AOS OLHOS DE TODOS

Opa Oba Ile Ati ejo Meji – Cetro do Panteão da Terra, década de 1980. Foto: Divulgação/Instituto Inhotim.

IWIN OLÁ ATI EYE LOKE – Majestosos ancestral da árvore com um pássaro no alto – OMOLU, 1978. Foto: Divulgação/Instituto Inhotim.
Em algumas culturas africanas, máscaras, esculturas, cerâmicas, indumentárias e adornos se destinam aos iniciados. São “objetos-ação” ligados ao mundo mágico-religioso, empregados em ocasiões especiais (ritos de passagens, iniciação, cerimônias e festas) e guardados em locais sagrados, longe dos olhos dos “não iniciados”. Em sua origem, não foram feitos para serem contemplados como obras de arte à maneira ocidental.
Surge daí, uma complexa discussão sobre os artefatos tradicionais africanos, que se convencionou, desde o interesse da arte moderna, chamar de “arte negra” ou “arte africana” – desconsiderando que a África é construída por vasto território de alteridades e que, na verdade, a arte negra ou africana é um conjunto variado de tradições, envolvendo diversidades geográficas, físicas e culturais.
Igualmente densa é a questão acerca dos conceitos da arte negra e afro-brasileira, sendo esta vista como agrupamento na História da Arte no Brasil. Historiadores, críticos de arte e demais teóricos nos ensinam os limites e os impasses do que se chamou de arte negra, a partir dos anos de 1950, e da arte afro-brasileira, nome firmado a partir dos anos de 1980. Aqui deixo um salve para Abdias do Nascimento, Clarival do Prado Valladares, Marianno Carneiro Cunha, Kabengele Munanga, Emanoel Araújo, Roberto Conduru e Hélio Menezes – todos contribuíram e continuam contribuindo neste debate ainda aberto.
Muitas vezes, eles discordavam sobre como categorizar essa forma de pensar e fazer arte a partir das referências e dos elementos da cultura africana em manifestações artísticas produzidas no país. Porém, não se contesta o papel do escultor e escritor Mestre Didi (Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Salvador, 1917-2013) na construção do que hoje chamamos de arte afro-brasileira e, mais ainda, como esse artista está ligado visceralmente à estética africana.
E, a exposição Mestre Didi – “os iniciados no mistério não morrem”, com curadoria de Igor Simões (curador convidado) e da equipe curatorial de Inhotim, no Programa Abdias Nascimento, e o Museu de Arte Negra, conta-nos sobre tudo isso. (Aqui abro parênteses: Abdias do Nascimento, em 1969, no início do seu autoexílio nos EUA, usou o termo Afro-Brazilian Art para se referir à sua produção artística e às de outros. Lembro, ainda, que as obras de Mestre Didi estão em sua coleção que dará subsídios ao Museu de Arte Negra, ou seja, reverenciar Mestre Didi no Programa organizado por Inhotim é fundamental).
Voltando à exposição, como enunciado pela curadoria, os “mistérios” de Mestre Didi partem das esculturas para suas diversas vivências (sacerdote, artista, e, sobretudo, um refinado intelectual). A mostra, a partir de 26 obras, registros fotográficos e documentos, evidencia como esse se artista relacionou com a cultura e com a experiência afro-diaspórica.
De origem Ketú, a família de Mestre Didi deu continuidade às tradições sagradas nagô na Bahia, sendo ele consagrado sacerdote do culto dos Egungun – ancestrais masculinos. Assim, ele executou objetos ritualísticos desde a infância; aprendeu a manipular materiais, formas e objetos com os mais antigos do culto dos orixás do panteão da Terra (Nanã, Obaluaiyê, Oxumaré e Ossain). Em sua vida e obra, percebem-se os fundamentos míticos de origem yorubana, justificados por seus vínculos na função de sacerdote supremo, pelo histórico de sua família, e, ainda, pela recriação de uma tradição afrodescendente.
No resgate da cultura e da memória africana no país, sua atuação merece destaque: entre 1946 e 1989, Mestre Didi publicou livros sobre a cultura afro-brasileira, alguns com ilustrações de seu amigo Carybé; em 1966, viajou para a África Ocidental e realizou pesquisas comparativas entre Brasil e África, subvencionado pela Unesco e, entre as décadas de 1960 e 1990, foi membro ativo de institutos de estudos africanos e afro-brasileiros e conselheiro em congressos com a mesma temática, no Brasil e no exterior.
Quanto à sua trajetória artística, as abordagens mais evidentes são aquelas que ligam seu trabalho ao sagrado e à ancestralidade – é justo por esse caminho que a curadoria da exposição de Inhotim nos apresente Mestre Didi. Já no título “os iniciados no mistério não morrem”, Simões lembra a canção entoada no funeral de um Ojé (sacerdote da tradição Egungun). No candomblé, a morte não é extinção ou esquecimento – morrer é uma mudança de plano de existência; é, de certo modo, tornar-se ancestral. Como iniciado, Mestre Didi foi presente, memória e resistência. O tempo todo, seus trabalhos nos mostram que a história do “eu” está vinculada à história dos nossos ancestrais.
As peças selecionadas remetem aos emblemas que Mestre Didi exibiu somente a partir de 1964, como obras de arte. Embora, ele tivesse conhecimento técnico e litúrgico para confeccionar os “objetos-ação” (com significado ritual) – aqueles não feitos à contemplação – suas obras não são objetos sagrados, uma vez que, no momento da feitura, não passaram por rezas (afô) e não receberam àse (princípio, força reguladora do orixá), assim elas podem ser expostas. De fato, seus objetos são fronteiriços entre o ritual e o estético.
Estão ali o xaxará de Obaluaiyê (a força que controla as doenças, ora afastando, ora recolhendo), o ibiri de Nanã (ventre, “mãe-terra primordial”), o emblema de Ossain (detentor da cura pelas folhas e ervas) e o Oxumaré (movimento e ciclos que geram transformação), representado pelos emblemas de duas cobras. Todos a partir de formas e cores que exprimem a visão de mundo que esses orixás representam.

