Popular music scores 1928-32

DASARTES 96 /

MODERNISMO JAPONÊS

DURANTE A PRIMEIRA METADE DO SÉCULO 20, A ARTE E A ESTÉTICA TRADICIONAIS DO JAPÃO INTERAGIRAM COM A VIDA E A CULTURA EUROPEIAS, RESULTANDO EM UMA ERA PULSANTE DO MODERNISMO JAPONÊS E NO SURGIMENTO DE UM MOVIMENTO ART DÉCO NA ARQUITETURA, PINTURAS, GRAVURAS, DESIGN E MODA ASIÁTICOS. CONHEÇA GRANDES OBRAS DE JOVENS ARTISTAS FEMININAS DA ÉPOCA E RARAS PINTURAS EM GRANDE ESCALA DE JOVENS ARTISTAS JAPONESES, IMPRESSÕES MODERNISTAS EM CORES PRODUZIDAS COM AS TÉCNICAS REFINADAS DO UKIYO-E TRADICIONAL E TAMBÉM A MODA DA ÉPOCA E ACESSÓRIOS RELACIONADOS.

Saeki Shunko, Tea and coffee salon 1939.

MODERNISMO JAPONÊS: ENTRE TERREMOTO E GUERRA

Glamourosas lojas de departamento, cafés da moda, cinemas populares, salões de dança e transporte de alta tecnologia. Durante as décadas de 1920 e 1930, as grandes metrópoles do Japão, Tóquio e Osaka, pulsavam com otimismo juvenil e energia criativa. Uma nova geração de jovens confiantes e financeiramente bem-sucedidos desafiou as visões conservadoras e se encarregou de abalar as bases da sociedade, escolhendo deu próprio estilo de vida. Trabalhe de dia, dance até de madrugada e tire férias nas praias no verão e nas pistas de esqui no inverno. Essa nova geração, divertidamente conhecida como moga e mobo – meninas modernas e meninos modernos – representaram a chegada da modernidade à Ásia e, por sua vez, tornaram-se a inspiração, ícones do dinamismo por trás de um movimento criativo que energizou a produção têxtil japonesa, pintura, gravura e artesanato em bronze, laca e vidro no início do século 20.
Semelhante à história da nação cheia de desastres naturais e restaurações ambiciosas, a era modernista do Japão é dramaticamente marcada pela destruição gerada pelo terremoto de Great Kantō (1923) e pelas calamidades da Guerra do Pacífico (1942–1945). Às 11 h 58 min de 1º de setembro de 1923, o maior terremoto da era moderna de Tóquio atingiu uma magnitude de 7,9. O que não foi destruído pelo terremoto foi logo envolvido pelos incêndios que assolaram a cidade. Tóquio e Yokohama foram arrasadas pelo sismo e suas consequências, resultando em estimadas 140 mil mortes e 700 mil pessoas desabrigadas.

Popular music scores 1928-32

A reconstrução de Tóquio e sua celebração da modernidade foram sintetizadas pela abertura do primeiro metrô na Ásia em 1927. Consistia em quatro estações e ligava o parque recreativo e o zoológico de Ueno a um dos grandes templos, às lojas e às margens do rio Asakusa. A novidade futurista de andar de metrô era tão popular que os passageiros ficaram na fila por mais de duas horas para fazer a curta viagem de cinco minutos. Sugiura Hisui, a principal designer gráfica da época, criou um icônico cartaz de 1927 que afirma orgulhosamente em fontes modernas: “O único metrô do Oriente” e “Serviço entre Ueno e Asakusa já começou”. Usando uma perspectiva dramática de ponto decrescente, Sugiura cria uma sensação de chegada com o trem se aproximando de uma plataforma da estação repleta de viajantes ansiosos, vestidos com suas melhores roupas. Aludindo ao passado, várias mulheres a distância podem ser vistas vestindo quimono com penteados tradicionais. Em primeiro plano, uma garota segura um ursinho de pelúcia, apontando para a chegada do trem, e um animado grupo de homens, mulheres e crianças se vestem de maneira requintada, pois está prestes a ser transportado para o futuro nesse novo modo de transporte.

