Osgemeos e Martha Cooper, The Playground, 2016. . Foto: Cortesia dos artistas

DASARTES 95 /

OSGEMEOS: SEGREDOS

O RICO IMAGINÁRIO DOS OSGEMEOS EM SEGREDOS, SUA PRIMEIRA PANORÂMICA NA PINACOTECA, CONTRIBUI PARA A EXPANSÃO DO ENTENDIMENTO DAS RELAÇÕES ENTRE ARTE E URBANIDADE

South Bronx, 2016. Foto: Cortesia dos artistas

A megaexposição Osgemeos: segredos, com curadoria de Jochen Volz, na Pinacoteca, já desperta discussão no seu simples anúncio. Como pode o grafite estar no “museu”? E, se está dentro do museu, o que se tem: grafite ou arte contemporânea? São inquirições que recobrem outras mais complexas: o conceito muda a forma? A forma muda o conteúdo? São tantas questões! Algumas são válidas; outras se mostram como “falsas polêmicas”. Porém, quando se sabe que a programação da Pinacoteca, em 2020, está voltada às relações entre a arte e o urbano, a realização desta exposição ganha em potência.
Tido como um ato subversivo, o grafite está na vida diária das metrópoles. No final dos anos de 1960, nos guetos nova-iorquinos, o grafite foi um dos quatro elementos do hip hop, juntamente com o break dance, o rap e os MCs. No movimento de contracultura de maio de 1968, os muros viraram suportes para inscrições e desenhos políticos. Essa práxis disseminou diferentes estilos (partindo do rabisco, passando por siglas, tags e até grandes murais). Sua linguagem se associou a distintos grupos periféricos, como o hip hop, os punks, os skinheads, os anarquistas e outras facções sociopolíticas – é de todos os outsiders – reflexos da cidade e de suas contradições.
Em geral, suas imagens veiculam mensagens coloridas, irônicas e, às vezes, descompromissadas. De modo algum, seguem os cânones estéticos tradicionais e, muitas vezes, servem às reinvindicações sociais, mas, sobretudo, exigem o protagonismo sobre os códigos visuais da cidade.

Osgemeos e Martha Cooper, The Playground, 2016.
. Foto: Cortesia dos artistas

Gramophone, 2016. Foto: cortesia dos artistas

Essas imagens demonstram, ainda, diversos graus de transgressão. Elas podem dar voz aos que são silenciados na polifonia da cidade. Nesse quesito, a arte ativista encontra no grafite meio e suporte. É justamente por seu histórico rebelde que o grafite tem sido alvo de discussões nos campos artístico, patrimonial e urbano. Características como anonimato, ilegalidade e reapropriação territorial estão na arena desses debates.
Desde os anos 1980, o grafite vem sofrendo um processo de absorção pela administração pública, pelos museus e pelas galerias de arte – estas últimas entusiasmadas com a potencialidade mercadológica que esse tipo de produção tem registrado. Tudo isso vem legitimando o grafite como arte, pelo menos dentro da teoria institucional que define ser arte o que entra no circuito artístico, constituído pelos especialistas da área. De fato, o histórico do grafite é um contínuo processo de apropriação e resistência – porém, ele nunca se encaixa completamente nas convenções.

O Beijo (The Kiss), 2016. Foto: cortesia dos artistas.

Já a produção do duo formado por Otávio e Gustavo Pandolfo (São Paulo, 1974) sai das “caixinhas críticas” de uma vez. Seus objetos e intervenções, sustentados pela origem vinda do grafite, podem ser ditos como arte contemporânea. Desprovidos de regras, eles trazem uma desconcertante profusão de formas, práticas e materiais. Ao mesmo tempo, seguem a tradição do retrato, com personagens centrais envolvidos por atmosfera onírica. De certa forma, discutem relações arquitetônicas, econômicas e sociais. Suas instalações incorporam carros, barcos e bonecos gigantes, ao passo que a pintura deles alcança a grande escala. A soma desses aspectos transforma essa produção em expressão da contemporaneidade capaz de mediar relações entre o espaço urbano e seus cidadãos. Nesse ponto, a escolha da Pinacoteca em iniciar sua programação anual com a dupla é instigante.
Apontemos outro dado de contemporaneidade: diversos grafiteiros investem na organização e difusão de sua obra para além do grupo de origem – algo que Osgemeos sabem fazer muito bem. Isso porque a trajetória deles, iniciada em 1987, nas ruas do bairro paulistano do Cambuci, além de ter atingido espaços públicos de diversas cidades do mundo, também está presente em instituições, tais como Hamburger Bahnhof (Berlim, 2019), Vancouver Biennalle (Canadá, 2014), MOCA (Los Angeles, 2011), Tate Modern (Londres, 2008), entre outras. Assim, a exposição Osgemeos: segredos não é a primeira experiência dos grafiteiros em espaços de exibição da arte contemporânea.
Mas o que esta mostra traz de novo, então? À primeira vista, é uma exposição panorâmica com pinturas, instalações imersivas, sonoras, esculturas, intervenções, site specific, desenhos e cadernos de anotações do tempo de adolescência. Esses cadernos, apresentados ao público pela primeira vez, antecedem os personagens amarelos – marca inconfundível da dupla. Nessas anotações, também é possível desvelar alguns dos segredos prometidos pelo título da mostra. A dupla quer apresentar ainda, como segredos, os trabalhos que nunca foram exibidos (alguns são diferentes da produção atual e outros trazem as referências do presente). Existem criações inéditas pensadas no e para o espaço do museu e obras (em painéis e telas) que guardam a similaridade formal com as intervenções do espaço da cidade.

