Untitled, 2015 Courtesy OstLicht Gallery and Ren Hang Estate.

DASARTES 99 /

REN HANG – NUDES

REN HANG (1987-2017) É CONHECIDO SOBRETUDO POR SUAS PESQUISAS SOBRE O CORPO, A IDENTIDADE, A SEXUALIDADE E A RELAÇÃO ENTRE O SER HUMANO E A NATUREZA, TENDO COMO PROTAGONISTAS JOVENS CHINESES DA NOVA GERAÇÃO, LIVRES E REBELDES. EXPLÍCITA E TAMBÉM POÉTICA, A OBRA DESTE ACLAMADO FOTÓGRAFO E POETA CHINÊS É EXIBIDA PELA PRIMEIRA VEZ NA ITÁLIA

3 backs, 2015. Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estate.

Untitled, 2015 Courtesy OstLicht Gallery and Ren Hang Estate.

A mostra NUDES, do artista chinês Ren Hang, apresenta um compêndio de 90 obras, sendo uma retrospectiva com os trabalhos produzidos por este fotógrafo autodidata em sua breve existência, entre 1987 e 2017. A exposição acontece sob a curadoria de Cristiana Perrella, também diretora do museu Centro per l’Arte Contemporanea Luigi Pecci, localizado em Prato, região da Toscana, na Itália, cidade esta com aproximadamente 195 mil habitantes.

A China está no holofote das críticas por ser apontada até o momento o local originário e de disseminação do Covid-19. Justamente a cidade de Prato, onde a mostra acontece, tornou-se nas últimas décadas um grande centro têxtil, onde vivem hoje 50 mil chineses empregados em 2.500 empresas locais que asseguram uma produção têxtil de qualidade europeia com a agilidade da indústria chinesa. Todos eles abandonaram a China à busca de melhores oportunidades de trabalho, sofrendo em seu exílio, segundo o relato de alguns, discriminação e má condições de trabalho. Contudo, a ilusão de uma oportunidade de vivência na Europa lhes proporciona um status de respeito diante muitos de seus conterrâneos residentes em sua terra natal. Espera-se não ser otimismo almejar que esses trabalhadores tenham ou achem o acesso a esta exposição. O fato da exposição NUDES ser a primeira aí inaugurada após o lockdown provocado pela pandemia do Covid-19 pode ser visto como um elo para apaziguar os ânimos do público europeu afetados pelos transtornos dos últimos meses, desde o surgimento do novo vírus ainda indomável.

A obra de Ren Hang tem em si uma sutileza repleta de pureza, ironia e introspecção. Exposta nesse contexto, ela acentua ainda mais não somente a importância artística cultural de seu legado, mas também a importância de sua atuação como protagonista, provocador e sensível militante em prol da liberdade de expressão. Seu reconhecimento internacional foi adquirido a partir de sua participação na mostra coletiva FUCK OFF 2, realizada em 2013, no Groninger Museum, sob a curadoria do artista Ai Weiwei, e desde então evoluiu de ordem crescente.

Kissing Roof, 2012

A fotografia é o foco de sua produção artística tendo como objeto a representação do ser humano e, mais especificamente, da juventude em seu país de origem com um grande toque de rebeldia e humor. Jovens nus, isolados ou em grupo e acompanhados de atributos singulares da natureza como fauna e flora, surgem em fotografias encenadas fazendo uso de poucos artifícios. O olhar voltado ao espectador, o lábio acentuado pelo batom vermelho, as unhas em destaque pelo esmalte também vermelho, o posicionamento escultural dos corpos emana em poses acrobáticas ou de descanso simultaneamente atração e tensão. Corpo, identidade, sexualidade e gênero são aí enfatizados em um ato de protesto a dar voz e visibilidade à juventude chinesa oprimida sob os padrões de uma sociedade conservadora a demandar cada vez mais êxito dos indivíduos de forma padronizada para o bem da Nação.

