Em busca de Bling, 2014. Cortesia da artista. © Otobong Nkanga.

DASARTES 91 /

Otobong Nkanga

Depois de expor na Bienal de São Paulo e receber menção especial na Bienal de Veneza, a artista nigeriana multidisciplinar OTOBONG NKANGA ganha sua primeira individual no Reino Unido. Sua obra aborda a política da terra e sua relação com o corpo, bem como as complexas histórias de aquisição e propriedade de terra.

Otobong Nkanga, nascida em 1974 no Kano, Nigéria, vive e trabalha em Antuérpia, na Bélgica. Sua prática multidisciplinar abrange tapeçaria, desenho, fotografia, instalação, vídeo e performance, e aborda a política da terra e sua relação com o corpo, bem como as complexas histórias de aquisição e propriedade de terra. Nkanga conecta fios que revelam os emaranhados de corpos, terras e recursos naturais.

Suas obras refletem sobre os processos e as consequências da extração de recursos naturais a partir de perspectivas éticas, humanas e materiais. Ela explora a transformação de minerais em mercadorias desejáveis ​​– incluindo o uso de mica na maquiagem para dar brilho e cintilar – como um comentário sobre o valor atribuído à cultura material, geralmente às custas do meio ambiente.

Consequências Sociais I: Crise, 2009.
Cortesia da artista. © Otobong Nkanga

Um número desses trabalhos se relaciona com a pesquisa de Nkanga em locais como a antiga mina de Tsumeb, na Namíbia, que reflete seu interesse mais amplo em lugares que foram “esvaziados” por meio dos processos de extração, ambos em termos de terra e pessoas. Outros trabalhos, como Manobra Sólida (2015), contêm ecos das ações mecânicas da própria escavação, enquanto o De onde eu estou (2015) atua como um espaço de questionamento e reflexão.

“De onde você está, qual é a sua própria posição? Como você vê alguma coisa? Qual é a história que sai do que você viu?” A grande instalação de carpete De onde eu estou leva seu padrão gráfico e contorno geométrico a partir de flocos de mica ampliados. Pequenos fragmentos de mica são fotografados por meio de um microscópio eletrônico e apresentados em uma escala maior que o corpo humano. A estrutura cristalina da mica é revelada como facetada, quebradiça e fraturada, termos também usados para descrever os estados humanos do ser.

O peso das cricatrizes, 2015. Cortesia da artista. © Otobong Nkanga.
Foto: Christine Clinckx – MHKA

Para o grande trabalho têxtil e fotográfico O peso das cricatrizes (2015), Nkanga incorpora temas recorrentes, da mecanização do corpo no trabalho industrial e da interdependência de pessoas e terras. O trabalho ressoa com as histórias da mineração da Cornualha e com os mineiros que levaram suas habilidades e conhecimentos para todo o mundo.

Duas figuras fragmentadas estão conectadas a uma rede de cordas e tubulações que convergem para fotografias de minas abandonadas. Seus braços são mostrados em várias posições, sugerindo o “empurrar e puxar” das relações de mudança. Devastado pela extração de conhecimento, pessoas e recursos.

As tapeçarias de Nkanga são influenciadas pelas práticas de fabricação têxtil da África Ocidental e do país onde vive, a Bélgica. Aqui, ela tece fios coloridos e fios metálicos que dão um efeito “cintilante”, característico dos minerais.

Manobras sólidas, 2015. Cortesia da artista. © Otobong Nkanga.

A série Em busca de bling (2014-16) explora o consumo humano da paisagem, revelando as transformações ocultas da mica mineral em produtos desejáveis, como cosméticos. Nkanga contrasta o valor que damos a essas mercadorias com os danos que sua extração causa às comunidades e ao meio ambiente.

Duas tapeçarias formam o elemento central do trabalho. Temas com pessoas, terras e mercadorias são continuados por meio de uma série de fotografias.

Em uma delas, Nkanga segura um pedaço de mica na frente da boca, sugerindo a interdependência entre corpo, mineral e terra: “Quando começo a pensar em minerais como algo que engolimos para fazer nosso corpo funcionar, também começo a pensar em como o corpo passa a ser composto desses minerais e, quando apodrecemos gradualmente após a morte, tornamo-nos componentes minerais novamente. Então, o gesto de engolir um comprimido ou pílula de vitamina é tão mágico, ou digamos, sobrenatural, como queremos, porque realmente estamos engolindo uma pedra.”

Em busca de Bling, 2014.
Cortesia da artista.
© Otobong Nkanga.

