Tahitianische Frauen, 1891. © RMN-Grand Palais (Musée d'Orsay). Foto: Patrice Schmidt | Bridgeman

DASARTES 120 /

PAUL GAUGUIN

PAUL GAUGUIN FOI UM DOS PIONEIROS DA ARTE MODERNA. SUAS PINTURAS MAIS FAMOSAS FORAM PRODUZIDAS NA ILHA DO TAITI, NO PACÍFICO, ENTRE 1891 E 1901 E FORAM MOLDADAS PELAS IDEIAS OCIDENTAIS E COLONIAIS DE “EXÓTICO” E “ERÓTICO”

GAUGUIN, ESSE “SELVAGEM-APESAR-DE-MIM-MESMO’” 

(Trecho da carta que o artista escreveu para seu amigo Charles Morice, em 1903) 

 Tudo o que faço brota da minha imaginação selvagem”. Paul Gauguin  

O mito do “selvagem” pautou a vida e a obra de Eugène-Henri-Paul Gauguin (Paris, 1848 – Ilhas Marquesas, 1903). Em torno do pintor, a história da arte, por muito tempo, forjou dois pontos de vistas simultâneos e distintos: o primeiro, é o do herói que fugiu dos males da civilização europeia para uma terra intocada, buscando uma espiritualidade profunda e, o segundo, o do colonizador que explorou o exótico em seus trabalhos. Essa última perspectiva põe abaixo a visão idílica que paira sobre os artistas modernos.  

É sobre esse desconforto que trata a exposição Paul Gauguin – Why Are You Angry?, na Alte Nationalgalerie, em Berlim. A mostra coloca em debate essa vertente da trajetória do pintor, exibindo obras criadas na ilha do Taiti, no Mar do Sul. E a controvérsia surge ainda mais intensa, porque a curadoria trouxe obras contemporâneas para esse diálogo; entre os nomes mais conhecidos, estão Angela Tiatia, Yuki Kihara e Henri Hiro – em comum, esses artistas lidam com a diversidade de linguagens (escultura, performances, videoinstalações, etc.), não têm origem europeia (seriam “os outros”; “os selvagens”) e seus trabalhos são norteados pelas interações entre gênero, raça e decolonialismo. Gauguin, então, é discutido a partir de diferentes abordagens e estudos pós-coloniais.

Vahine no te Tiare, 1891, Ny Carlsberg Glyptotek, Kopenhagen © Ny Carlsberg Glyptotek.

No te aha oe riri (Por que você está com raiva?) – tela pintada em 1896, pertencente ao Instituto de Arte de Chicago, é tomada como título da mostra. No período de produção dessa obra, Gauguin estava doente e com sérias dificuldades financeiras. Apesar disso, fez um conjunto de telas em formato maior do que as habituais. Em Por que você está com raiva?, as figuras principais são grandes e desconectadas; são personagens difíceis de interpretação. A interrogação no título funciona como provocação – “busque por uma narrativa, se for capaz!” Mas, o imaginário resiste em dar leitura definitiva desta história. Como título da exposição, a pergunta inquieta mais uma vez, porque nos sugere a questão essencial: “você está com raiva de Gauguin?”

No te aha oe riri, 1896-1933. © Art Institute of Chicago

De fato, a construção do “mito do artista selvagem” se tornou parte integrante da proposta criadora de Gauguin. Filho do jornalista Clovis Gauguin e de Aline Chazal, filha da escritora e ativista franco-peruana Flora Tristán, Paul Gauguin tem sua trajetória marcada pelo deslocamento e pelo contato com o “outro”. Em 1849, sua família embarcou para Lima e seu pai morreu durante a viagem. Em 1855, retornaram à França. Em 1864, morreu sua mãe. Seu tutor, Gustave Arosa, fotógrafo e colecionador de arte, despertou em Gauguin a paixão pela pintura.  

