Citrine by the Ounce, 2014 © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

DASARTES 97 /

LYNETTE YIADOM-BOAKYE

AS FIGURAS NAS PINTURAS DE LYNETTE YIADOM-BOAKYE NÃO SÃO PESSOAS REAIS – ELA AS CRIA A PARTIR DE IMAGENS ENCONTRADAS E DE SUA PRÓPRIA IMAGINAÇÃO. FAMILIARES E MISTERIOSAS, ELAS CONVIDAM OS ESPECTADORES A PROJETAR SUAS PRÓPRIAS INTERPRETAÇÕES E LEVANTAR QUESTÕES IMPORTANTES DE IDENTIDADE E REPRESENTAÇÃO. LYNETTE É UMA PINTORA E ESCRITORA BRITÂNICA ACLAMADA POR SEUS RETRATOS ENIGMÁTICOS DE PESSOAS FICTÍCIAS E QUE MUITAS VEZES SÃO PINTADOS DE FORMA ESPONTÂNEA E INSTINTIVA QUE PARECEM EXISTIR FORA DE UM TEMPO OU LOCAL ESPECÍFICO

Condor and the Mole, 2011. Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

O ESPELHO DA ALMA DE LYNETTE

De origem ganesa, Lynette Yiadom-Boakye (Londres, 1977) tem recebido bastante atenção de críticos e especialistas no cenário internacional. Ganhadora do Prêmio Geração Futura, da Fundação Pinchuk (2012), selecionada para o Prêmio Turner (2013), agraciada com o Prêmio Carnegie (2018), e destaque do Pavilhão de Gana, na 58ª Bienal de Veneza (2019), a moça não para por aí: além de artista, é também escritora. Procurados por colecionadores, seus trabalhos estão em diversas galerias e museus, tais como a Tate, a V&A e a Serpentine. E, agora, ela prepara sua megaexposição Lynette Yiadom-Boakye: fly in league with the night, na Tate Britain. Essa mostra reunirá cerca de 80 pinturas e trabalhos em papel, de 2003 até os dias atuais, na mais extensa pesquisa da artista até hoje – promessa dos curadores da Tate.
Com essa trajetória brilhante, a “pergunta de um milhão de libras esterlinas” é: o que há de inovador na produção de Yiadom-Brokye? A resposta pode não ser tão linear e exige a análise de diversas camadas do seu discurso estético. Quem aceitar este desafio, deve vir “trabalhado na observação” e buscar comigo por referências, especialmente em suas pinturas.

Citrine by the Ounce, 2014 © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

Complication, 2013. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

À primeira vista d’olhos, a artista apresenta figuras ficcionais e atemporais com um elenco predominantemente negro. Em entrevistas, a pintora se refere aos personagens dela como “sugestões de pessoas”. Eles não existem. Estão em outro lugar. Não têm marcas históricas. Eximem-se de narrativas. Os personagens de Complication (2013), por exemplo, são criados pela imaginação da artista. Nas pinturas, Yiadom-Brokye se apropria de um dos gêneros mais célebres da arte: o retrato (do italiano ritratto). Na história da arte, o retrato é a representação da imagem de uma pessoa. Traduz de modo penetrante o mundo que se oculta atrás de cada rosto, o seu mistério, por vezes, a sua angústia e os traços de sua existência – seria o “espelho da alma”. Nesse sentido, seus retratos estão sob a égide dessa normatização da arte ocidental.
A escolha dela pelo figurativo acentua a descrição da forma humana, dos elementos da natureza e os objetos criados pelo homem. E, alinhado aos costumes do fazer artístico, o emprego da tinta óleo – a técnica mais tradicional nas artes visuais, disseminada no século 15, por meio dos trabalhos dos irmãos Van Eyck –, é completamente dominado pela artista britânica. A paleta escura e os fundos soturnos característicos de seus trabalhos contribuem para a natureza atemporal dos seus retratos, transmitindo a sensação de quietude e melancolia.

A Passion Like No Other 2012. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

Outra convergência entre o repertório de Yiadom-Brokye e a tradição da arte ocidental é a melancolia. Os chamados “herdeiros de saturno” (Dürer, Cervantes, Shakespeare, Wateau, entre outros) transformam o humor e o mal-estar em alegoria e metáfora. Esses artistas confirmam uma “estética da melancolia”, que passa pelo ideário medieval (como um pecado capital), adentra o Renascimento (às vezes como doença; outras vezes como traço de genialidade – retomando as ideias aristotélicas), ressurge no Barroco (como o medo inexorável frente à morte), no rococó (transforma-se na “doce melancolia”) e, finalmente, torna-se a base primordial do Romantismo. A referência à “estética da melancolia” surge em trabalhos, tais como, A passion like no other (2012) e Citrine by the ounce (2014), que trazem de volta à arte contemporânea essa metáfora cara à tradição ocidental.

Tie the Temptress to the Trojan 2018.
© Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

Yiadom-Brokye não renega sua formação artística: frequentou a Faculdade de Arte e Design Central Saint Martins, a Faculdade de Artes Talmouth e a Escola da Academia Real. Ela admite as influências de Édouard Manet, Diego Velásquez e Edgard Degas em seu “fazer artístico”. Destaque-se Degas e Manet no desejo de retenção da luz e do movimento através das pinceladas soltas e rápidas. A aproximação está também na postura dos indivíduos criados por Yiadom-Brokye. O personagem de Tie the temptress to the trojan (2018) nos encara com o olhar direto e inquisidor – o mesmo que encontramos em Olympia (1863), de Manet. Diferentemente dos seus amigos impressionistas Monet, Renoir e Pisarro, Degas não saía pelos campos com cavaletes e lonas em armação portátil. Ele trabalhava com o desenho de memória, retratando figuras e animais, especialmente o corpo humano de uma forma ousada e libertadora. Nossa artista não usa modelos, seus personagens fictícios estão em sua imaginação. Como não ver as reminiscências das “bailarinas de Degas” em Condor and the mole (2011)?