Sugiura Hisui, The first subway in Asia 1927. © Estate of Hisui Sugiura

Com a qualidade aprimorada e as amplas possibilidades de distribuição da impressão mecanizada em cores, designers gráficos, ilustradores e fotógrafos se viram na vanguarda da estética visual e das tendências sociais. Músicas ecoando de gramofones em cafés e tocando em cinemas populares formaram a trilha sonora da vida cotidiana moderna. Partituras musicais compostas para os instrumentos boêmios da geração jovem, a gaita e o ukulele, foram produzidas por empresas como a subsidiária japonesa da Victor Talking Machine Company e o estúdio de cinema japonês Shochiku.

Popular music scores 1928-32

Popular music scores 1928-32

Os principais movimentos artísticos de vanguarda predominantes na Europa na época – Fauvismo, Cubismo, Suprematismo e Futurismo – estavam influenciando designers e ilustradores japoneses e resultaram em um novo estilo de arte e design híbrido do Leste-Oeste, que não era atraente apena para jovens adultos, mas também para crianças. Na vanguarda da ilustração japonesa progressiva, estava a revista infantil Kodomo no kuni (Terra das Crianças). Artistas renomados, como Takei Takeo, Okamoto Kiichi e Honda Shotarō, contribuíam regularmente com trabalhos inovadores, que combinavam formas geométricas ousadas com brincadeiras com sombras, exibindo crianças da última moda contra temas florais tradicionais e empregando perspectivas de ponto decrescente para efeitos dinâmicos. Publicado no ano seguinte à abertura do primeiro metrô de Tóquio, a ilustração de capa pelo artista Takei com crianças andando de trem ou bonde à luz de velas teria atraído a próxima geração de mentes aventureiras e criativas do Japão.

A photo guide to Rankyo 1927–35.

MOGA: A MENINA MODERNA

O coração e a alma do Modernismo Japonês eram a moga (menina moderna) e o seu homólogo masculino, o mobo (menino moderno). Uma crescente aceitação das mulheres no local de trabalho, combinada a uma nova cultura de consumo, modos modernos de transporte e atividades de recreação, criaram novos empregos para os quais as mulheres eram vistas como mais socialmente equipadas do que os homens. Atraentes e bem vestidas, mulheres inteligentes de uniforme operavam elevadores em lojas de departamento, cumprimentavam clientes em restaurantes, cafés e casas de chá, trabalhavam como condutoras em ônibus e transformavam a experiência de visitar um posto de gasolina, servindo como “garotas de gasolina” enchendo carros com combustível e lavando para-brisas.
Essas jovens modernas eram consideradas uma das primeiras gerações de mulheres na Ásia a se libertar dos papéis tradicionais. Antes disso, uma mulher solteira ficava com sua família e ajudava nas tarefas domésticas ou, no caso das famílias rurais, realizava trabalhos agrícolas. As oportunidades de emprego e carreira que a vida moderna da cidade oferecia atraíram muitas jovens a deixar suas casas em áreas remotas e seguir para a cidade. Encontrar trabalho e ganhar uma renda pessoal – por mais baixa que fosse – dava a elas os meios para alugar um apartamento pequeno, viver sozinhas e tomar suas próprias decisões. Mantendo empregos regulares durante o dia, essas mulheres independentes e autodidatas poderiam conduzir suas vidas como quisessem. Bebendo, fumando e escolhendo seus próprios amigos, elas frequentavam cafés e danceterias, geralmente festejando até tarde.

Negishi Ayako, Waiting for makeup, 1938.

