
Série Corpo da Alma, 2006-2009. Foto: Wania Corredo/ Agência O Globo.
O título da obra de Georges Didi-Huberman, lançada em 2003, no Brasil, parece ser uma das possíveis chaves de leitura para a exposição Pequena ecologia da imagem – mostra panorâmica de Rosângela Rennó, com curadoria de Ana Maria Maia, presente na Estação Pinacoteca, desde o início de outubro de 2021.
Acerca das quatro únicas fotos existentes do campo de concentração de Auschwitz, o livro levanta questionamentos sobre o projeto de apagamento das memórias e, ainda, coloca a fotografia como instrumento de luta, sobretudo, quando esta escapa do discurso dominante[1]. Os 35 anos de trajetória de Rennó resumidos nas 130 obras selecionadas para a mostra dão densidade a esses dois aspectos ligados à fotografia. “A fé na imagem” é o ponto em comum entre exposição e livro – ambos usam dela como meio de resistência.
Na prática de Rennó, a “fotografia expandida”, ou seja, aquela que excede a concepção autoral e envolve procedimentos técnicos e sociais se apresenta sob diversas especulações. Para a artista, a imagem é, simultaneamente, tema, suporte, ferramenta e processo inesgotável. Como resultado de suas experimentações surgem novas fotografias, vídeos, instalações e objetos produzidos a partir de diversas técnicas. Todos contam outras histórias.

Mulheres iluminadas da série Pequena Ecologia da Imagem, 1988. Foto: Cesar Barreto
Sua pesquisa se estende em arquivos públicos, privados, conhecidos e anônimos; ela emprega também câmeras, jornais, negativos, fotogramas, álbuns de família, fotografias descartadas em lixeiras de estúdios populares, ou garimpadas em feiras de antiguidades e, em algumas oportunidades, a palavra escrita toma centro – provocando inquietação. Nessas ocasiões, a ausência da imagem marca sua forte presença. Tudo serve à abordagem da natureza da imagem, ao seu estranhamento e ao reconhecimento de seu valor estético e, acima de tudo, simbólico.
A construção e a subversão de memórias, narrativas e identidades integram o jogo de ambiguidades de suas obras. Como “coletora de imagens”, a artista usa a apropriação, a intervenção e a recontextualização desse material para atentar ao deslocamento entre obra e espectador. Por manipulação, a artista redefine; gera uma “não fotografia”, ou seja, algo que não pode ser visto como comum, tornando-se uma “escultura visual”. Às vezes, por intertextualidade entre cinema, texto, vídeo e fotografias, outras ficções se fazem em seus trabalhos.
A mostra Pequena ecologia da imagem toma por empréstimo o nome de uma série produzida em 1988 – ainda quando ela morava em Belo Horizonte. É seu primeiro impulso arqueológico e de apropriação. Por intermédio de fotos feitas por seu pai – que havia falecido dois anos antes, a artista, à época, manipulou alguns negativos quimicamente; interessavam-lhe as imagens com pouca definição e quase nenhuma legibilidade, com figuras veladas e fora de foco nas quais ela escondeu a identidade dos retratados – aqui se destaque que autorreferência e autobiografia envolvem a ação dela. Nesses trabalhos, ocorreram, de fato, seu interesse pela memória de família, a identidade e seus apagamentos.

Untitled (mad boy)
Série Vermelha (Militares), 2000- 2003.
Foto: Divulgação
Intencionalmente, a curadoria opta por não organizar de modo cronológico a exposição – então, os ares de retrospectiva são dizimados. É a incidência de temas que rege a mostra. Dividida em três núcleos, a exibição se estrutura a partir das preocupações mais constantes no percurso estético de Rennó. O primeiro se concentra em temas, tais como a privacidade do sujeito e as políticas da memória; no segundo, encontram-se trabalhos que observam as instâncias públicas e, por fim, o terceiro trata dos efeitos da colonialidade na manutenção do controle e da violência, enfatizando as questões que envolvem classe social, gênero e raça.
A mão da curadoria marca o discurso expositivo. É fulcral a ação de mostrar como a artista vem comentando o imaginário histórico brasileiro e suas persistências no tempo presente. Nesse relato, percebe-se como questões que movem as pautas estéticas e políticas atuais já são preocupação da artista desde o final dos anos de 1980 e permanecem em seus trabalhos mais recentes.
Assim, em núcleos orientados por assuntos, surgem as obras mais conhecidas de Rennó, entre elas: Realismo Fantástico (1991); Hipocampo (1995-1998); a série Corpo e Alma (2003); a Série Vermelha (Militares), (2000-2003) e, alguns trabalhos do projeto Arquivo Universal (1992) – ainda em elaboração. Sim! Arquivo Universal tem quase 30 anos de continuidade. Na constituição desse trabalho, interessa à artista a coleção de artigos de jornais nos quais se faz referência à imagem que está ausente.

Untitled (mad boy) Série Vermelha (Militares), 2000- 2003. Foto: Divulgação

Makera, homem macúa, Moçambique, 2018
Da série Seres Notáveis do Mundo, 2014-2021
Merece destaque as obras inéditas no Brasil. São elas: Seres notáveis do mundo (2014-2021), a videoinstalação Terra de José Ninguém (2021) e Eaux descolonies (2021). Particularmente, esse último trabalho, que está no terceiro núcleo da mostra, impressiona pela coleção de frascos de perfumes – uma instalação ainda em processo, resultado de sua residência artística em Colônia, Alemanha, acontecida em 2020. Nesse trabalho, o comentário crítico de Rennó reside no espírito expansionista e no percurso histórico da água de colônia, vista como ícone de desejo e símbolo de prestígio social. E se confirma o efeito dos diversos frascos coloridos dispostos sobre a base alva seduz o visitante – são minutos de olhar aprisionado.

Série Realismo Fantástico 1991- 2015.
Outro efeito corpóreo está ao adentrar na exposição. Ali, o espectador sente a força do colecionismo no repertório da artista. Junto com essa sensação, emerge o debate sobre seriação, acumulação e citação – juntos, os elementos “colecionados” criam e desvelam narrativas. O uso do colecionismo tem reminiscências na arte moderna, porém, na contemporaneidade, assume linhas radicais. Rennó, por meio da seriação, acumulação e citação de imagens na sua produção estética, mistura mitologias públicas e privadas. Joga, metaforicamente, com as memórias pessoais e coletivas. Por meio delas, a obra dela não está isolada na sua forma objetual; abre-se para diferentes variantes: a poética, a política, a vida, a técnica e a reinterpretação.
Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA USP (2008) e pósdoutorado pela UNESP (2018). Atualmente, é especialista em cooperação e
extensão universitária do MAC USP, membro da ABCA e pesquisadora do Centro
Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes. Autora do livro
Schenberg: Crítica e Criação (EDUSP, 2011).
ROSÂNGELA RENNÓ: PEQUENA ECOLOGIA DA IMAGEM •
PINACOTECA DO ESTADO DE SÃO PAULO • 2/10/2021 A 7/3/2022


