DASARTES 85 /

Resenhas

Confira as resenhas das exposições de DENISE MILAN: BANQUETE DA TERRA em Glasstress 2019 por Lica Cecatto; LETICIA BATAGLIA: PALERMO no IMS São Paulo por Nicholas Andueza e RALPH GERHE: JOGO DO SIMPLES na Referência Galeria por Laíse Frasão.

Denise Milan • Glasstress 2019 • 9/5 a 24/11/2019 • Berengo Art Space Foundation • Murano – Itália
POR LICA CECATTO

Foto: Sérgio Coimbra

O indivíduo, a família, os amigos, os conhecidos, os colegas de trabalho, a cidade, o Estado, o país, o mundo. O centro da terra. O céu. Denise Milan serve sobre a mesa redonda o Banquete da Terra, oferecido com generosidade para que possamos, com prazer, lembrando Oswald de Andrade, seguir antropofágicos. Vamos comer Caetano. Vamos comer Denise Milan e sua cosmogênese.

O meio não é usado para produzir arte, o próprio meio é a arte. Há, sim, uma atração mútua e um casamento entre a artista e a matéria escolhida, que resulta na obra. Denise Milan, com percepção aguda e sensibilidade, recria o mundo por meio da capacidade de entrar em comunicação com o incomunicável. Ousada e certeira, ciceroneia, dispõe as esculturas brancas e translúcidas sobre a mesa de vidro preto com destreza de coreógrafa, deixa-nos à vontade com seus elementos “familiares”, somos imediatamente e magneticamente inseridos no banquete.

Sabe-se da qualidade transcendental da arte, que vai além das barreiras do tempo e do espaço, o que significa muito em se tratando de pedras, testemunhas de milhões ou bilhões de anos de história e suas mutações. A generosidade de Denise Milan é a de abrir os portais do seu mundo, mostrar sua intimidade, sua relação profunda com os elementos elegidos por ela como um mergulho ancestral. O vidro, curiosamente, tem uma estrutura desordenada e rígida composta de átomos que se movem e só pode se transformar em vidro usando materiais que tenham uma velocidade de cristalização muito lenta. Vidro e pedra se encontram em suave harmonia e arriscam, sugerindo uma origem comum de rochas e homens.

Denise Milan nos acorda para um novo mundo, aconchegando-nos em seu cosmos, e nos mostra o que já existia mas que nossos olhos não teriam como enxergar se não fosse sua capacidade de escavar belezas. Atração irresistível. A artista não engole pedras em um circo imaginário e sensacionalista, pelo contrário, com sutileza e agudez, acende uma luz na escuridão para que as formas e seus conteúdos se revelem.

Curiosamente, falando-se de Itália e do Império Romano, o primeiro vidro usado nas casas dos romanos era translúcido, feito de uma pedra chamada lapis specularis encontrada em cavernas. A qualidade que os romanos atribuíam a esse vidro-de-pedra era a transparência, e o definiam de maneira curiosa, pertinente ao seu tempo, como “extratos de água” que vão se acumulando em milênios. Usava-se para janelas e portas. Denise nos traz pedras, vidros, gotas de cristais, tudo com a leveza da água, em uma cidade circundada por água, que, na realidade, são várias ilhas, e uma ilha mais específica, Murano, grande produtora de vidro e onde nasce Glasstress, há 10 anos, fundada por Adriano Berengo e que, em 2019, tem como curadores Vik Muniz e Koen Vanmechelen.

Leticia Battaglia: Palermo
Instituto Moreira Sales • São Paulo • 27/4 a 22/9/2019
POR NICHOLAS ANDUEZA

Foto: Nicholas Andueza

Foto-coisa, foto-fluxo

Quantas coisas uma foto pode ser? E um enxame de fotos? De quantas formas ela pode se apresentar aos olhos? Na exposição Letizia Bataglia: Palermo, que ocorre até 22 de setembro no Instituto Moreira Sales – SP, uma polissemia contraditória desafia nosso olhar. Com a curadoria pouco usual de Paolo Falcone, que omite títulos, datas e lugares, somos apresentados a um fluxo visual ao mesmo tempo flutuante e concreto, total e múltiplo, com visões de uma cidade tomada pela máfia. Está em jogo o próprio ato de ver.

As fotos ficam suspensas por fios, preenchendo o espaço (e não as paredes), organizadas de modo simétrico, não cronológico e sem legenda: eis a flutuação, uma leveza multi-imagem. Nos enquadramentos, vemos corpos de jovens, crianças, velhos, adultos, alguns deles mortos; corpos existindo, chorando, sangrando: aí está a concretude, o peso do contexto de uma Palermo entre 1970 e 2000. Em uma parede, edições de revistas publicadas por Bataglia que, além de fotógrafa, é também jornalista, política-ativista pelo Partido Verde e editora. A formação múltipla explica a variedade visual.