Mas as andanças do jovem pelo “novo mundo” ainda estavam no início. Isso porque, na sequência, ele se alistou na marinha francesa, viajando por vários países. Dizem as “más línguas” que esteve no Rio de Janeiro, mas odiou a baía da Guanabara. Em 1872, regressou a Paris e trabalhou como corretor na agência de câmbio Berti. No ano seguinte, casou-se com a dinamarquesa Mette Sophia Gad, com quem teve cinco filhos – as desavenças com a família de Mette viriam com as dificuldades econômicas algum tempo depois. Mas, ainda, na época de agente de investimentos, começou a pintar no tempo livre; fez amizades com artistas e colecionou trabalhos daqueles conhecidos como impressionistas.  

O contato com Camile Pissaro aconteceu durante a primeira metade da 1870. Gauguin conhecia bem as paisagens do mestre e as via em exposições e coleções particulares. Suas primeiras telas têm cores mais naturais e retratam os arredores de Paris. Como as cores eram realistas e o tema subjugado, o jovem pintor adotou o estilo pictórico dos impressionistas, sendo claramente inspirado por Pissaro. Aliás, foi Pissaro quem lhe abriu as portas para o círculo dos impressionistas, mas Gauguin ainda era um negociante de arte.  

Foi somente em 1882, com uma crise no mercado financeiro e a perda do emprego, que Gauguin se dedicou à pintura. Dois anos depois, ele se mudou para Copenhague. Não se adaptou à cidade e voltou a Paris. Conheceu o ceramista Ernest Chaplet e produziu peças de cerâmica – aqui, é preciso destacar, Gauguin é reconhecido como pintor, mas também fez gravuras, esculturas e cerâmicas. A busca pelo original na arte e por valores ligados ao primitivo (ou seja, aquilo que não está contaminado pela civilização) se tornam as obsessões de Gauguin. Para ele, o essencial era o valor simbólico das linhas, que indicavam a estrutura primária da realidade. Ele não buscava a imitação da natureza – o que lhe interessava era sua nova pintura simbólica-abstrata. Esse atributo da pintura ele sentia que não poderia encontrar em Paris.

Tahitianische Fischerinnen, 1891. © Staatliche Museen zu Berlin, Nationalgalerie / Leihgabe der Ernst von Siemens Kunststiftung /Jörg P. Anders

Interior with a Woman at a Washtub, and a Child. Museum de Fundatie, Kasteel Het Nijenhui.

Tahitianische Landschaft mit vier Figuren, 1892. © Ny Carlsberg Glyptote

A essas alturas, Gauguin já não contava com o apoio da família e tão pouco dos amigos, que não aceitavam seu novo modo de pintar. Em 1886, seguiu para Pont-Aven, na Bretanha, reduto de artistas que rompiam com a pintura acadêmica, mas não permaneceu ali por muito tempo. Na sequência, ele seguiu para Arles, onde dividiu ateliê com Vicent van Gogh. Lá, os dois pretendiam formar uma colônia de artistas. A convivência entre os dois não era nada fácil: as diferenças entre os temperamentos e, especialmente, a variação de humor de Van Gogh aumentavam os conflitos entre os dois pintores. Em dezembro de 1888, as brigas resultaram no episódio da orelha direita cortada (lembra-se?). Vicent passou 14 dias internado no hospital de Arles, atual L’Espace van Gogh, onde pintou o pátio interior desse antigo edifício. Já Gauguin encerrou sua incursão pelo interior da França. Nesse lugar, as paisagens marinhas, as naturezas-mortas e a vida no campo temas de seus trabalhos lembram a xilogravura japonesa de Hokusai, Hiroshige e Kuniyoshi, talvez pela convivência com Van Gogh, admirador e colecionador desse tipo de arte japonesa. Em 1889, Gauguin apresentou suas obras na Exposição Universal de Paris e manteve contato com escritores simbolistas no café Voltaire.  

