Musa paradisíaca, 2018.

DASARTES 80 /

Rosana Paulino

Reconhecida pelo enfrentamento de questões sociais que despontam da posição da mulher negra na sociedade contemporânea, a artista ROSANA PAULINO apresenta na Pinacoteca mais de 140 obras produzidas ao longo de 25 anos. Por Váleria Piccoli e Pedro Nery.

Voz singular em sua geração, Rosana Paulino surgiu no cenário artístico paulista em meados dos anos 1990, propondo, de modo bastante ousado, um debate aberto sobre questões de raça e de gênero. As imagens incômodas de mulheres com os olhos e bocas suturados por uma costura grosseira da série Bastidores (1997) ou a profusão de figuras dos familiares da artista encarando insistentemente o observador em Parede da memória (1994/2015) expunham a violência exercida sobre os corpos afrodescendentes, o silenciamento e a invisibilidade a que foram submetidos, a persistência, enfim, do legado funesto da escravidão no Brasil.

Esses primeiros trabalhos já revelavam o modo experimental com que Paulino combina procedimentos. O uso da costura, aprendida na infância com a mãe, se mesclava à transferência de fotografias sobre tecido por meio de métodos criados pela própria artista. A associação entre um saber popular, transmitido no ambiente doméstico de mãe para filha, e a familiaridade com a alta cultura, expressa seja no domínio de diferentes técnicas artísticas, seja no diálogo com a história da arte, é um fator estruturante de sua poética. De tal forma que um procedimento semelhante pode ser encontrado em trabalhos mais recentes como Atlântico Vermelho (2017) e Musa paradisíaca (2018), grandes tecidos compostos de partes costuradas, sendo que cada parte contem uma imagem transferida de fotografias ou gravuras existentes. Novamente, a costura evoca a situação de intimidade e se coloca em contraste com a possibilidade de reprodução mecânica da imagem fotográfica. Nesses trabalhos, entretanto, Paulino propõe uma espécie de metáfora histórica: as imagens do período colonial são reunidas de maneira forçada por uma costura frágil; como se puxar um dos fios pudesse ser o suficiente para desfazer toda a estrutura.

Soldado sentada, 2006.

Rosana Paulino desenha compulsivamente e muitas de suas séries de desenhos, particularmente Tecelãs (2003) ou a série Models (1996), investigam de maneira particular o corpo feminino e seu lugar social. Assim como as linhas de costura calam e cegam as mulheres negras nos Bastidores, nesses desenhos, as linhas representam fios que saem do sexo e dos olhos das mulheres, aprisionando seus corpos. O corpo preso, impedido de se expressar e não acomodado a padrões celebrados socialmente, ganha também sentido simbólico na obra de Paulino e pode ser evocado de forma ainda mais radical no uso de cabelos de mulheres negras encapsulados em vidros, como na obra Sem título, de 2006

Um aspecto a destacar na trajetória de Rosana Paulino é o interesse da artista pela biologia e pelas ciências, que se manifesta em um conjunto expressivo de desenhos dedicados a explorar a ideia de uma vida/organismo em transformação. Mutação e metamorfose são conceitos recorrentes em seu trabalho. Se o desenho de Paulino tem sempre uma forte carga íntima, esse mesmo teor subjetivo se manifesta em inúmeros desenhos de animais em que a artista investiga as estruturas e articulações de corpos de morcegos, peixes e insetos. A linha se torna paulatinamente mais sintética, variando de espessura, oferecendo uma solução de poucos traços. Em outras séries, o corpo do inseto se associa ao da mulher. Essa mulher-bicho tem a proteção da carapaça ou asas que possibilitam voar. Do desenho, elas passam ao espaço na instalação Tecelãs (2003), em que centenas de mulheres-bichos-da-seda feitas de barro e fios de algodão, saem organicamente de seus casulos. Elas se proliferam livremente, expandindo sua ocupação pelas paredes. O lugar de exclusão do sujeito-inseto pode ser visto como metáfora do feminino, mas, ao contrário do esperado, é transformação positiva, pois indica a abertura para uma existência possível fora das amarras sociais.

Tecelãs, 2003.

Esse sentido transformador pode também servir a interpretar a instalação Assentamento (2013), um dos trabalhos mais recentes da artista. A obra aborda explicitamente a escravidão, uma vez que tem como elemento principal a figura de uma negra escravizada, mas evoca também a sujeição deste corpo que é retirado de sua origem e transformado em objeto da ciência. A esse corpo que perde sua subjetividade, Paulino restitui raízes, coração e útero, recompõe as partes antes fragmentadas, e ressalta a capacidade dessa mulher de assentar uma cultura. Paulino fala do lado humano da mulher escravizada que teve que se “reinventar” para sobreviver em outro lugar que não o seu. Um sentido de ancestralidade se manifesta em diversas obras anteriores de Paulino, como os patuás que compõem Parede da Memória, ou a referência às amas-de-leite, ou ainda nos auto-retratos com máscara africana e comedores de terra. Mas é de fato a partir do uso da imagem da mulher escravizada que foi “cientificamente” fotografada, que o sentido histórico e crítico da escravidão ganha primazia. A foto impressa sobre tecido e reconstituída pela costura alude ao modo como se processa a memória pessoal e social da mulher negra no país. Esse ato de “assentar” é mesmo um ato afirmativo e compreende sujeitos que perderam seus rostos, seus nomes, seus locais de nascimento.

Geometria brasileira chega ao paraíso tropical, 2018.

No livro ¿História natural? (2016), a artista chama atenção para as teorias científicas utilizadas para justificar a escravidão e a visão pejorativa dos africanos. Paulino se vale da forma mais clássica de divulgação e propagação do saber ocidental, os livros, para questionar as viagens científicas e o modo como a “ciência natural” fundamentou a dominação sobre povos, corpos e mentes de índios e negros. As filhas de Eva (2014), a série Musa paradisíaca (2017) e a série mais recente Geometria Brasileira (2018), questionam o olhar estrangeiro e científico dos viajantes que percorreram o Brasil durante o século XIX que excluem e/ou exotizam a sociedade brasileira e a escravidão. A artista aponta para um imaginário forjado de que vivemos numa democracia racial.

 

 

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