas continuamente entrelaçadas de suas esculturas como “uma extensão do desenho”. Guiada pelas propriedades dos materiais, fossem arame, papel, plástico ou retícula, Asawa encontrou novas formas de expressar as ideias centrais de sua prática e de trazer seu trabalho ao mundo. “Tenho interesse no que o material pode fazer”, disse. “É por isso que continuo explorando.”
VOCABULÁRIO DA MINHA ESCULTURA

Untitled (S.524, Hanging Miniature Single Section, Reversible Six Columns of Open Windows) c. 1980–1989. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
Asawa desenvolveu ao longo da década de 1950, uma vasta gama de formas escultóricas utilizando arame industrial entrelaçado manualmente — aquilo que ela chamou, em 1955, de o “vocabulário da minha escultura”. Essas formas se sobrepõem, se aninham, se interligam, ondulam e se desdobram em cascata, criando superfícies contínuas que delineiam volumes ao mesmo tempo em que permanecem porosas ao espaço ao redor. Embora suas estruturas compostas sejam simétricas e equilibradas, a experiência do observador em relação às formas pode mudar conforme o ponto de vista, a proximidade de outras obras e a qualidade da luz ao longo do dia.
Consideradas em conjunto, elas revelam a natureza iterativa de sua prática. “O trabalho é algo que dita uma maneira de crescer”, escreveu ela em 1952, “e quanto mais se aprende sobre esse modo de crescimento, mais possibilidades se abrem para a criação de uma escultura própria do processo”.
CUIDAR DO ESPAÇO
Asawa dedicou-se ao espaço negativo tanto em duas quanto em três dimensões. Filha de budistas zen, ela foi treinada desde cedo em caligrafia. Nessa prática meditativa, como ela refletiu, “você não observa o que o pincel está fazendo, mas os espaços ao redor dele. Observa o que ele não está fazendo, cuidando tanto do espaço negativo quanto do espaço positivo”. Asawa continuou a experimentar técnicas caligráficas na vida adulta, como em um grupo de desenhos abstratos do final da década de 1950. Inspiradas pelas árvores do Golden Gate Park, em São Francisco — onde a artista desenhava com frequência, sozinha ou acompanhada — essas obras são compostas por poças de tinta, traços, respingos e borrões.
O mundo ao redor de Asawa oferecia um repertório infinito de temas e possibilidades para explorar linha, forma e espaço — nenhuma ideia era banal demais para ser investigada. Ela frequentemente retratava móveis de sua casa, especialmente cadeiras, em desenhos que fundem figura e fundo por meio de uma variedade de gestos e marcas.
AS GRAVURAS DO TAMARIND
Durante dois meses, em 1965, pela primeira e única vez em sua carreira, Asawa concentrou-se em um único meio: a litografia. Ela se dedicou intensamente a essa nova técnica durante uma residência no Tamarind Lithography Workshop, em Los Angeles. Fundado por June Wayne em 1960, o ateliê reunia artistas e impressores com o objetivo de revitalizar a litografia nos Estados Unidos. Nesse curto período, Asawa trabalhou em estreita colaboração com sete impressores para produzir cinquenta e quatro gravuras radicalmente experimentais.

Desert Plant (TAM.1460), 1965. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.

Tamarind Lithography Workshop, Inc., Los Angeles, Poppy (TAM.1479), 1965. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
A litografia baseia-se na incompatibilidade entre substâncias oleosas e aquosas para criar uma imagem em uma matriz de pedra ou metal, posteriormente transferida para o papel. Asawa permitiu que os próprios materiais da gravura — lavagens líquidas e lápis gordurosos — orientassem seus temas, que incluíam pessoas próximas, a flora ao seu redor e formas abstratas. Seu interesse pela inversão de imagens, uma possibilidade exclusiva da natureza quimicamente reativa da litografia, levou os impressores a expandirem o uso de técnicas de transposição. O resultado foi um conjunto singular de obras que exploram a relação íntima entre valores positivos e negativos.
MINIATURAS

Installation view, ‘Ruth Asawa Doing Is Living,’ David Zwirner, Hong Kong, November 19, 2024 to February 22, 2025. © 2024 Ruth Asawa Lanier, Inc. Artists Rights Society (ARS), New York. Courtesy of David Zwirner.
No final da década de 1970, Asawa iniciou uma série de esculturas em miniatura feitas com arame extremamente fino, meticulosamente entrelaçado. A ideia de trabalhar em escala reduzida e testar tanto sua visão quanto sua destreza surgiu quando ela começou a perceber os efeitos do envelhecimento sobre sua visão. “Estou ficando cega fazendo essas miniaturas de crochê”, escreveu em uma carta a um amigo. “Decidi fazê-las antes que meus olhos mudem ainda mais.” Nas nove miniaturas apresentadas aqui, Asawa recorreu ao seu vasto vocabulário escultórico, apresentando suas formas características em outra escala. Ela continuou a produzir miniaturas até os anos 2000.
A VIDA DESENHA

Ruth Asawa, 1957. Courtesy of the Estate of Ruth Asawa. © 2018 Imogen Cunningham Trust.
Ao longo de sua carreira, Asawa retornou incansavelmente à representação de plantas e flores, traçando as formas de íris, hortênsias, crisântemos e outras espécies de seu jardim em cadernos de desenho e obras sobre papel. Para Asawa, desenhar a partir da vida era mais do que simples observação; tornou-se um valor e uma forma de engajamento com o mundo e com o presente. “A vida desenha”, escreveu certa vez, expressando como os acontecimentos e objetos ao seu redor moldavam seu trabalho.
Nas últimas décadas de sua carreira, Asawa concentrou sua produção criativa em desenhos botânicos, alguns dos quais estão reunidos nesta galeria. Essas obras íntimas, por vezes extremamente realistas, por outras abstratas, frequentemente começavam com um gesto de generosidade: presentes de plantas dados por amigos e familiares, em homenagem aos quais muitas obras receberam seus títulos. Por meio da rotina diária de registrar o mundo natural ao seu redor, Asawa documentou a comunidade ampliada da qual fazia parte, bem como a passagem do tempo.
Cara Manes é curadora associada do Departamento de Pintura e Escultura no The Museum of Modern Art, New York (MoMA).


