Pelican (Stag), 2003. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120

DASARTES 94 /

Peter Doig

PINTOR DE PAISAGENS ROMÂNTICAS, MAS MISTERIOSAS, O ARTISTA ESCOCÊS PETER DOIG FOI NOMEADO ATUALMENTE UM DOS ARTISTAS MAIS IMPORTANTES DO MUNDO. DOIG PRODUZ PINTURAS QUE COMBINAM IMAGENS DIVERSAS, DESDE COMPOSIÇÕES E TEMAS DE OBRAS DE PINTORES MODERNOS A CENAS DE FILMES, GRÁFICOS PUBLICITÁRIOS E PAISAGENS DE LUGARES EM QUE VIVEU, COMO CANADÁ E TRINIDAD

Gasthof zur Muldentalsperre, 2000-02. © Peter Doig.
All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Pelican (Stag), 2003. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120

Peter Doig é um artista errante. Nascido em 1959, em Edimburgo, na Escócia, com apenas dois anos se mudou para Trindade e Tobago, onde viveu até os sete, quando se mudou novamente, desta vez, para o Canadá. Lá, morou no subúrbio de Montreal, em Quebec e na área rural de Ontário até decidir se mudar para Londres para estudar arte. Aos 19 anos, quando partiu para Inglaterra, levava na bagagem um repertório visual riquíssimo – imagens não apenas da arquitetura, mas, sobretudo, das paisagens, da vegetação, da neve, do mar, dos lagos e rios das cidades por onde passara. Suas composições de naturezas exuberantes se sobrepondo a figuras humanas, onde as silhuetas parecem diminutas e frágeis em meio às vastas paisagens, lembram as pinturas do Romantismo alemão. Mas, em seus trabalhos, a história da pintura ocidental dialoga com referências populares da cultura visual contemporânea, encontradas em cartões postais, revistas, anúncios e pôsteres de filmes. Transitando pelos terrenos do sonho, da memória, da fantasia e da alucinação, algumas de suas imagens vão até às fronteiras do terreno do kitsch, mas não chegam a cruzá-las. Algo de enigmático as desvia dos lugares comuns. São imagens que nos levam a lugares estranhos, mas não necessariamente sobrenaturais ou impossíveis. Nesse sentido, têm uma relação muito peculiar com o real porque, embora invariavelmente partam de fotografias (Young Farmer Bean é baseado em uma foto da revista National Geographic, Ski Jacket, em um anúncio de uma estação de esqui de Tóquio), tensionam o limite da verossimilhança a ponto de colocar o pacto com o “real” sempre na iminência de ser rompido.

Young Bean Farmer, 1991. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Quando chegou à St Martins School of Art, em Londres, no início da década de 1980, Doig considerava inconcebível a ideia de viver apenas da pintura, “não conhecia alguém que pudesse fazer isso”, conta. Mas, para o artista, a total falta de interesse comercial em seu trabalho não foi necessariamente ruim, pois lhe proporcionou por muitos anos a liberdade de pintar sem o compromisso de expor, o que hoje considera crucial para o desenvolvimento de uma linguagem consistente. Em 2007, em uma conversa com o pintor e amigo Chris Ofili, Doig sugeriu que os artistas atualmente expõem demais e talvez fosse melhor, em vez de mostrar o trabalho a cada 18 meses, que esperassem cinco ou até mesmo dez anos. – “Eu digo aos meus alunos, vocês não precisam vender, vocês não precisam expor… é uma espécie de armadilha que o sistema cria e é preciso ser muito determinado ou mesmo um fanático para ir contra isso, especialmente quando o seu trabalho é desejado.” Para mergulhar em sua pintura durante o dia, Doig buscou empregos noturnos. Trabalhou em bares, boates e na English National Opera e é dessa época a fotografia que deu origem a Gasthof zur Muldentalsperre (2000-2002). Na tela, as duas figuras de bigode paradas em frente ao portão são Doig e um amigo, fantasiados com figurinos da produção Petrouchka, balé de Stravinsky, em um cenário inspirado em um cartão postal alemão de 1910. A combinação desses diferentes registros, a construção alemã do início do século passado, o muro de pedras coloridas, o céu verde esmeralda, o olhar enigmático dessas duas figuras que parecem saídas de outro tempo, produz uma das obras mais pitorescas do artista.
Em 1986, Doig voltou a viver em Montreal, mas, em menos de três anos, decidiu se mudar novamente para Londres, dessa vez para fazer um mestrado na Chelsea College of Art and Design. Chegando lá, encontrou um cenário artístico diferente do que havia deixado – “havia mais competição e também havia uma espécie de medo, porque era o momento em que artistas como Damien Hirst e Michael Landy, por exemplo, começavam a aparecer, e todos os alunos estavam bem conscientes disso.” Doig contou que, nessa época, viu muitos estudantes mudarem sua prática para se aproximar do tipo de arte que estava em evidência, e olhava com ceticismo para os trabalhos que estavam sendo “fabricados” para se enquadrar naquele contexto artístico. “Acho que tive sorte porque, como era um dos alunos mais velhos, já tinha visto o quão rápido as coisas se transformavam. Eu estava bem feliz de fazer algo diferente, que em parte era uma reação ao que eu via em Londres na época e em parte uma reflexão da minha vivência no Canadá.” Somente quando já estava há alguns anos morando em Londres que Doig começou pintar as paisagens ou, nas palavras dele, “as ideias de paisagens” canadenses, como Milky Way (1989-1990), que retrata uma pequenina canoa em meio à imensidão da natureza e da Via Láctea espelhadas pela superfície de água – “meus anos em Montreal de repente me pareceram muito ricos quando vistos a distância”.