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Embora algumas moças modernas tenham sido vistas por alguns como um risco aos valores conservadores tradicionais, elas se tornaram uma parte importante da nova economia japonesa, não apenas como trabalhadoras, mas também como consumidoras ativas de produtos, serviços e entretenimento nunca antes associados à imagem de uma jovem japonesa. Como consumidoras, uma atividade favorita e símbolo de independência da moga era escolher, comprar e usar suas próprias roupas e acessórios, em vez de usar aqueles que os pais considerassem adequados. A saída mais fácil da tradição foi usar roupas de estilo ocidental. No entanto, com um forte sentimento pela cultura japonesa, muitas mogas buscavam novos estilos para o obi – a faixa na cintura do quimono –, com padrões vibrantes, combinando-os com uma seleção pessoal de acessórios de inspiração ocidental e oriental, para criar novos estilos de moda que seus pais considerariam inimagináveis. Bolsas de mão com alças, cestas de piquenique, grampos de cabelo de baquelite, guarda-sóis, bandanas e chapéus de palha, combinados com quimono e obi com desenhos geométricos arrojados e coloridos, garantiam olhares e anunciavam com confiança, em termos inequívocos, seu recém-alcançado status social.

MOBO: O MENINO MODERNO

Semelhante à aparência exterior digna de um homem japonês, sem qualquer indicação de sua personalidade interior, o traje exterior do mobo – menino moderno – era um quimono simples, sombrio, simplesmente adornado com pequenos mon (emblemas familiares). Certos aspectos da personalidade e dos interesses de um mobo, no entanto, poderiam ser revelados por meio de vislumbres dos desenhos apresentados em seu nagajyuban (roupa de baixo do quimono longo) e haura (entrelaçamento de um haori; o revestimento externo usado sobre um quimono). Nagajyuban era frequentemente coberto de estampas animadas, conhecidas como omoshirogara (desenhos interessantes ou divertidos) representando carros, barcos e aviões, discos de vinil e personagens de quadrinhos, ou até a última moda do esporte, como tênis, golfe e atletismo. Da mesma forma, os casacos haori eram escuros e lisos por fora, mas escondiam ilustrações sofisticadas no haura. Estes seriam revelados durante o momento apropriado em uma festa, ou talvez em encontros pessoais informais.
Os designs populares de haura incluíam jogadores de beisebol, motivos adaptados da crescente indústria cinematográfica, de viagens e da literatura, ou imagens patrióticas que celebravam as recentes façanhas e ambições militaristas do Japão. Um formato popular de design era dividir dramaticamente a composição na diagonal para contrastar cenas do Japão tradicional e moderno. Uma cena de viajantes percorrendo a Old Tokaidō Road justaposta a uma locomotiva moderna que faz a mesma viagem em alta velocidade entre Kyoto e Tóquio, ou samurais galopando a cavalo ao lado de guerreiros contemporâneos em tanques modernos correndo pelo campo de batalha, ou mesmo uma cena nostálgica dos viajantes de um dia acampando no sopé do monte Fuji se justapõem a uma paisagem urbana que celebra a modernidade do Japão, com biplanos voando sobre o horizonte idealizado de uma Tóquio de arranha-céus, inspirado em Nova York.
Durante a segunda metade da década de 1930, o liberalismo social, estilos de vida livres e a criatividade abundante das metrópoles modernas do Japão foram gradualmente substituídos pela ambição militar e pelo nacionalismo, que levaram a ideologias conservadoras no governo e campanhas de austeridade social. Assim como o modernismo nasceu da tragédia do terremoto do Grande Kantō, de 1923, apenas duas décadas depois, ele chegou a um fim calamitoso com os bombardeios aliado das principais cidades do Japão, do outono de 1944 ao verão de 1945. Fotografias tocantes do centro de Tóquio, em 1923 e 1945, exibem cenas apocalípticas de devastação. Foi uma tragédia da qual o país não se recuperou até os Jogos Olímpicos de Tóquio, de 1964, e a Expo Mundial de Osaka, de 1970. Ambos foram eventos marcantes que deram início à segunda ascensão criativa e econômica do Japão da era moderna.

Giant, 2016. Pirelli Hangar Biccoca, Milão, Itália. Foto: Sha Ribeiro.

Wayne Crothers é curador
Sênior de Arte Asiática na
National Gallery of Victoria

JAPANESE MODERNISM •
NATIONAL GALLERY OF VICTORIA •
MELBOURNE • 28/2 A 4/10/2020

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