DASARTES 156 /

MARILÁ DARDOT

ENTRE PALAVRA E MEMÓRIA, MARILÁ DARDOT TRANSFORMA EXPERIÊNCIAS COLETIVAS EM METÁFORAS DO PRESENTE. SUA OBRA REFLETE SOBRE SONHO, TRABALHO E DESIGUALDADE, EXPLORANDO A FORÇA POLÍTICA DA LINGUAGEM E DA ARTE COMO RESISTÊNCIA. CONVIDAMOS A ARTISTA A COMENTAR CINCO OBRAS ESSENCIAIS DE SUA TRAJETÓRIA, REVELANDO CURIOSIDADES, INSPIRAÇÕES E O PROCESSO CRIATIVO POR TRÁS DE CADA UMA DELAS

Sonho encarnado (Orides Fontela #2), 2025. Foto: Filipe Berndt.

O livro de areia

“Quando eu era estudante de artes na Escola Guignard, a Piti (Maria Angélica Melendi) nos deu como tarefa fazer um livro de artista. ‘O que seria um livro de artista?’, pensei. O que é um livro? O que é uma artista? Com os livros, eu tinha intimidade. Era leitora. Artista, ainda não.

Lembrei de um conto de Jorge Luis Borges chamado O livro de areia, “porque nem o livro nem a areia tem princípio ou fim.” A personagem topa com um livro que vai sendo descrito como sagrado, diabólico, impossível, monstruoso – um livro cujas páginas nunca se repetem. Fiquei cheia de perguntas: não seriam todos os livros infinitos, uma vez que toda história muda a cada novo leitor, a cada leitura, releitura, a cada contexto? Borges conversava com Heráclito sobre a ideia de impermanência? Por que areia, essa matéria dura que escorre pelas mãos? Agora eu tinha um problema: como dar materialidade a algo tão abstrato, como transformar pensamento em matéria que faz pensar?

Fiz um livro cujas páginas eram espelhos. Foi o meu primeiro trabalho. Encontrei ali algumas questões que apontavam o que viria a ser minha obra: relações com a literatura, a palavra, com o tempo, com o outro e o entorno. Achei então que podia ser artista.”

O livro de areia, 1999. Foto: Marilá Dardot

A origem da obra de arte

“Criado inicialmente para uma exposição temporária no Museu de Arte da Pampulha, o trabalho brinca com conceitos do texto homônimo de Heidegger: Terra, mundo, instrumento, obra de arte. Na sala, antes dedicada ao educativo, dispus todas as letras do alfabeto em forma de vasos, terra, sementes e instrumentos de jardinagem. Oferecia aos visitantes a possibilidade de escrever, tomar seu tempo e sujar suas mãos de terra. ‘Será que eles vão participar?’, perguntou-me o curador. ‘É uma aposta’, eu disse. ‘Mas será que vão escrever coisas interessantes?’

A origem da obra de arte, 2002/2011. Foto: Pedro Motta

Quando penso em um trabalho que propõe a participação do outro, estou aberta, não existe fracasso (mesmo que a participação não se dê, isso também significa). O nome próprio, o da filha, da amada, da empresa; as frases de protesto, versos, palavrões: tudo o que for escrito ali me interessa porque revela algo do outro, do mundo em que vive, daquela época. As plantas quando crescem verdes, quando morrem secas, revelam sobre o cuidado ou a falta dele, sobre a estação, o clima, sobre o tempo. E significam os vasos colocados vazios, sem plantio, pelo visitante apressado.”

Diário

“No início de 2015, fui fazer uma residência na Casa Wabi, em uma praia do México. Projetada pelo arquiteto japonês Tadao Ando, a casa era cortada por um extenso e alto muro de concreto, atravessado por uma única porta. Do lado de lá, as cabanas onde dormíamos e uma enorme sala de estar aberta, com vista para a piscina, o mar, o horizonte. Do lado de cá, de quem vinha da estrada ou do povoado, os ateliês, a cozinha, os espaços de trabalho. Aquele muro me pareceu uma tentativa de barrar o que acontecia no mundo lá fora, como se do outro lado pudesse existir o paraíso.

No dia seguinte à minha chegada, uma mensagem no celular me fez abrir o computador e checar os jornais. ‘Doce muertos en un atentado en la revista “Charlie Hebdo” en París’, dizia a manchete de 8 de janeiro. A partir daí, comecei uma rotina diária, repetida por 23 dias: de manhãzinha, lia os principais jornais mexicanos, então escolhia uma manchete. Depois, eu a escrevia com água sobre o muro, gravando a ação em vídeo. As palavras se apagam logo que são escritas, materializando a efemeridade de seu impacto. A notícia do último dia, coincidentemente, conecta-se com a primeira: ‘Atentado contra mezquita deja más de 40 muertos en Pakistán’. Mas ninguém disse ‘Je suis Pakistán.’”

Diário, 2015. Foto: frame do vídeo

Ir y volver

“Fui convidada a participar da XIII Bienal de Havana. Ciente da precariedade econômica do evento, pensei: vou fazer um trabalho que dependa apenas da minha presença.

Naquela edição, parte da Bienal acontecia em Matanzas, cidade famosa por seus músicos e escritores. Lá nasceu Carilda Oliver Labra, poeta que ali viveu toda a sua vida. Lendo seus poemas, encontrei um verso que me lembrava um dos “lemas” da Revolução Cubana (Hasta la victoria siempre) e, de alguma maneira, refletia o meu estado de espírito depois de ter passado alguns anos, desde 2015, focada em narrativas jornalísticas e más notícias: A la esperanza vuelvo.

Ir y volver, 2019. Foto: Adversy Alonso

Como certo contraponto a Diário, apresentei a performance Ir y Volver: escrevia com água o verso de Carilda sobre uma desgastada parede azul-clara, às margens do rio que cruza a cidade. Enquanto o sol apagava as palavras, continuava escrevendo o mesmo verso repetidas vezes, até acabar a água. O esforço contínuo de construção da esperança, que reencontrei na poesia.”

Sonho encarnado (Orides Fontela #2)

“Sonho vivido desde sempre

– real buscado até o sangue.”

“De Orides Fontela, este é um dos dez trechos com a palavra “sonho” que pinto com bastão a óleo sobre linhos coloridos que se agitam, dependurados das paredes e do teto, na série Sonho encarnado.

‘É preciso pensar com as mãos, não apenas com a cabeça’, disse Jean-Luc Godard.

Sonho encarnado (Orides Fontela #2), 2025. Foto: Filipe Berndt

Sonho encarnado é pintura, e não pintura. No gesto de pintar cada letra, experimento o tempo de sua execução, e o que essa ação produz no meu corpo: o cansaço dos dedos e a cor complementar que meu olho vê na parede branca, certo transe meditativo. Mas há também o uso da cor pronta e industrial dos tecidos que vibram. Pensar com as mãos, manufaturar os sonhos. Como se, ao pintar, o que escrevo entrasse em mim, e me possuísse. Como se o sonho me encarnasse.”

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