Pelican (Stag), 2003. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

DASARTES 95 /

NICOLAES MAES

COM DESTAQUE PARA A SÉRIE DE PINTURAS DE GÊNERO QUE RETRATAM OS BISBILHOTEIROS DA ÉPOCA, CONHEÇA A OBRA DO PINTOR HOLANDÊS DA IDADE DO OURO, NICOLAES MAES, UM APLICADO ALUNO DE REMBRANDT.

The Eavesdropper, 1655. © Guildhall Art Gallery, City of London.

Nicolaes Maes foi um dos pintores de gênero mais criativos de sua época. Suas experiências com o espaço interior e a intimidade incomum das cenas domésticas influenciaram muitos de seus contemporâneos, incluindo Pieter de Hooch e Johannes Vermeer. Enquanto seu domínio magistral da luz e da sombra decorreu de seu aprendizado com Rembrandt, sua nova abordagem à pintura de gênero era apenas sua.
Nascido em Dordrecht, onde ele pode ter treinado com um mestre local, Maes foi para Amsterdã no final da década de 1640 para estudar no estúdio de Rembrandt. Em 1653, ele retornou a Dordrecht, onde viveu e trabalhou pelos próximos 20 anos. Maes voltou para Amsterdã em 1673, onde permaneceu pelo resto da vida.
Um dos pupilos mais talentosos de Rembrandt, Maes inicialmente pintava cenas bíblicas no estilo de seu mestre. Contudo, a demanda da protestante República Holandesa para pinturas religiosas era limitada e ele rapidamente voltou sua atenção para cenas do cotidiano ou pinturas de gênero, que eram populares entre as recém-enriquecidas classes mercantis. Para se destacar em um mercado competitivo, Maes desenvolveu um estilo distinto e uma abordagem inovadora nesses temas.

Pelican (Stag), 2003. © Peter Doig. All rights reserved, DACS & JASPAR 2020 C3120.

Sacrifice of Isaac, 1653. © Agnes Etherington Art Centre, Queen’s University, Kingston, Canada / Foto: Bernard Clark.

Durante sua longa carreira, o trabalho de Maes passou por algumas dramáticas mudanças estilísticas – das tonalidades escuras de seus primeiros trabalhos às pinturas de gênero mais leves e refinadas e às brilhantes cores e sofisticação de seus retratos comissionados.

PINTURA HISTÓRICA

Quando Nicolaes foi para Amsterdã estudar pintura com Rembrandt, aprendeu a pintar “histórias”, principalmente histórias da Bíblia ou mitologia, considerados os temas mais distintos e ambiciosos que um pintor poderia enfrentar. Somadas às cenas abrangentes da vida cotidiana, naturezas mortas, interiores e paisagens, davam aos alunos um treinamento completo.
Copiar as composições de Rembrandt foi parte essencial desse treinamento, e algumas de suas primeiras pinturas seguem o exemplo de seu mestre. Mas Maes rapidamente desenvolveu seu próprio estilo, introduzindo tonalidades mais claras, e optou por representar momentos diferentes em uma história para criar sua própria versão.
Cenas da vida cotidiana também foram retratadas no estúdio de Rembrandt, e muitos dos desenhos do mestre e gravuras tratam desse tema. Maes passou a fundir as duas categorias, incorporando as invenções pictóricas e os dispositivos estilísticos das pinturas históricas de Rembrandt em suas primeiras pinturas de gênero.
A primeira pintura totalmente assinada e datada de Maes (Demissão de Hagar e Ismael, 1653) conta a história bíblica de Hagar, empregada de Sarah, esposa de Abraão, que gerou seu primeiro filho, Ismael. Depois que a idosa Sarah milagrosamente deu à luz um filho, Hagar e Ismael foram banidos por insistência de Sarah. A composição de Maes lembra uma gravura de Rembrandt, mas, concentrando-se na emoção contida na despedida do casal, o jovem artista criou sua própria interpretação desse tema popular.

Dismissal of Hagar and Ishmael,
1653. © The Metropolitan
Museum of Art, New York.

Sacrifício de Isaac (c. 1653-54) é claramente uma influência da pintura de Rembrandt de mesmo título, de 1635. Mostra Abraão sendo posto à prova final quando Deus ordena que ele sacrifique seu único filho, Isaac. Abraão obedientemente se preparou para executar o comando, ainda não ciente do anjo descendente que interviria. Rembrandt ensinou seus alunos a capturar o momento mais crítico de uma história – Abraão está prestes a sacar sua faca antes de ser impedido.

PINTURAS DE GÊNERO

Mulheres – jovens e velhas, ricas e pobres – desempenham o papel principal em quase todas as cenas de gênero de Maes. Muitas delas realizam tarefas comuns e tarefas domésticas, refletindo as percepções e os estereótipos contemporâneos das mulheres na sociedade e na esfera doméstica. Algumas pinturas parecem abrigar uma mensagem moralizadora, mas com um toque de humor para dar um tom alegre.
A contribuição mais marcante de Maes para a pintura de gênero é sua série altamente original de bisbilhoteiros. Seu apelo reside na maneira direta em que o bisbilhoteiro se dirige ao espectador, e na intrincada interação entre as cenas principais e secundárias dentro da mesma pintura.

Young Woman Sewing, 1665. © St. Louis Art Museum

The Account Keeper, 1656. © St. Louis Art Museum.

The Listening Housewife (The Eavesdropper), 1655. © Her Majesty Queen Elizabeth II 2020.

