Submersos, Projeto Symbiosis, 2007-2019.

DASARTES 83 /

Roberta Carvalho

ROBERTA CARVALHO é uma artista que transita entre videoarte, intervenção urbana, projeção e videomapping, diferentes meios que apresentam em comum o interesse da artista pela imagem técnica. Por Thiago Fernandes.

Nascida em Belém do Pará, Roberta Carvalho é uma artista que transita entre videoarte, intervenção urbana, projeção e videomapping, diferentes meios que apresentam em comum o interesse da artista pela imagem técnica. A imagem é um desdobramento de sua atração pela poesia visual que, por sua vez, originou-se de sua paixão pela literatura. Conhecer tal percurso nos auxilia a compreender o trabalho da artista como um constante trânsito e interligação entre linguagens.

Cinema Líquido, 2015.

Roberta Carvalho integra a exposição Passeata, em cartaz na galeria Simone Cadinelli, com curadoria Isabel Sanson Portela. Na abertura da mostra – que reúne trabalhos de 15 mulheres presentes no cenário da arte contemporânea brasileira –, Roberta realizou um videomapping no jardim da vila que abriga a galeria e o recém-inaugurado anexo, com imagens que remetem à floresta amazônica. Já no interior da galeria, a artista apresenta um desdobramento do mesmo trabalho projetado sobre uma garrafa de vidro – tão inusitada quanto as superfícies comumente exploradas pela artista – e o registro de uma projeção realizada em espaço público.

A imagem é um desdobramento de sua atração pela poesia visual

As projeções apresentadas na galeria Simone Cadinelli fazem parte do projeto Symbiosis, realizado por Roberta Carvalho desde meados de 2007. Symbiosis consiste em uma série de ações envolvendo projeções digitais videográficas ou fotográficas em ambientes inesperados, cujo conteúdo possui referências regionais do Norte do país, região onde a artista nasceu, e desenvolve seu trabalho. Em algumas ocasiões, Roberta projetou em árvores e vegetações rostos de pessoas – geralmente relacionadas ao entorno onde acontece a exibição –, revelando um ambiente onírico. Marcado pelo caráter experimental, Symbiosis tem sua visualidade mediada pela ação da natureza, como o balançar das folhas provocado pelo vento, que garante à imagem movimentos que não são previstos pela artista. Dessa maneira, o trabalho propõe uma simbiose entre imagem, corpo e natureza. A imagem, que de forma simbólica torna presente um corpo ausente, se apropria da natureza para ganhar forma e vida. O ser humano, acostumado a adaptar a natureza para si, vê o movimento reverso: seu corpo sendo adequado pela natureza.

Projeto Symbiosis, 2007-2019.

A simbiose entre arte e natureza já era proposta desde a década de 1960 pelos artistas da land art, que realizavam intervenções em paisagens remotas, como desertos, florestas e praias, utilizando os próprios elementos da paisagem como matéria-prima. Devido à localização de seus trabalhos, os artistas da land art faziam uso de registros imagéticos para torná-los acessíveis ao público. Roberta Carvalho herda algumas características desse movimento, mas possui uma característica singular que é a relação intrínseca entre imagem, natureza e trabalho artístico. A imagem depende da natureza, como mídia, para ser projetada, e dela recebe influxos que modificam sua visualidade. A natureza transforma e se deixa transformar pela imagem.

Passeata • Simone Cadinelli Arte Contemporânea • Rio de Janeiro • 19/3 a 29/5/2019

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

REN HANG – NUDES

A mostra NUDES, do artista chinês Ren Hang, apresenta um compêndio de 90 obras, sendo uma retrospectiva com os trabalhos …

Alto relevo

NICOLAS DE STAËL

Nicolas de Staël (São Petersburgo, 1914-1955) é um dos artistas mais relevantes do panorama artístico francês desde 1945. A exposição …

Flashback

JAN VAN EYCK

JAN VAN EYCK ESTEVE AQUI

Foi o historiador Gombrich quem disse que “um simples recanto do mundo real fora subitamente fixado …

Alto relevo

J. CARLOS

J. Carlos (1884-1950), como ficou conhecido José Carlos de Brito e Cunha, era carioca de Botafogo, e viveu grande parte …

Do mundo

Félix Fénéon

Nunca é demais reforçar: no mundo da arte, nem tudo é sobre o artista. De fato, a arte moderna parece …

Capa

AUBREY BEARDSLEY

Com pouco mais de seis anos de produção, Aubrey Beardsley não apenas marcou uma época e inseriu seu nome na …

Alto falante

Sim

“Eu preferiria não”
Herman Melville

Sim. São diversas opções. Sim. Existem horários sobrepostos. Sim. Há certa sensação de democratização de acesso. Sim. …

Flashback

JAMES TISSOT

O MODERNO AMBÍGUO

James Tissot nasceu em 1836 e morreu no alvorecer do século 20. Teve uma longa carreira em ambos …

Capa

ALEX KATZ

A aparente simplicidade das pinceladas de Alex Katz pode gerar desinteresse apenas ao olhar desatento. Os grandes blocos de cor, …

Destaque

WOLFGANG TILLMANS

Nascido em 1968, em Remscheid, Alemanha, Tillmans estudou no Poole College of Art e Design, em Bournemouth, Inglaterra. Em 2000, …

Alto relevo

FRANK WALTER

“Nossa coroa já foi comprada e paga. Tudo o que precisamos fazer é usá-la.”
James Baldwin, em uma conversa na televisão, …

Garimpo

JANA EULER

Concebidos nos últimos três anos, os trabalhos da exposição Unform trazem muitas das investigações pictóricas de Euler sobre as inter-relações …

Reflexo

ANA PAULA OLIVEIRA

“Escrever sobre o próprio trabalho sempre é desafiador para mim, difícil encontrar palavras para algo indizível…. proponho aqui algumas reflexões …

Resenhas

O baile urbano e sincrônico de Bettina Pousttchi em Berlim

“Todo objeto, sem exceção, quer seja criado
pela natureza ou pela mão do homem, é um ente
com vida própria que inevitavelmente …

Alto falante

Amor

Elxs acordaram em um tempo cíclico, onde a referência de passado e futuro tinha desaparecido quase instantaneamente. E, mesmo sabendo …