The layup afternoon train, 2017. Foto: Joshua White.

14th Street NY, 2017. Foto: Martha Cooper

Giants, 2014. Foto: Cortesia dos artistas.

São sete salas de exposições temporárias do primeiro andar, um dos pátios, alguns ambientes internos e externos, além de uma instalação concebida para o octógono – a ocupação dos espaços externos se assemelha ao que aconteceu na mostra Sopro, de Ernesto Neto (ocorrida em julho de 2019). E são as intervenções externas que mostram uma situação atípica para os espaços institucionais: a arte que extrapola as paredes; foge do espaço “sacralizado” e contamina a cidade. Aqui, há um verdadeiro desafio: as intervenções da dupla podem alterar o modo como a Pinacoteca se integra à paisagem urbana? A fronteira entre o “dentro” e o “fora” pode esmaecer? Ao tentar integrar o edifício da Pinacoteca à paisagem urbana, Osgemeos pretendem quebrar a preparação do espetador que suspende o tempo para entrar em outra situação: a da arte.
O espaço da arte fechado, mesmo que venha se abrindo ao grande público, não tem o poder do imaginário das ruas. Na proposta dos grafiteiros, a recompensa: o transeunte tropeça e cai na arte; é puxado para dentro. As obras e intervenções se tornam conexão entre o universo mágico d’Osgemeos, o edifício da Pinacoteca e a dinâmica do tecido urbano. Lembre-se de que os irmãos usam a cidade como inspiração e, simultaneamente, intervêm nela. Em entrevistas, já atestaram: “use a cidade ou ela lhe usará”. Assim, os reconhecidos personagens amarelos com roupas estampadas surgem entre a autorreferência, o sonho e a realidade.
Vindos da cultura hip hop, em um primeiro momento, os Osgemeos se distanciam desse grafite tradicional, quando experimentam novos materiais, signos e, especialmente, quando adotam a cultura brasileira (popular e erudita), por meio de um desenho mais orgânico. Eles ainda combinam o improviso com o lúdico, resultando em imagens de uma “cidade imaginária” que pode ser apropriada pelo espectador. Em 2006, na sua primeira individual, os irmãos transformaram o prédio da galeria em uma grande cabeça – como se o público tivesse permissão para entrar na mente dos artistas (no seu processo criativo). Lá dentro, painéis e instalações interativas revelavam o estilo próprio da dupla. Na Pinacoteca, a permissão será para conhecer os segredos deles.
A cidade e os hábitos que ela estimula compõem o fazer artístico da dupla – a arte contemporânea, então, é vista como a mediação entre o indivíduo, o coletivo e o urbano. As obras e os questionamentos retratados pela dupla revelam as pluralidades, os conflitos diversos, expressões, representações e diferentes relações com o espaço em que vivem e se manifestam. Nessa perspectiva, não há ruptura entre arte e vida, nem mesmo o museu, no caso, a Pinacoteca, pode interromper essa interatividade. Ao contrário, o edifício é cooptado.

Giant, 2016. Pirelli Hangar Biccoca, Milão, Itália. Foto: Sha Ribeiro.

São Paulo, 23 de março de 2020.
Alecsandra Matias de Oliveira.
Doutora em Artes Visuais (ECA USP)
Membro da Associação Brasileira de Crítica de Arte (ABCA)

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