O lugar central do meu trabalho e da minha arte é um espaço de amor.
Mickalene Thomas
A obra de Mickalene Thomas (1971, Nova Jersey) está enraizada em um longo estudo da história da arte e do retrato clássico, cujos códigos ela reinventa por meio de uma poderosa estética queer e do erotismo negro. Frequentemente monumentais, suas composições, que combinam pintura, fotografia, colagem, vídeo e instalação, desafiam conceitos tradicionais de beleza, sexualidade e feminilidade, ao mesmo tempo em que celebram sua diversidade e pluralidade. O conceito de amor como meio de emancipação e afirmação está no centro dessa reflexão.

I Can’t See Me Without You, 2007. © Mickalene Thomas.

November 1950, 2021. © Mickalene Thomas.
A exposição All About Love é uma celebração da arte de Mickalene Thomas como uma exploração do amor, do lazer e da alegria. O título é inspirado no livro All About Love: New Visions (1999), no qual a autora feminista Bell Hooks enfatiza a importância de experimentar o amor em todas as suas formas e como “o amor que construímos em comunidade permanece conosco onde quer que estejamos”.
O conjunto de obras desta exposição reflete, sobretudo, esse amor pela identidade negra radical. Toda a sua produção é dedicada à celebração das mulheres negras e à sua aspiração individual e coletiva de ocupar um espaço social e artístico, um acesso que ainda lhes é frequentemente negado. As obras de Mickalene Thomas retratam sua mãe, ex-parceiras, amigas e cantoras e escritoras que admira, convidando o público a entrar intimamente em seu universo pessoal.
Por meio da fotografia, da colagem, do vídeo ou da pintura, enriquecidas com esmalte e strass, a artista capta toda a força, sensibilidade e sensualidade das modelos que nos encaram com confiança. Seus retratos, ampliados por composições vibrantes e ricamente texturizadas, apresentam mulheres negras em espaços domésticos ou paisagens que se abandonam ao descanso e ao lazer, afirmando com contundência seu direito ao prazer, ao desejo e à autoexpressão. Ao fazê-lo, ela reivindica a figura da musa e a reposiciona, subvertendo dinâmicas tradicionais de poder.

Clarivel Face Forward Gazing, 2024. © Mickalene Thomas.
Essa investigação está enraizada na releitura que Mickalene Thomas faz de momentos emblemáticos da história da arte europeia, especialmente francesa, onde as mulheres geralmente são moldadas pelo pintor e oferecidas ao seu olhar. Uma seção inteira da exposição é dedicada a esse aspecto essencial de sua obra, em que as mulheres se libertam dessa posição e ocupam o primeiro plano de composições consagradas, como Le Déjeuner sur l’herbe (1863), de Édouard Manet, ou La Grande Odalisque (1814), de Jean-Auguste-Dominique Ingres. Os grandes temas da pintura, das paisagens às cenas de interior, tornam-se espaço para expressar a potência do amor e o erotismo feminino.
AFRO GODDESSES
“Meu trabalho está enraizado na autodescoberta, celebração, alegria, sensualidade e na necessidade de ver imagens positivas de mulheres negras no mundo.”
Mickalene Thomas

Clarivel Centered, 2013. © Mickalene Thomas.
As mulheres retratadas nas pinturas de Mickalene Thomas são musas vindas de seu círculo de amigas, familiares, parceiras e modelos. A artista frequentemente trabalha com as mesmas mulheres ao longo de vários anos, criando diferentes obras. Segundo ela, suas musas são indivíduos profundamente conectados com sua própria beleza, irradiando simultaneamente ousadia e vulnerabilidade. O autorretrato também é central em sua produção, como em Afro Goddess looking forward, no qual a artista encarna sua própria musa.
O processo criativo começa com fotografias produzidas em cenários construídos sob medida em seu estúdio no Brooklyn. Essas imagens servem de base para pinturas em óleo, acrílica e esmalte, incrustadas com strass multicoloridos brilhantes. Desde o início, ainda como estudante, esses materiais seduziram a artista – alternativa acessível à tinta a óleo – e se tornaram rapidamente sua assinatura. Essa arte do ornamento, a serviço do glamour de suas musas, ecoa jogos de máscara, sobreposição e artifício, além da valorização da beleza presentes em suas pinturas. Criadas no contexto cultural específico dos Estados Unidos, as obras estabelecem diálogo deliberado com a história da arte ocidental, apropriando-se de poses e composições arquetípicas. Ao mesmo tempo, subvertem uma tradição dominada pelo olhar masculino, reivindicando espaço para que mulheres negras ocupem o centro da cena.
FOTOGRAFIA