Quase três anos depois, ele seguiu para o Taiti. Na ocasião, radicalizou a visão primitiva que já havia inaugurado na França. Sua ideia romantizada do Taiti, concedida pelo sonho colonial do paraíso terrestre, foi sendo despedaçada pela convivência com os nativos. Para ele, a colonização francesa corrompeu o Taiti. Sua missão como artista consistia em mergulhar nos aspectos autênticos da cultura. A “nova terra” era sua redenção artística; um retorno à vida primitiva e exótica que purificaria sua arte. Nessa tarefa, ele atribuiu títulos taitianos, tais como, Fatata te miti (1892; “Perto do mar”) e Manao tupapau (1892; “O espírito dos mortos observando”), lançou mão da iconografia oceânica e retratou paisagens e cenários espirituais sugestivos. Em uma tentativa de se afastar ainda mais das convenções ocidentais herdadas, Gauguin evocou as tradições oceânicas em suas esculturas e xilogravuras, às quais ele deu uma aparência deliberadamente tosca. As cores se tornam mais vivas e as formas mais ousadas e gráficas, enquanto seu assunto se volta gradualmente para as mulheres taitianas, muitas vezes realizando tarefas domésticas e cotidianas, às vezes com expressões solenes. 

Em 1894, realizou uma mostra na Galeria de Paul Durand-Ruel. Ele acreditava no êxito de sua arte – não foi feliz. Entre as 44 pinturas expostas, apenas 11 foram vendidas. Lançou o livro Noa Noa sobre o tempo em que viveu no Taiti. Nesse livro, descreveu suas experiências, imagens fantásticas e escrita exagerada. A área de Papeete, onde Gauguin inicialmente escolheu se estabelecer, já era ocupada por vários colonos europeus, e por isso Gauguin não estava tão imerso no primitivismo exótico como seus contemporâneos muitas vezes pensavam. O “estranho exótico” dominava suas telas – alvo de críticas foi seu casamento com Tehura, vista como “sua Eva Primitiva”, assim como suas relações sexuais com mulheres nativas. No campo da pintura, seu primitivismo ficou menos forçado, suas formas mais arredondas e modeladas e suas imagens mais exuberantes com harmonias tonais.  

Em 1895, Gauguin fez nova viagem ao Taiti, ficando em uma cidade perto de Papeete. Sentiu-se doente e deprimido, mas cada vez mais livre das convenções sociais. Usou jovens taitianas como modelos. Sua amante Pau’ura tinha apenas 14 anos. Aos amigos franceses exibia suas conquistas sexuais, dizendo que todas as noites várias garotas nativas pulavam em sua cama “como possuídas por espíritos malignos”.

Faiara, 1898. © Ny Carlsberg Glyptotek

Maruru, 1893-94. Staatliche Museen zu Berlin, Kupferstichkabinett, Foto: Jörg P. Anders

APATARAO, 1891–1895.
© Ny Carlsberg Glyptotek.

Porém, os problemas de saúde, financeiros e pessoais eram muitos e algum tempo depois, pintou a obra: De onde viemos? Quem somos nós? Para onde estamos indo? – considerada sua obra-referência do período. A preparação da tela ocorreu na fase em que o artista tentou o suicídio. Era o seu testamento artístico, uma obra que resume todas as outras criações e explica sua doutrina filosófica e pictórica. Em 1901, o pintor trocou o Taiti pelas Ilhas Marquesas e se estabeleceu na ilha de Hiva-Oa. Envolveu-se em conflitos com as autoridades locais. Sofreu de sífilis e de um eczema doloroso. Morreu pobre, doente e incompreendido pela crítica, vitimado por um infarto, aos 55 anos. 

Gauguin buscou por um selvagem que, talvez, apenas tenha encontrado dentro dele mesmo – na sua imaginação. O “mito do artista selvagem” na arte moderna não se explica sem a atenção sobre sua trajetória. Hoje, questionar fontes de inspiração, as crenças, as motivações, assim como a vida e obra de Paul Gauguin, é fundamental para a apreensão dos desdobramentos destas na arte moderna e, por conseguinte no modo de representação da arte contemporânea. E, quem sabe, não consigamos responder de imediato se estamos ou não com raiva de Gauguin.