EYE INLA LYA – Grande pássaro ancestral, s.d e IBIRI – Emblema de Nanã, década
de 1980. Foto: Divulgação/Instituto Inhotim.

Galeria Praça, Instituto Inhotim.
Foto: Ícaro Moreno.

Ejó Epé Mimo, 2009. Foto: Divulgação/Simões de Assis Galeria.

Ope Awo Ibo – Palma misteriosa do mato, 2011. Foto: Divulgação/Simões de Assis Galeria.
As nervuras das folhas de palmeiras enfeixadas em forma ventral são representações coletivas dos espíritos ancestrais. As superfícies em couro caracterizam com sua cor, a qualidade de asé, assim como os búzios enfileirados podem representar ancestralidade, continuidade de linhagens, ciclo vital. E, por fim, as contas que representam partículas desprendidas da qualidade da força do orixá exprimem a dinâmica entre o aiyê – este mundo, e o erun – o além.
O emprego desses materiais e outros orgânicos, tais como, o barro, a ráfia, a palha do dendê e o ferro, dão margem à chave de leitura que evoca a natureza – uma relação que não se restringe tão somente à cultura material, mas também aos mitos do universo nagô-brasileiro que contam a criação do universo, tendo como protagonistas as forças da natureza (água, matas, ar, fogo e terra). Nessa cosmovisão, torna-se essencial a ligação com plantas, animais e minerais – uma “mútua-pertença” homem-natureza.
A curadoria coloca, ainda, Mestre Didi em diálogo com obras de Rubem Valentim (Salvador, 1922 – São Paulo, 1991), seu contemporâneo, que construiu emblemas pictóricos e tridimensionais, articulando sentidos a partir dos símbolos do candomblé e da umbanda e, com obras de Ayrson Heráclito (Macaúbas, 1968), artista que transita entre a performance, a instalação, a fotografia e o audiovisual. Em suas propostas, Heráclito lida com referências ritualísticas, vindas do candomblé, relacionando-as ao patrimônio histórico e arquitetônico.

Galeria Praça, Instituto Inhotim.
Foto: Ícaro Moreno.

Mônica Ventura, A noite suspensa ou o que posso aprender com o silêncio, 2023. Foto: Ícaro Moreno
A preocupação em trazer a presença feminina na trajetória do artista-sacerdote é compreensível; é algo sentido durante a visita e expresso pela curadoria. Mas, cabe pensar que, uma vez que sua produção emerge dos conhecimentos obtidos no interior do candomblé nagô – organizado a partir da matriz matriarcal, o feminino é também inerente.
De propósito, a grande conexão reservei para o final: o diálogo com a exposição de Mônica Ventura (São Paulo, 1985), A noite suspensa ou o que posso aprender com o silêncio – mostra comissionada pelo Inhotim para ocupar o vão central da Galeria da Praça.
A instalação, em grandes dimensões, faz referência às práticas religiosas de matrizes ancestrais de algumas regiões do golfo do Benin, assim como evoca a cosmologia Pankaru, povo originário que tem seu território próximo ao rio São Francisco. Em comum, os espíritos ancestrais ligados à proteção e ao mundo espiritual. Assim, confirma-se o interesse da artista pela cosmogonia afroameríndia. Ventura, de certa forma, está na trilha aberta por Mestre Didi, quando da construção desse lugar chamado “arte afro-brasileira”. Nesse viés, a ancestralidade conecta Ventura a Mestre Didi. Cada artista, ao seu modo, nos introduz aos mistérios mágico-religiosos.
Nessa cosmogonia de sentidos, o elemento terra está entre os dois artistas – separados por algumas gerações – Ventura emprega a terra da região na construção da proposta, já Mestre Didi têm no panteão dos orixás da Terra seu sustentáculo, bem como os dois se valem da natureza para suas proposições.
Às vezes, eles pedem que sejamos “iniciados” para adentrar camadas mais profundas de interpretação dos seus trabalhos. Porém, a premissa norteadora que os conecta, por fim, é a de que tudo está aos olhos de todos.
Alecsandra Matias de Oliveira é pósdoutorado em Artes Visuais (Unesp).
Doutora em Artes Visuais (ECA-USP). Mestrado em Comunicação
(ECA-USP). Professora do CELACC (ECA-USP). Pesquisadora do
Centro Mario Schenberg de Documentação e Pesquisa em Artes
(ECA-USP). Membro da Associação Brasileira de Crítica de Arte
(ABCA). Curadora independente e colaboradora da revista Dasartes,
Jornal da USP e Revista USP.
MESTRE DIDI: OS INICIADOS NO MISTÉRIO NÃO MORREM •
INSTITUTO INHOTIM • MINAS GERAIS •
27/5 A 31/7/2023