Déjeuner sur l’herbe: Three Black Women, 2010. © Mickalene Thomas.
Desde o início de sua carreira, Mickalene Thomas desenvolveu um estilo particular de retrato fotográfico. Inspirada por artistas como os fotógrafos malineses Seydou Keïta e Malick Sidibé, ela cria cenários que lembram espaços domésticos, nos quais suas modelos podem habitar e florescer.
Sob sua lente, as modelos posam com roupas escolhidas ou criadas pela artista, como em Déjeuner sur l’herbe: três mulheres negras. Mickalene Thomas mantém uma relação íntima com a moda, sobretudo por meio de sua mãe, Sandra Bush, ex-modelo, presente em duas fotografias. Para Thomas, vestir-se é um gesto radical de autoafirmação. As roupas das modelos incorporam o estilo “super-fly” dos anos 1970, período posterior ao movimento dos direitos civis em que a comunidade negra norte-americana adotou roupas coloridas e estampadas como forma de empoderamento.
Mickalene Thomas cria também um arquivo fotográfico próprio: diante de uma narrativa dominante que apagou ou instrumentalizou a imagem de pessoas negras, ela retoma o controle de sua narrativa visual. Inicialmente, essas fotografias serviam como referência para suas pinturas, mas com o tempo passaram a ser consideradas obras autônomas, ao lado de colagens que demonstram a amplitude de sua produção. Entre os retratados estão sua mãe, a cantora Solange Knowles e a artista e amiga Carrie Mae Weems.
ÍCONES

A Moment’s Pleasure #2 2008. © Mickalene Thomas.
O trabalho de Mickalene Thomas também se enraíza na cultura popular, com referências ao cinema, à música e à televisão. A artista cresceu nos Estados Unidos entre as décadas de 1970 e 1980, no auge do movimento Black is Beautiful, que contestava padrões estéticos brancos e promovia a beleza negra.
Nas telas, no rádio e nas revistas, mulheres negras encontraram espaço para se reconhecer e se admirar. A artista dedica algumas obras a figuras icônicas da cultura afro-americana que marcaram a história, como as atrizes Whoopi Goldberg e Diahann Carroll, a modelo Naomi Sims e a cantora Eartha Kitt, cuja voz rouca ecoa nos vídeos Angelitos Negros e Me as Muse.
Esses ícones, cujas trajetórias foram marcadas pela ruptura de barreiras em indústrias dominadas por racismo e sexismo, oferecem à artista uma definição de beleza que ultrapassa a aparência e incorpora ativismo e perseverança. Seus rostos impressos em espelhos devolvem nosso próprio olhar, criando uma relação baseada em reconhecimento mútuo.
ODALISCA

A Little Taste Outside of Love, 2007. Tan n’ Terrific’s, 2024. © Mickalene Thomas.

Sem título.
O estudo da história da arte e do retrato clássico está no centro do trabalho de Mickalene Thomas. A arte – especialmente a pintura tradicional – foi usada por culturas dominantes para promover elites e perpetuar estruturas de poder. A artista utiliza sua prática como forma de resistência à exclusão das mulheres negras dessa história, bem como à sua redução a figuras de servidão ou entretenimento.
Em suas pinturas, ela subverte a representação canônica do nu na história da arte ocidental, deslocando a mulher branca do leito onde frequentemente aparece acompanhada por uma serva negra. Em obras como Tan n’ Terrific’s e A Little Taste Outside of Love, são mulheres negras que repousam sozinhas entre tecidos e joias, distantes de qualquer postura servil.
Embora algumas adotem poses lascivas, estão longe da passividade. Representadas com conforto e confiança, as musas de Mickalene Thomas desafiam estereótipos racistas e misóginos e assumem o papel de figuras míticas e sensuais. A escala monumental das telas e o olhar direto das modelos estabelecem uma relação baseada no respeito.
“Eles têm todo o poder necessário para exigir que o espectador as encontre em seu próprio espaço.” – Mickalene Thomas
COLAGEM

Sleep: Deux femmes noires, 2012. © Mickalene Thomas.
A colagem é elemento central na prática de Mickalene Thomas, desde a sobreposição de tecidos até o uso do papier collé. A artista dialoga com referências como Romare Bearden, Faith Ringgold, Pablo Picasso e Henri Matisse.
Também se inspira em revistas dos anos 1970 e arquivos visuais que questionam representações da mulher negra ao longo das últimas décadas.
MEMÓRIA
Criei ambientes domésticos principalmente para mulheres negras – minhas musas – passarem tempo e viverem novas experiências em cenários familiares.
Mickalene Thomas

Guernica Detail (Resist #7) 2021. © Mickalene Thomas.
Interiores domésticos servem de cenário para muitas obras da artista: ambientes imersivos para sessões fotográficas, fundos para pinturas e instalações que recriam salas lembradas da infância.
Como escreve a poeta Elizabeth Alexander, em The Black Interior, a sala de estar é onde a imaginação negra se torna visível. Nesse contexto, o lar se torna fundamento de uma identidade afro-americana e assume quase um caráter sagrado diante da instabilidade histórica provocada pela escravidão, segregação e discriminação. O espaço doméstico se transforma, assim, em lugar de afirmação cultural e criativa.
Rachel Thomas é curadora chefe da Galeria Hayward, em Londres.
MICKALENE THOMAS: ALL ABOUT LOVE •
GRAND PALAIS • PARIS • FRANÇA •
17/12/2025 A 5/5/2026