Girl with Ants, 2014.
Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estate

Os trabalhos de Ren Hang vão muito além de uma mera representação da realidade chinesa, pois lá o nu é visto como um dos maiores tabus desde os primórdios até a atualidade. A pureza experimental enfatizada em sua fotografia sempre foi maldosamente taxada de pornografia, o que, desde 1949, é tido por lei na China como delito e ato punível. Por esse motivo, sua produção foi em todo seu percurso demarcada como alvo de críticas acirradas, censura e grande agressão ao seu criador, tido em seu País como pessoa não grata, levando-o inúmeras vezes à prisão. Restava-lhe sempre se defender com os argumentos mais singelos possíveis: “Nascemos nus… só fotografo as coisas em sua condição mais natural”.

Untitled, 2012. Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estate.

Nude, 2016. Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estate

Untitled, 2015.
Courtesy OstLicht Gallery and Ren Hang Estate.

Portrait Plant, 2012. Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estateourtesy of Through the Flower.

Peacock, 2016.
Courtesy Stieglitz19 and Ren Hang Estate.

Para Ren Hang, sua obra tinha uma importância além do contexto da arte contemporânea. Ela era vital para sua sobrevivência como forma de expressão autêntica de sua crença, luta e ambição sociocultural. As pessoas retratadas eram, no início, colegas da Universidade de Pequim, onde ele iniciou o estudo de Comunicação, abandonando-o para se dedicar plenamente à fotografia. Posteriormente, ele trabalhou com modelos contratados, mas muitas obras tinham o caráter autobiográfico explícito com o próprio artista assumindo o papel de protagonista de sua fotografia em autorretratos. Ren Hang não somente se expunha fisicamente como também nos revelava sua psique. Ele falava abertamente sobre sua depressão dedicando a ela uma seção especial em seu site, encaixada quase imperceptivelmente entre suas fotografias e seus poemas. Ele se mostrava ser uma pessoa que procurava intensamente as formas corretas de expressão e atuação sem esconder ou camuflar sua própria vulnerabilidade. “A dor e o tédio são normais, a felicidade e a alegria são um descuido”, afirmou ele em seu site poucos meses antes de falecer, em 24 de fevereiro de 2017, por suicídio.

A mostra NUDES é uma das mais complexas realizadas sobre Ren Hang até a atualidade por apresentar não somente fotografia, mas também documentação nos bastidores de uma sessão de fotos realizada em Wienerwald, em 2015, e uma ampla seleção dos livros fotográficos que ele criou e inúmeros poemas por ele escritos simultaneamente à produção fotográfica. Seu dom de comunicação ultrapassava a narrativa visual chegando a concretizá-lo na verbalização como nos poemas a seguir citados:

Presente
A vida é de fato
um precioso presente
mas muitas vezes penso
parece enviado para uma pessoa errada

Eu sou um pássaro
Eu sou um pássaro sem cabeça, sem asas, sem pernas, sem bunda, sem cauda. Qualquer um é bem-vindo para me tratar como se fosse uma bola de futebol, ser chutado desta maneira e daquela

O potencial de Ren Hang fez com que ele rompesse por si só a lacuna entre seu próprio senso de naturalidade e seu papel na sociedade. Sua fragilidade agigantou sua existência. Seu legado perpetuou poeticamente sua defesa pela liberdade de expressão.

 

 

Tereza de Arruda é historiadora de arte formada pela Universidade Livre de Berlim. Curadora convidada da Kunsthalle Rostock desde 2016, Bienal de Curitiba, de 2009 a 2019, e da Bienal de Havana desde 1996. Curadora da mostra Chiharu Shiota – Além da Memória, em cartaz no circuito do Centro Cultural Banco do Brasil.

REN HANG: NUDES • CENTRO PER L’ARTE
CONTEMPORANEA LUIGI PECCI • ITÁLIA • 4/6 A 23/8/2020

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