Milky Way, 1989-1990 . © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Swamped, 1990. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

A abordagem que Doig faz de seus objetos privilegia esses deslocamentos temporais e geográficos, como se a distância propiciasse as condições para que suas lembranças se transfigurassem, para que ele pudesse desnaturalizar esses elementos que outrora estiveram tão próximos. Uma forma de tornar estranho o que um dia foi familiar. As memórias do lugar onde viveu a adolescência foram também uma forma de escapismo da realidade urbana que o cercava – “o trabalho se tornou um mundo diferente, meu entusiasmo estava em tentar encontrar esse outro lugar no meu ateliê, no meu ateliê urbano, na minha cabeça.” No caos do centro de Londres, o artista pôde se dar conta de como a exuberância da natureza canadense que havia contemplado na adolescência – “muitas vezes sob o efeito de psicotrópicos” – tinha se fixado em seu imaginário de forma mais preponderante do que supunha – “no Canadá, a natureza está sempre na iminência de se tornar selvagem”, diz.
No início da década de 1990, o trabalho de Doig começou a ganhar alguma visibilidade na capital britânica. Ele apontou como “divisor de águas” uma matéria de 1992 que saiu na revista inglesa de arte Frieze, escrita por Gareth Jones, e enfatizava o caráter inusitado de suas pinturas. Era um momento em que a cena artística estava tomada pelos Young British Artists (YBAs), entre os quais figurava Damien Hirst, com suas instalações ambiciosas e extravagantes. Enquanto o foco estava voltado para uma arte mais conceitual, caracterizada em grande parte pelo choque e pelo espetáculo, Doig explorava as propriedades da tinta a óleo, sua fluidez, a forma como as cores interagiam, como alguns pigmentos secavam de forma diferente de outros. “Acho que pintores veem a tinta a óleo de uma maneira muito diferente das pessoas que não a utilizam. Eles usam a tinta a óleo como uma forma de mágica ou de alquimia.” Em um contexto caracterizado pela radicalização de questões estéticas, em que a própria pintura era apontada por muitos como ultrapassada ou mesmo “morta”, o projeto artístico de Doig – sua escolha da tinta a óleo, a simplicidade dos temas, o uso corajoso das cores e o excesso de matéria nas telas – poderia parecer romântico e banal. Mas, mesmo nadando contra a corrente, ou talvez justamente por isso, seu trabalho começa a receber atenção e, em meio a carcaças de vacas cortadas ao meio e cadáveres de tubarões conservados em formol, Doig foi indicado, em 1994, ao prestigioso prêmio Turner, organizado pela Tate, de Londres.Em 2000, uma nova mudança. Convidado para participar de uma breve residência em Port of Spain, capital de Trindade e Tobago onde vivera parte da infância, Doig se viu profundamente impactado em como a cidade de onde havia saído 33 anos antes ainda lhe parecia familiar – “Eu me lembrei da arquitetura, de cheiros, sons, de algumas ruas e avenidas, de como as pessoas eram acolhedoras. É um lugar visualmente potente e eu percebi que, mesmo tendo saído de lá ainda muito novo, eu sempre havia me sentido afetivamente conectado a ele.” Dois anos depois, Doig se mudou para a ilha com a família, uma experiência que provocou mudanças significativas na atmosfera de seus trabalhos. Com a mudança de cenário, o clima de suas pinturas se transformou, a temperatura sobe, a neve derrete, as árvores adquirem novas formas, as cores se tornam mais quentes e expansivas, o mar mais claro e luminoso. As canoas, um tema recorrente na obra, trocam as águas geladas do que pareciam ser lagos canadenses por cenários tropicais, como no belíssimo Red Boat (2004), em que seis figuras vestidas de branco se amontoam a bordo de um pequeno barco vermelho que flutua em meio à mata densa.