Durante sua visita a Tsumeb, Namíbia, Nkanga procurou a Colina Verde, um marco famoso por seus abundantes recursos de minerais raros. Em seu lugar, ela descobriu um poço abandonado atingindo profundamente o solo. Nkanga considera a mina um “monumento negativo”, uma paisagem esvaziada cujas matérias-primas foram transportadas em todo o mundo para uso em edifícios, produtos cosméticos e tecnologias.

Em Manobras Sólidas, três plataformas representam camadas geológicas com vazios e ausências, lembrando a paisagem minada da Cornualha.

Nkanga combina matérias-primas, como areia, com materiais processados, incluindo maquiagem, sal e vermiculita.

“O que poderia ser um monumento? É o que construímos ou o que retiramos? Um lugar de vazio é o monumento para nos lembrar que não há possibilidade de voltar ao que foi.”

Compartilhar:

Confira outras matérias

Matéria de capa

CLAUDIA ANDUJAR

Claudia Andujar: a luta Yanomami faz um levantamento da arte e do ativismo da fotógrafa brasileira desde os anos 1970 …

Flashback

SOPHIE TAEUBER-ARP

De julho a outubro de 2021, o Tate Modern, em Londres, apresenta a obra de Sophie Taeuber-Arp, uma das principais …

Alto relevo

FELIX GONZALEZ-TORRES

A arte de Gonzalez-Torres pode ser lida como uma crítica ao conservadorismo social, atitudes homofóbicas e um alerta sobre a …

Pelo Mundo

OSCAR MURILLO

Oscar Murillo, artista multifacetado que realiza pinturas, desenhos, esculturas, performances, vídeos, instalações e projetos colaborativos, está em exibição no Mori …

Destaque

JEAN DUBUFFET

“O normal é psicótico. Normal significa falta de imaginação, falta de criatividade”. Jean Dubuffet.

Já perceberam que alguns trabalhos de Pollock, …

Destaque

AUGUSTO DE CAMPOS

A BIBLIOTECA MARIO DE ANDRADE, A PRINCIPAL E MAIS ANTIGA DA CIDADE DE SÃO PAULO, TORNOU-SE UM ESPAÇO DE CELEBRAÇÃO …

Alto relevo

HITO STEYERL

COM SUA LINGUAGEM ÚNICA, COMBINAÇÃO DE SÁTIRA E CRÍTICA, A ALEMÃ HITO STEYERL É INTERNACIONALMENTE CONHECIDA POR SEUS DE VÍDEOS …

Garimpo

Ramonn Vieiteiz

EM CARTAZ NA COLETIVA SER VIVO, LIVRE, EU, NO GALERIA CAFÉ SÃO PAULO, O JOVEM ARTISTA DE RECIFE, RAMONN VIEITEZ, …

Pelo Mundo

Kara Walker

NO ATUAL MOMENTO DE VALORIZAÇÃO DE ARTISTAS NEGROS, A OBRA DA NORTE-AMERICANA KARA WALKER SE DESTACA POR CRITICAR A ACEITAÇÃO …

Destaque

MICHAEL ARMITAGE

CONHEÇA O ARTISTA QUENIANO MICHAEL ARMITAGE. SUAS PINTURAS COLORIDAS E ONÍRICAS ESTÃO CARREGADAS DE PERSPECTIVAS PROVOCATIVAS E NARRATIVAS QUE DESAFIAM …

Destaque

GEORG BASELITZ

MOSTRA DE GEORG BASELITZ EXIBE SEIS PINTURAS HISTÓRICAS DOADAS PELO ARTISTA AO METROPOLITAN MUSEUM OF ART. FEITAS EM 1969, ESTÃO ENTRE …

Pelo Mundo

MARTIN KIPPENBERGER

MARTIN KIPPENBERGER (1953-1997) FEZ PINTURAS, ESCULTURAS E INSTALAÇÕES QUE OFERECEM UM TOM HUMORÍSTICO, PORÉM AMARGO, SOBRE O MUNDO MODERNO E …

Flashback

Wasily Kandinsky

NOVA EXPOSIÇÃO DE KANDINSKY INCLUI UMA IMPORTANTE SELEÇÃO DE OBRAS DO PINTOR DE ORIGEM RUSSA, AUTOR DE PRODUÇÃO TARDIA, QUE …

Reflexo

Ivan Navarro

EM EXPOSIÇÃO NO FAROL SANTANDER SÃO PAULO, O ARTISTA CHILENO IVAN NAVARRO CRIA A ILUSÃO DE UMA EXPANSÃO SIGNIFICATIVA DE …

Capa

alice neel

ALICE NEEL: PEOPLE COME FIRST É A PRIMEIRA RETROSPECTIVA EM NOVA YORK DA ARTISTA AMERICANA ALICE NEEL (1900–1984) EM VINTE ANOS. ESTA …