O gosto do vivo, 2023. © Regina Parra. Foto: Julia Thompson

DASARTES 133 /

REGINA PARRA

DIALOGANDO COM DIFERENTES CAMPOS CRIATIVOS, A ARTISTA REGINA PARRA TRANSFORMA A PINA ESTAÇÃO EM ESPAÇO CÊNICO PARA CONTAR A HISTÓRIA DE PAGÃ, UMA MULHER QUE ABDICA DE UMA VIDA SOCIALMENTE CONFORTÁVEL E INICIA UM RITUAL DE DESCOBERTA E TRANSFORMAÇÃO DE SI E DO SEU CORPO. O PROJETO EXPERIMENTAL FALA SOBRE O CORPO FEMININO, SEU PRAZER, LIBERDADE E INSUBORDINAÇÃO

Electra (nós que guardamos o grito em segredo inviolável)

Electra (nós que guardamos o grito em segredo inviolável), 2023. © Regina Parra

A ideia de Electra surgiu a partir de uma pesquisa em torno das tragédias gregas. Descobri que os gregos têm um vocabulário muito maior para expressar dor e lamento. Na maior parte das traduções, essas nuances e sutilezas de expressões se perdem, uma vez que não temos palavras para traduzir. No português, por exemplo, todas expressões de lamento acabam sendo traduzidas para “ai de mim”.  E com isso perdemos a curva da personagem e suas nuances de sofrimento.

Tradutores e tradutoras contemporâneos estão se atentando a isso e, em vez de aplainar tudo para “ai de mim”, estão optando por manter o termo original em grego – que aparece quase um ruído no meio do texto. Apesar de não sabermos a tradução daquele termo, identificamos que é uma das muitas expressões de dor intraduzíveis e, como leitores, tentamos dar nossa própria versão ou tradução.

Fiquei fascinada por essas expressões e convidei o compositor norte-americano Ian Gottlieb para criar uma composição musical usando essas expressões gregas como partitura. O resultado é o dueto Electra: nós que guardamos o grito em segredo inviolável. Convidei então as performers Stephanie Lucchese e Luisa Alcantara para cantar esse dueto. E a estilista Marina Dalgalarrondo para criar o figurino.

A partir do fato de que a performance seria estática e cantada, com as intérpretes uma de frente para a outra, optamos por fazer sobressair a boca: tampando todas as extremidades e deixando apenas a boca aparecendo, destacando o trabalho vocal. Os dois figurinos foram inspirados em drapeados gregos que contornam os corpos de forma a não aparecer qualquer espaço de pele, deixando apenas a boca à mostra. Para dar ainda mais destaque a essa parte do corpo, o rosto foi inteiro pintado de branco, com boca e dentes em vermelho, como se o lamento saísse pela boca.

 

Minotaura

Minotaura, 2023. © Regina Parra.

Minotaura surgiu do desejo de imaginar o que seria, como seria e como agiria a fêmea do Minotauro. As histórias que chegam para nós sobre esse ser mitológico são muito associadas ao falo e à ideia de que o Minotauro é um ser monstruoso que foi trancado no labirinto por ser perigoso. Minha vontade era investigar essa selvageria vital não como um aspecto monstruoso, mas como uma força tenebrosa a serviço do triunfo da vida. E com isso imaginar como seria esse ser híbrido de mulher-animal e a vitalidade erótica em torno disso.

Convidei a coreógrafa Clarice Lima para colaborar comigo na criação de uma dança circular e vigorosa que remetesse a um labirinto. As bailarinas Karen Marçal, Patricia Árabe e Sabrina Ferreira – que já trabalhavam com Clarice – foram fundamentais na criação dessa coreografia e trouxeram um erotismo primitivo para essas Minotauras.

Para o figurino, convidei a figurinista Marina Dalgalarrondo que desenvolveu sapatos encapados com pelos de animais que se conectavam a joelheiras por meio de fivelas e tiras vermelhas. Joelheiras e botas se fundem em uma única peça, remetendo ao misto de bicho-mulher.

Para enfatizar esse caráter híbrido, criei máscaras bem simples, pintadas com bastão oleoso e trazem a silhueta de um touro.

 

O canto da cabra

O canto da cabra, 2023. © Regina Parra.

O canto da cabra também surgiu de uma pesquisa vinda da Grécia Antiga. Para alguns estudiosos, a origem do termo “tragédia” está relacionada ao “canto do bode” tragos (bode) e oidos (canção).