Red Boat (Imaginary Boys), 2004. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

No que tange à técnica, as pinturas perdem parte da densidade, parecem mais leves e fluidas. O excesso de matéria que caracterizava seus primeiros quadros dá lugar a camadas mais finas, às vezes quase transparentes, através das quais se pode ver o fundo da tela. As figuras translúcidas, de aparência fantasmagórica, reforçam a aura de estranhamento das composições, como no caso do espectro de um homem de uniforme de Rain in the Port of Spain (2015). Nessa pintura, o prédio de tijolos amarelos, janela e portas verdes da tela é baseado em uma casa de detenção construída no centro da cidade durante a colonização britânica. Por entre as grades da porta, vê-se o vulto de outro homem. Em contraste à ideia de encarceramento, anda solto pela rua um leão, referência à figura bíblica do leão de Judá, também símbolo da soberania africana no movimento Rastafári.
No mais recente Night Bathers (2019), uma mulher de pele azulada está deitada na areia da praia sob a luz da lua. Como acontece em tantas outras telas de Doig, a banalidade da cena é interrompida por alguns detalhes que as redimensiona. No fundo da tela, por exemplo, na altura da linha do horizonte, duas pequenas silhuetas remetem a pessoas montadas a cavalo. À sua esquerda, alguém parece ter acabado de pousar com um paraquedas branco. Esses detalhes pulverizam o foco da imagem e estilhaçam a tensão visual do quadro em diversos pontos independentes de interesse, minando a hierarquia de significados que sustentaria uma linha narrativa. É isso também o que acontece em Lapeyrouse Wall (2004), quadro pintado a partir de uma fotografia que o artista tirou de um cemitério no centro de Port of Spain. Diversos elementos reforçam o caráter insólito da imagem aparentemente banal. Entre elas, as manchas expressionistas na superfície do muro do cemitério, a ponta de uma torre de eletricidade no canto direito da tela, o hidrante amarelo e a estampa floral rosa e cinza da sombrinha carregada pelo homem que caminha de costas com seus sapatos grandes, seus óculos de armação pesada, seu boné preto.

Lapeyrouse Walll, 2004. © Peter Doig.
All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Nightbathers, 2019.
© Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Um artista errante precisa estar disposto a abraçar o acaso, o desconhecido, o inesperado. Deve ver, nos imprevistos, oportunidades, transformar os erros em descobertas. Doig não se cansa de exaltar o quanto para ele sempre foi importante estar aberto para acolher e ressignificar os incidentes que fazem parte de seu processo. Quando uma fotografia sofre algum acidente em seu ateliê, se é rasgada ou suja de tinta, essas transformações apenas aumentam seu valor. O mesmo vale para os “defeitos” técnicos da imagem – resolução ruim, falta de foco, reflexo da lente. Cada incidente abre novos caminhos. É esse equilíbrio entre o intencional e o acidental que torna possível ao artista encontrar mais do que procura – “os erros são parte essencial de tudo o que faço. Muitas das minhas pinturas são basicamente erro em cima de erro em cima de erro. É assim que elas evoluem.” Para Doig, esse elemento de imprevisibilidade deve alcançar também a natureza do encontro que cada espectador terá com a sua obra: – “Não cabe ao pintor dizer ao espectador o que ele deveria ver ou sentir, pelo menos não a mim”, afirma.

Concrete Cabin II, 1992.
© Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

PETER DOIG • MUSEU NACIONAL
DE ARTE MODERNA • TÓQUIO
• JAPÃO • 26/2 A 14/6/2020

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