O interior relativamente simples sugere que A dona de casa ouvindo (1655) é uma das primeiras da série Bisbilhoteiros, de Maes. Ele fez seis pinturas com uma única figura espionando um incidente ocorrido em uma sala em um nível diferente da casa. A figura principal envolve o espectador com um olhar direto, tornando-nos cúmplices no ato de escutar. Aqui, os amantes no porão são surpreendidos por um velho com uma lâmpada.
Em Bisbilhoteira (c. 1656), uma porta aberta bloqueia a visão de uma dona de casa ouvindo na escada, enquanto nos revela o encontro erótico que ocorre nos fundos da casa. Uma criada é distraída de seus deveres de cuidar de crianças por seu amante, inclinando-se através de uma janela aberta. Podemos ver o que a bisbilhoteira, sorrindo e pedindo silêncio, só pode ouvir. Como consequência, não temos escolha a não ser nos tornarmos parte de um vínculo conspiratório.
Uma mulher sorri para nós, ironicamente, enquanto mexe no bolso do homem dormindo sentado à mesa em Homem dormindo tendo seu bolso mexido (c.1656). Usando o mesmo gesto dos bisbilhoteiros de outras pinturas de Maes, ela pede que sejamos cúmplices. Essa mulher não é uma ladra comum, mas possivelmente a amante ou outro membro da família. Seu roubo serve como um aviso: a excessiva indulgência do homem – claramente o consumo de álcool e tabaco provocou seu sono – terá consequências negativas.

The Eavesdropper, 1656. © Historic England Photo Library.

Sleeping Man having his Pockets
Picked about, 1656. © 2019 Museum of Fine
Arts, Boston.

Portrait of Margaretha
de Geer (1583-1672), 1669. © Dordrechts
Museum.

RETRATOS

Pouco antes de 1660, Maes abandonou as cenas domésticas íntimas pelas quais é mais conhecido hoje e passou a se dedicar exclusivamente à lucrativa pintura de retratos pelo resto de sua longa carreira. O artista mudou seu estilo tão radicalmente que seu trabalho tardio tem pouco em comum com suas pinturas de gênero da década de 1650, e menos ainda com o caráter escuro de seus primeiros trabalhos.
O primeiro biógrafo de Maes, Arnold Houbraken, observou que “as jovens mulheres preferiam o branco ao marrom” em seus retratos. O artista desenvolveu um estilo de retrato mais colorido e elegante, refletindo uma tendência internacional de estilo e refinamento, derivada do trabalho de Anthony van Dyck, bem como do retrato francês.
Composições, poses, roupas e acessórios padronizados permitiram a Maes aumentar sua produção e lidar com a alta demanda. Como um dos retratistas de maior sucesso de sua época, em 1693, aos 59 anos, Maes morreu um homem rico, tendo pintado cerca de 900 retratos.

Two Women at a Window, 1656. © Dordrechts Museum

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

MICKALENE THOMAS

O lugar central do meu trabalho e da minha arte é um espaço de amor.
Mickalene Thomas

A obra de Mickalene Thomas …

Do mundo

PAUL MCCARTHY

Há um filme italiano de 1975 cujo título poderia se situar como um ponto de partida para analisar a produção …

Reflexo

GILBERTO SALVADOR

VIU

É um trabalho da década de 1960, momento em que o país vivia uma forte censura em todas as áreas …

Resenha

SONIA GOMES

Ao inaugurar paradigma na historiografia da arte europeia que se consolidaria a partir do século 18, Johann Joachim Winckelmann estabeleceu …

Do mundo

WIFREDO LAM

A obra de Wifredo Lam ampliou os horizontes do modernismo, criando um espaço significativo para a complexidade e a beleza …

Destaque

RUTH ASAWA

Ao desafiar distinções entre abstração e representação, figura e fundo, espaço negativo e positivo, a obra de Ruth Asawa (1926–2013) …

Reflexo

Carlos Garaicoa

Toda utopía pasa por la barriga, 2024

“Toda utopía pasa por la barriga é uma instalação na qual trabalhei de 2008 …

Reflexo

MAHKU

Por Bane Huni Kuin
 

NA HENEWAKAMÊ

NA HENEWAKAMÊ representa a música da nixi pae (ayawasca). Para mim, ela é importante, pois representa …

Reflexo

MARILÁ DARDOT

O livro de areia

“Quando eu era estudante de artes na Escola Guignard, a Piti (Maria Angélica Melendi) nos deu como …

Panorama

BEATRIZ GONZALEZ

A artista colombiana Beatriz Gonzalez nasceu em Bucaramanga, Colômbia, em 1938. Iniciou seus estudos em arquitetura, mas os abandonou para …

Destaque

KERRY JAMES MARSHALL

A prática de Kerry James Marshall é fundamentada em um profundo envolvimento com as histórias da arte. Ele reimagina e …

Do mundo

KIRCHNER

KIRCHNER X KIRCHNER: COLORIDO, POTENTE, PIONEIRO

Quando Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) emigrou para a Suíça, em 1917, encontrava-se em má condição …

Capa

ÉDOUARD MANET

ÉDOUARD MANET: O REBELDE ELEGANTE QUE REINVENTOU A PINTURA MODERNA

Édouard Manet (1832-1883) foi, antes de tudo, um homem de Paris …

Reflexo

ANDRÉ GRIFFO

Sala dos provedores, 2018
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de …

Garimpo

FELIPPE MORAES

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a …