Ramonn Vieitez, Redenção, 2020 | Todas as imagens: Cortesia do artista e Galeria Portas Vilaseca

DASARTES 107 /

Ramonn Vieiteiz

EM CARTAZ NA COLETIVA SER VIVO, LIVRE, EU, NO GALERIA CAFÉ SÃO PAULO, O JOVEM ARTISTA DE RECIFE, RAMONN VIEITEZ, CONSTRÓI, EM SUAS EXUBERANTES PINTURAS, NARRATIVAS SOLITÁRIAS CHEIAS DE TEATRALIDADE E SIMBOLISMO, CONCILIANDO A VIDA URBANA MELANCÓLICA E VIOLENTA COM UM IDÍLIO MISTERIOSO, SURREAL E MITOLÓGICO Muito antes dos filmes de super-heróis dominarem a indústria […]

EM CARTAZ NA COLETIVA SER VIVO, LIVRE, EU, NO GALERIA CAFÉ SÃO PAULO, O JOVEM ARTISTA DE RECIFE, RAMONN VIEITEZ, CONSTRÓI, EM SUAS EXUBERANTES PINTURAS, NARRATIVAS SOLITÁRIAS CHEIAS DE TEATRALIDADE E SIMBOLISMO, CONCILIANDO A VIDA URBANA MELANCÓLICA E VIOLENTA COM UM IDÍLIO MISTERIOSO, SURREAL E MITOLÓGICO

Don´t look at me, 2015

Muito antes dos filmes de super-heróis dominarem a indústria cinematográfica, a geração que cresceu nos anos 1990 já havia se acostumado a ver nos canais de televisão heróis mascarados. Das live-actions orientais que invadiram as TVs naquela década à presença dos heróis americanos em desenhos animados, figuras que cobrem o rosto para salvar o mundo já faziam parte do imaginário popular. A justificativa para isso, na maioria das vezes, tem a ver com preservar a própria identidade e proteger seus entes queridos. Parte das crianças dessa mesma geração, que mais tarde se entenderiam como pertencentes ao universo LGBTQIA+, também aprenderam a preservar uma espécie de identidade secreta ao esconderem suas sexualidades do mundo e tentarem se enquadrar em um padrão heteronormativo. A justificativa é similar: preservar e proteger, a si e aos que amam, da opressão de uma sociedade ainda baseada em valores oriundos principalmente do Cristianismo.

A verdade está sobre a mesa e o sangue aos meus pés, 2019

Não são de super-heróis as máscaras usadas pelos personagens do artista recifense Ramonn Vieiteiz. Inspiradas principalmente nos capirotes, capuzes pontiagudos utilizados pelos condenados como forma de humilhação pública, as máscaras utilizadas pelos personagens do artista também os revestem de uma espécie de culpa. Mas, à luz da contemporaneidade, essa culpa gera movimento, (re)ação contra o sistema opressor. É nesse contexto de embate e rebeldia juvenil que parecem se lançar algumas dessas figuras, que portam facas ensanguentadas, habitam uma urbe carregada de informações, notícias e simbolismos. Os jovens de Ramonn, muitos deles párias da sociedade, encaram o espectador, ameaçam-no e bradam sua existência em frente a paredes grafitadas com mensagens, gritos de ordem, bandeiras e referências ao mundo pop.

Contra toda autoridad… excepto mi mamá, 2021

Mas também há o silêncio.

Vermelho, 2015

A poética pictórica de Vieiteiz – talvez oriunda da mesma fonte que legou ao mundo a poesia de Rimbaud – também expõe o vazio, a melancolia perante o deslocamento no mundo. O artista apresenta uma obra complexa, cheia de contrastes e duplicidades. Se em alguns momentos o espectador se vê diante de personagens que parecem lhe enfrentar em meio à selva de pedras da cidade, por vezes, a selva é outra, interna, ainda mais amedrontadora. Ramonn oscila entre um mundo material e palpável e outro abstrato, de perigos que parecem advindos de outros tempos. Transitando entre esses dois polos, suas figuras passeiam sem rumo por ambientes claustrofóbicos, sombrios e, ainda assim, estranhamente acolhedores.

Inside the night (You put your arms around me), 2018.

The prayer, 2015

O artista dota essas narrativas de traços firmes e cores fortes, muitas vezes abusando de uma única cor que, por vezes, faz seus personagens se destacarem em meio aquele universo, como em O Enforcado (2014). Em outras ocasiões, a monocromia os camufla em meio ao ambiente, como em O Jardim de Midas (2016). Essa pintura, aliás, traz outro contraste importante na produção do artista: se alguns de seus personagens habitam o mundo contemporâneo, outros transitam por universos e referências mitológicas, muitas vezes se metamorfoseando, agregando nos próprios corpos elementos animais, como chifres e patas. A identidade novamente posta como ponto central de sua produção. Identidade e diferença. O corpo que não se encaixa à norma. E mesmo que, por vezes, habitando universos com um traço de estranheza, as personas que Ramonn traz à tona em suas telas poderiam ser reais, e talvez até sejam, uma vez que, em seu processo, o artista colhe referências de imagens, elementos e pessoas que o atravessam no dia a dia.

O Jardim de Midas, 2016

Ramonn Vieiteiz é um desses artistas que concentram muito claramente em sua produção o espírito (e a política) de seu tempo. Apesar dos avanços consideráveis nas últimas décadas e dos diversos termos e conceitos concentrados na sigla LGBTQIA+ que buscam entender e nomear a diversidade, a alteridade ainda é fator de segregação e eliminação, conforme se pode perceber quase diariamente nos noticiários. Por meio de sua produção, o artista evoca tempos confusos, de bombardeio de imagens e informações, mas também isolamento e melancolia. Ao mesmo tempo em que se grita pelo direito à própria identidade, cada vez mais se usam máscaras, disfarces, filtros (!) por trás dos quais se escondem verdades. Ou não. Para o artista, máscaras não servem apenas para esconder, mas para revelar. Se em Ramonn tudo é contraste, talvez algumas dessas máscaras possam revelar identidades que não cabem nos rostos iguais que se misturam na multidão. Identidade é diferença.

Assassino nº 15 (Série Negra), 2015

SER VIVO, LIVRE, EU • GALERIA CAFÉ SÃO PAULO • ATÉ 10/6/2021

Leandro Fazolla é ator, historiador e produtor cultural.
Doutorando em Artes Cênicas. Mestre em Arte e Cultura Contemporânea,
na linha de pesquisa História, Teoria e Crítica de Arte.

Assassino nº 22 (Série Negra), 2015

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