Fragmentos IV, 2011

DASARTES 36 /

Nelson Leirner

Desde os anos 1960, evoco a (talvez desgastada) fórmula do problema da aura na obra de arte, de sua reprodução e sua condição de mercadoria. Assim, este texto mesmo seria mais uma cópia desses argumentos e, em alguma medida, pode servir para um espectador mais ou menos atento se apoiar em uma explicação pronta para […]

Desde os anos 1960, evoco a (talvez desgastada) fórmula do problema da aura na obra de arte, de sua reprodução e sua condição de mercadoria. Assim, este texto mesmo seria mais uma cópia desses argumentos e, em alguma medida, pode servir para um espectador mais ou menos atento se apoiar em uma explicação pronta para refletir que a obra é uma crítica à arte, ou, se quiser e até melhor, a uma condição política da arte. Sou um crítico, isso está em todos os textos produzidos a meu respeito. A questão que quero ver aqui é a mesma, porém, ao mesmo tempo, outra: por que cada Mickey, cada Mapa, cada Santa Ceia e, portanto, cada exposição, embutem uma espécie de reversão de uma contraexpectativa sobre a crítica à economia política da obra do próprio artista: isto é, crítica a si mesmo, autodeboche?

Sem título de série Assim é se lhe parece, 2003-2011

A citação esteve presente de diversos modos em minha obra. Javacheff Christo, em exposição-happening na FAU; Lucio Fontana e seu ataque à superfície da tela, no industrial “homenagem a Fontana”, série talvez mais reconhecida; Duchamp em inúmeros trabalhos; e, claro, as incontáveis recolocações de Da Vinci, que finalmente aproximam do sentido mais popular, proletário, de apropriação da arte, como objeto de decoração que repõe nas cabeceiras das mesas populares a reverência a Cristo e aos Apóstolos ou ao congelamento de um fruteiro em uma natureza morta qualquer. E tudo isso ainda, por fim, embaralhando o gesso produzido em casas de artefatos religiosos ou decalques de Disney e santinhos ao conjunto da obra, o que, por fim, nos remete a uma incontável série de loops de citações sobre si mesmas, de obras que se autoexpõem (no sentido de que aplicam, mas expõem também um risco, o da autodepreciação calculada).

 

 

Homenagem a Mondrian III, 2010 – Ed. 3

Esse movimento nos põe a possibilidade de pensar sobre uma política da arte que vai recolocar o sentido benjaminiano da mercadoria. Não se trata de uma busca da originalidade, objeto-conceito de um sem-número de artistas que fazem produção limitada e estabelecem seu preço em um jogo que envolve escassez, circulação, política com galeristas, propaganda, etc. Por que estou dizendo isso? Porque, no limite, um banco japonês que tranca um Van Gogh de 100 milhões de dólares em um cofre, representa a ponta, talvez oposta, mas ainda contínua, do mesmo fio da família Silva, que põe uma reprodução emoldurada da Monalisa de R$ 20,00 em sua sala de jantar. Trata-se da posse de algo que está em um jogo, ainda que os prognósticos apontem que o primeiro chegue a dobrar de preço em dez anos e a segunda acabe valendo R$ 3,00 em um brechó. Mas é claro que isso é uma simplificação do problema, que estou evocando só para voltar à questão da cópia e seu efeito sobre essa política da arte, ou melhor, de um nível da arte que pretende ser apolítico, mas sabemos que não é. Não é e talvez nunca foi.

Biblioteca, da série Era Uma Vez, 2004

Sabemos bem da capacidade do “sistema” (essa palavra odiável, que usamos quando não temos capacidade de definir/agenciar algo) em capturar vetores de fuga, artistas marginais, etc., e, do meu ponto de vista, não é à toa que procuro estabelecer suas dobras a partir “de dentro”: arte industrial, múltiplo, série, Walt Disney, Roberto Cardos, Da Vinci, Corinthians, etc. Claro que isso tem consequências: uma produção incansável, uma capacidade absurda de ter que criar o tempo todo. Esse é um preço que tenho que pagar. O artista como escravo da produção. Por isso, nesse momento chegando quase aos 83 anos, meu futuro é incerto.

Missa móvel, 2008

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