Alecsandra Matias de Oliveira é pós-doutora em
Artes Visuais (Unesp). Doutora em Artes Visuais
(ECA USP). Mestra em Comunicações (ECA
USP). Professora do CELACC (ECA USP).
Pesquisadora do Centro Mario Schenberg de
Documentação e Pesquisa em Artes (ECA USP).
Curadora independente e colaboradora da
Revista Dasartes, Jornal da USP e Revista USP.

PAUL GAUGUIN: WHY ARE YOU ANGRY •
STAATLICHE MUSEEN ZU BERLIN •
ALEMANHA • 26/3 A 10/7/2022  

Compartilhar:

Confira outras matérias

Panorama

FRANS KRAJCBERG

“A minha preocupação é penetrar mais na natureza. Há artistas que se aproximam da máquina; eu quero a natureza, quero …

Reflexo

ADRIANA VAREJÃO

POR ADRIANA VAREJÃO

Minha obra é permeada por influências múltiplas e variadas. Um botequim da Lapa, um canto em Macau, uma …

Destaque

RUBEM VALENTIM

UM ARTISTA SACERDOTE

POR MAX PERLINGEIRO

 
“Minha linguagem plástico-visual-signográfica está ligada aos valores míticos profundos de uma cultura afro-brasileira (mestiça-animista-fetichista). Com o …

Alto relevo

ANNA MARIA MAIOLINO

UMA ANTOLOGIA ESPIRALAR

 

 

É preciso começar pelo meio. Começar pela fresta entre as duas letras N em ANNA, esse nome-palíndromo. Pelo …

Pelo Mundo

Diane Arbus

Praticantes de sadomasoquismo; pessoas com o corpo completamente tatuado; um homem com o rosto furado por enormes alfinetes; trapezistas; nudistas; …

Destaque

ALFREDO VOLPI

VIDA E OBRA

Com um caráter panorâmico, esta exposição abrange diversos períodos da carreira de Alfredo Volpi (1896-1988) e conta com …

Capa

GONÇALO IVO

“Eu escrevo o que eu vejo, eu pinto o que eu sou”
                                                                                                                 Etel Adnan (1925-2021)
A exposição Zeitgeist, de Gonçalo Ivo, …

Alto relevo

FUJIKO NAKAYA

“O nevoeiro torna as coisas visíveis invisíveis, enquanto  
as coisas invisíveis – como o vento – tornam-se visíveis.” 
 Fujiko Nakaya 
A artista e …

Pelo Mundo

WINSLOW HOMER

Voltando-se para representações carregadas da vida rural, resgates heroicos e mares agitados, Winslow Homer (1836-1910) continuou a lidar com temas …

Matéria de capa

BERNA REALE

Moça com brinco de pérola
Setembro de 2013

Este é um ano bom para Berna Reale. Depois de ter vencido o prêmio …

Capa

PAULA REGO

“Os contos cruéis”, de Paula Rego, exposição inaugurada em outubro no Museu  L’Orangerie, em Paris, marca um momento importante na …

Flashback

JACOBUS VRELL

O MISTÉRIO DE VREL  

 

Quem foi Jacobus Vrel?  

 Há 150 anos, gerações de historiadores da arte tentam resolver o mistério da identidade …

Pelo Mundo

PISSARO

Pai do Impressionismo se baseia no acervo do museu Ashmolean, a maior coleção do mundo dedicada a um artista impressionista, …

Alto relevo

SONIA DELAUNAY

AVANT-GARDE E ESQUECIMENTO
“Sempre mudei tudo ao meu redor… Fiz minhas primeiras paredes brancas para que nossas pinturas ficassem melhores. Eu projetei …

Capa

LYGIA PAPE

O corpo de trabalho de Lygia Pape (1927-2004), que ela desenvolveu com uma alegria irreprimível de experimentação ao longo de …