Exposição: Eu me levanto. Regina Parra Foto: Ulisses Castro | fev./2019

DASARTES 82 /

Resenha

O mês que celebra o Dia Internacional da Mulher também marca o encerramento de duas individuais de artistas inspiradas pelo poema Still I rise, de autoria da escritora e ativista norte-americana Maya Angelou (1928-1914). Publicado pela primeira vez em 1978, o poema de caráter autobiográfico nasceu como um grito de resistência contra a submissão do negro […]

O mês que celebra o Dia Internacional da Mulher também marca o encerramento de duas individuais de artistas inspiradas pelo poema Still I rise, de autoria da escritora e ativista norte-americana Maya Angelou (1928-1914). Publicado pela primeira vez em 1978, o poema de caráter autobiográfico nasceu como um grito de resistência contra a submissão do negro em uma sociedade racista, mas logo foi adotado como símbolo da luta contra a opressão de minorias em geral. A voz potente e confiante do poema é a de uma mulher negra que, compreendendo os mecanismos de controle praticados sobre ela, eventualmente aprendeu a reconhecer seu próprio poder e a se desvencilhar da dominação e do jugo de terceiros.

Tomando emprestada essa mesma voz forte, mas lhe imprimindo um tom doce e belo, a artista mineira Sônia Gomes apresentou Ainda assim me levanto, exposição que se dividiu entre o MASP e a Casa de Vidro, na capital paulista, e foi destaque da edição de número 78 da revista. O trabalho inaugurou o uso de um material novo na carreira da escultora – os galhos de árvore –, que foi misturado a ingredientes já tradicionais de sua obra – tecidos, rendas, cordas, tricô e alfinetes. Os corpos moles e coloridos criados por Gomes parecem se mover lentamente sobre a crueza retorcida dos galhos, na tentativa de se desvencilhar desses objetos secos que os prendem ao chão. Encontram um equilíbrio improvável na tensão entre o duro e o macio, o estático e o dinâmico, a terra e o céu. Buscam liberdade e, quando a alcançam, levantam-se, permanecem em suspensão, autônomos. Nesse sentido, o trabalho de Gomes se emparelha ao poema de Angelou ao apresentar indivíduos conscientes do próprio poder, ainda que sabedores de sua condição de oprimidos.

Fazendo abordagem diferente do poema da norte-americana, Regina Parra trouxe à Fundação Marcos Amaro, na cidade de Itu, a exposição multimodal Eu me levanto, capa da edição de número 81 da revista. Ao lançar mão de pintura, vídeo, literatura e performance coreográfica, a artista reflete a respeito das possibilidades de resistência à disposição de um corpo que se encontra constantemente sob demanda. Parece lhe interessar em especial as situações de estado limite desse corpo oprimido. Diante da multiplicidade das mídias utilizadas, o poema de Angelou funciona como o amálgama perfeito para trazer unidade ao trabalho, que, utilizando linguagem realista, lida com medo, aflição, libido, sexualidade, morte. Entretanto, os personagens de Parra não se encontram no mesmo patamar de consciência que o eu lírico de Still I rise. Estão em momento anterior, no qual ainda não existe a noção de liberdade, apenas a necessidade de sobrevivência.

Enquanto a criatura de Sônia paira no ar, a de Regina se debate. Enquanto uma é esperança, a outra é angústia. Uma é lírica, a outra, realidade. Mas o desejo último de ambas é se levantar.

Exposição: Ainda assim me levanto.
Sônia Gomes
Foto: Ulisses Castro | jan./2019

 

Regina Parra: Eu me Levanto
Fundação Marcos Amaro • Itu • 15/12/2018 a 9/3/2019

Sonia Gomes: Ainda assim me levanto
MASP • São Paulo •
14/11/2018 a 10/3/2019

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