Ever The Women Watchful, 2017. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye and Jack Shainman Gallery, New York.

Repose III, 2017. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye and Jack Shainman Gallery, New York.

To Improvise a Mountain, 2018. Foto: Marcus Leith. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye.

No Need of Speech 2018. Foto: Bryan Conley. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye

Até aqui fincamos alicerces nas fontes e nas referências de Yiadom-Brokye e se percebe sua adequação à tradição da arte ocidental (confesso, foi uma pequena maldade minha). Agora, apresento-lhes a desconfiança quanto a uma possível traição: os títulos enigmáticos das pinturas.
Sempre reticente, a artista não explica totalmente os nomes dados às obras. Os títulos dessas pinturas não as identificam; eles são paralelos às imagens e, assim como as figuras retratadas escolheram não descrever ou explicar. Observe o título To improvise a mountain (2018) e No need of speech (2018) – irradiam contenção e serenidade, mas não descrevem a cena que temos diante dos olhos. Eles são como índice de uma coleção de contos modernos. Não esqueça que nossa artista também é escritora. Seus contos e poemas, geralmente, estão em seus catálogos. Porém, chama a atenção o subtítulo de sua retrospectiva, Fly in league with the night – algo como “voar em aliança com a noite”, uma aliança no sentido de “conspiração com a noite” – vista como a metáfora para os mistérios, o desconhecido, as coisas obscuras; que não são claras e evidentes.
Porém, a reviravolta na pintura de Yiadom-Brokye está no registro dos rostos das mulheres e homens negros. Em termos gerais, a tradição europeia sempre forneceu à pele branca o papel de protagonista. Nossa artista trai essa tradição, quando seus retratos trazem personagens negros sem exotismo, servilismo ou coisificados. Eles são tipos humanos plenos de dignidade; centrais na pintura, eles têm alma (atributo visto como imanente à vida, ao pensamento, ao afeto e à sensibilidade). Notem que todo o repertório da história da arte ocidental é reexaminado por essa postura da artista. Ela subverte por dentro! Traz o novo, usando as tradicionais regras da arte. Toda a continuidade reforça o contemporâneo. Nesse ponto, caberia a questão: ela usa inversamente as mesmas armas de Picasso, Matisse e Braque, quando “descobriram” a expressividade, a clareza estrutural e simplicidade técnica da arte africana? Em outras palavras, ela legitima sua pintura por meio da tradição ocidental para romper e ressurgir com o “novo”?
Nos diversos depoimentos concedidos pela artista, ela não coloca a questão da representação do negro como um ato político. Em particular, na entrevista para Ulrich Obrist, no Kaleidoscope, ela nos diz: “as pessoas são tentadas a politizar o fato de eu pintar figuras negras, e a complexidade disso é uma parte essencial do trabalho. Mas meu ponto de partida é sempre a linguagem da pintura em si e como isso se relaciona com o assunto”. Em outra entrevista, ela insiste: “uma cor, uma composição, um gesto, uma direção específica da luz. Meus pontos de partida são geralmente formais”.
Intrigam as respostas de Yiadom-Boakye? Talvez, mas pensemos: se a artista está explorando o território da individualidade negra ter como “bandeira política” a centralidade do negro na arte ocidental, tão somente reproduziria o cânone branco – isso banalizaria sua pintura. Para os negros, a individualidade negra sempre existiu. Para os brancos, isso é uma questão (não para os negros!). Para a artista, seus personagens fictícios são negros porque representam seu universo – eles também podem ser vistos como personagens literários. São estudos de caráter de pessoas que não existem. A tela se converte em texto; a figura, o protagonista.

Cream Taste, 2013.
© Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye and Jack
Shainman Gallery, New York.

In Lieu Of Keen Virtue (2017).

A Cage For The Love, 2017. À direita: The Hours Behind You, 2011. © Courtesy of Lynette Yiadom-Boakye and Jack Shainman Gallery, New York.

Nessa prática romancista, a artista deixa espaço à interpretação do público. Ela admite que esteja preocupada mais com a pintura e menos com o assunto. Surge, assim, o conhecido e falso embate existente entre artista e público, ou, ainda, o desequilíbrio entre forma e conteúdo. Insistir no domínio de um ou outro é ação que regressa de tempos em tempos e, de modo geral, tem o efeito colateral de revitalizar a prática artística da época, reprimindo o que se torna familiar demais ou defendendo o novo ou o anteriormente ignorado.
Depois disso tudo, o que lhe parece? À primeira vista, a leitura das pinturas de Lynette Yiadom-Boakye parece tranquila, mas as camadas de interpretações, os índices e as referências trazem a intensidade do contemporâneo – um tempo que não rompe com tradições, mas as subvertem; que se preocupa com a forma, mas é sempre perseguido pelo conteúdo; que nega (ou coloca) o político em segundo plano, mas que não pode descartá-lo. Assim, segue o “espelho da alma” do artista mostrando os dilemas e as contradições do nosso tempo.

Alecsandra Matias de Oliveira
é doutora em Artes Visuais
(ECA USP), membro da
Associação Brasileira de
Crítica de Arte (ABCA).

 

LYNETTE YIADOM-BOAKYE •
FLY IN LEAGUE WITH THE NIGHT •
TATE BRITAIN • REINO UNIDO •
20/5 A 31/8/2020

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