Nas imagens de assassinato, vemos um fotojornalismo, também presente em fotos de prisões, funerais: crueza do registro, denúncia de execuções. Mas, em outra foto, dois meninos encaram a câmera, fumam seu cigarro ao lado da jukebox – olhares que nos transpassam e evidenciam um interesse etnográfico-poético. Ainda no meio disso, composições artísticas: o close de uma mulher dividido por uma luz cortante, o nu feminino de um corpo inteiro, posando diante de uma fachada.

São composições variadas que formam uma constelação visual de Palermo, uma totalidade imaginária que, no entanto, abriga o múltiplo e é capaz de destoar de si mesma, desconcertando o espectador. A ausência de legendas impede a domesticação da imagem pela palavra, faz de cada foto uma esfinge, uma foto-coisa que, ao mesmo tempo, ataca e atrai. E o foto-fluxo então se complexifica: se ele mimetiza a torrente de imagens anônimas nos meios de comunicação atuais, imagens de choque que se prestam a qualquer notícia (fake ou não), ele o faz de forma crítica, contrapondo-se a esse contexto por meio das próprias contradições internas, que nos obrigam a ver – e não só olhar.

Assim, a visão de um corpo executado, deixa de ser mero mecanismo de choque (como é a tendência do fotojornalismo, segundo Susan Sontag) e passa a se demorar em nós. A imagem de uma menina magrela, de roupas sujas, que segura uma límpida bola de futebol, nos olha de volta e nos desafia – como fazem os meninos da jukebox. Nossos olhos tocam os olhos da foto. São imagens que perdem sua instantaneidade e dão lugar a uma duração própria, lastreada de punctum em punctum, diria Roland Barthes. É a duração de um lugar: Palermo. Mas Palermo também é aqui e agora.

Ralph Gehre: Jogo de Simples • Referência Galeria de Arte – Brasília • 25/5 a 13/7/2019
POR LAÍSE FRASÃO

Foto: Jean Peixoto

Pense nas ferramentas em sua caixa apropriada: lá estão um martelo, uma tenaz, uma serra, uma chave de fenda, um metro, um vidro de cola, cola, pregos e parafusos. Assim como são diferentes as funções desses objetos, assim são diferentes as funções das palavras. (E há semelhanças aqui e ali). WITTGENSTEIN, Ludwig. Investigações Filosóficas. Trad. José Carlos Bruni. São Paulo: Abril, 1975. (Os Pensadores).

Nesse sentido, a pintura, para Ralph não é apenas consequência de um conjunto de elementos da linguagem visual e/ou intencionalidade, mas resultante direta de um trabalho contínuo imbricado pela vivência com pessoas; interações com coisas e situações diversas; e leituras/ repertório visual. O ato de pintar seria, nesse caso, simultaneamente, uma maneira de olhar o mundo e uma transcrição desse olhar. “Pintar é difícil, mas é possível!”, afirma Gehre.

Apesar da utilização do termo “jogos”, a individual de Ralph não é permeada pela concepção de duelos entre artista, obra e fruidor, por exemplo. O jogar aparece em um contexto de manipulação visual e de entrega das incertezas de um processo criativo que, sutilmente revelado por marcas de pinceladas e camadas aparentes, parte de um afastamento da necessidade de cumprimento de um projeto prévio em sua totalidade. A possibilidade da pintura, aqui, se faz pela nítida presença do ruído – enquanto materialização de um percurso de produção operado a partir do encontro com o contentamento.

Contentamento esse que também conduz o fruidor, quase automaticamente, a um percurso sem qualquer lógica sequencial e/ou linear, já que é a própria conexão compositiva e/ou cognitiva entre as obras que parece conduzir o caminhar. Ademais, é a percepção que, por aproximação ou distanciamento, revela a luminosidade branca, ora como luz, reflexo e, até mesmo, sombra, em meio ao jogo de uma escala cromática, predominantemente, composta de tons primários e terciários – tendentes ao petróleo.

“Penso jogos. Ou melhor, penso-os como formas de encontro, relação própria da pintura. Ela se dá por aproximação”, afirma Ralph. Sendo assim, por inferência nossa, talvez a maior aproximação das obras expostas em Jogos de Simples seja com a linearidade e a sobreposição de planos, aspectos inerentes ao desenho – linguagem vinculada à formação em Arquitetura e Urbanismo do artista. As linhas e os volumes reforçam efeitos compositivos que são, consequentemente, expandidos para o espaço expográfico a partir de rebatimentos e projeções de sombra/luminosidade na parede branca da galeria. Caso outra disposição luminotécnica fosse realizada, por exemplo, teríamos outras obras e outras exposição. Afinal, a pintura, embora vinculada a um substrato, avança!

Avança de tal forma que não se limita ao espaço a ela designado (suporte e/ou moldura). Suporte que nas telas de Ralph é condicionante e condicionado pela obra, na medida em que ora se distancia (sendo mais evidente e sem acabamento, gerando ruptura), ora é parte integrante da obra (com suas faces acompanhando e/ou contrastando com o acabamento frontal da tela, gerando continuidade).

Portanto, contrariando uma nefasta categorização, a pintura em Ralph também é espaço, é escultural!

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