A partir disso, comecei a imaginar o que seria a versão feminina desse canto, ou seja, quais sonoridades o canto da cabra poderia trazer. Surgiu então o desejo de experimentar e criar um canto sem voz, mas feito de ar, de respiração somente.

Há tempos vinha me interessando pela respiração ofegante. Não apenas pela potência sonora do ofegar, mas também por ser uma respiração que aparece tanto em situação de extremo cansaço e até agonia como em situação de gozo e prazer. Essa respiração rítmica e intensa também gera uma superoxigenação no cérebro que vinha me interessando.

Convidei o coreógrafo Bruno Levorin, com quem eu já tinha trabalhado em outro projeto em 2018, para me ajudar nessa pesquisa. A ideia era criar uma coreografia sutil e precisa que enfatizasse essa respiração ofegante, mas também trouxesse afeto e cuidado. A bailarina Maitê Lacerda e a atriz May Tuti se juntaram a nós e deram corpo a essas duas mulheres-cabras que se conectam pelo toque e pela troca de ar.

Chamei mais uma vez a Marina Dalgalarrondo para o figurino. E, nesse caso, o desejo era fugir da premissa teatral e trazer elementos da moda. Marina criou peças com couro que foi rasgado, desgastado e pintado, e então remodelado, com cortes e aplicações, finalizado por uma grande capa nas costas dos figurinos, feito com o próprio pelo da cabra.

 

O gosto do vivo

O gosto do vivo, 2023.© Regina Parra.

Essa grande pintura surgiu de um desejo antigo que pareceu propício à cena final da exposição Pagã. Há uns três anos, tenho trabalhado com pinturas que trazem versões de naturezas mortas. Digo versões porque enxergo e trato as frutas nas minhas pinturas como corpos, como entranhas.

Em O gosto do vivo queria trazer a imagem desse grande gozo, um êxtase que acontece pelo corpo e não negando o corpo. A pintura tinha que ser grande o bastante para que o público pudesse mergulhar nela e participar desse delírio.

Convidei Malka Bor, Luiza Rolla e May Tuti, três atrizes que toparam criar essa cena comigo. E a Thany Sanches me ajudou com as fotos e a produção. Eu queria fazer essa cena em um teatro porque a luz é sempre muito importante para mim.

Levamos uma piscina inflável para o palco do Teatro do Centro da Terra e a enchemos com frutas e uma mistura de água e farinha, criando uma aparência leitosa. Escolhi as frutas mais moles, ou seja, que pudessem ser mais facilmente despedaçadas e mescladas.

As atrizes entraram nessa piscina com as frutas e seguimos criando movimentos e interações que pudessem trazer essa imagem de sedução, êxtase e gozo.

 

Horas de perdição

Horas de perdição, 2023.
© Regina Parra.

Três grandes pinturas compõem essa espécie de retábulo que criei para a Cena 2 da exposição Pagã. Comecei a pensar nessas imagens em 2021, quando estava estudando o texto da Clarice Lispector e começando a desenhar a exposição da Pinacoteca. Queria trazer pinturas que pudessem ser lidas em sequência, como fragmentos de um ritual ou de uma iniciação. Também queria trazer uma natureza que não fosse óbvia e completamente familiar. Estava mais interessada nesse encontro/confronto com uma natureza misteriosa e ameaçadora. E encontrei isso na vegetação da região Norte do Maine (EUA). Para o figurino, escolhi uma saia de couro natural e grosso que parece não pertencer a época alguma ou tempo específico.

O processo de criação dessas pinturas é parecido com o de outras séries que tenho criado desde 2018. É como se as pinturas fossem a documentação de uma performance que aconteceu, mas que só pode ser vista por meio da pintura.

O processo dessa performance acontece da seguinte maneira: depois de eleger as intenções, escolher a locação, o figurino e também alguns elementos que podem ou não entrar nessa encenação, eu inicio um processo de experimentação/improvisação. Como uma tentativa de encontrar no corpo, gestos, movimentos e ações que podem traduzir o que estou buscando. Um ritual que entendo como “in-cenar, in-corporar, in-carnar”. Essa performance experimental geralmente dura entre três e quatro horas ininterruptas e uma câmera colocada em um tripé grava toda a cena. Eu costumo esperar ao menos alguns dias para assistir a essa gravação para tentar ter um olhar mais fresco diante de tudo. Depois de assistir, tento selecionar gestos, movimentos e ações que farão parte da composição da pintura.

É preciso continuar, 2018. © Regina Parra. Cortesia Millan

REGINA PARRA: PAGÃ •
EDIFÍCIO PINA ESTAÇÃO •
SÃO PAULO • 1/4 A 13/8/2023

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