Sem título, 2016.

DASARTES 93 /

Mariana Palma

PRIMEIRA RETROSPECTIVA EM UMA INSTITUIÇÃO CULTURAL DA ARTISTA MARIANA PALMA REÚNE CERCA DE 50 TRABALHOS QUE REPASSAM OS QUASE VINTE ANOS DE SUA CARREIRA, FUNDAMENTADA, SOBRETUDO, NA PINTURA E NO DESENHO

Sem título, 2016

LUMINA: OLHAR E VERTIGEM NA PRODUÇÃO DE MARIANA PALMA

Das muitas narrativas e interpretações presentes na história da literatura, da música e das artes visuais, o mito de Orfeu é, sem dúvida, um dos mais presentes e revisitados. Na tradição clássica, esse personagem surge como um exímio poeta e cantor cuja destreza seria o ponto-chave de seu encanto.
Os poetas latinos Virgílio e Ovídio se dedicaram a narrar o périplo de Orfeu pela salvação de sua amada, a ninfa Eurídice. O encontro dos amantes teve um lúgubre desfecho: no dia de seu casamento, a ninfa morre ao receber uma picada de serpente. Atônito, Orfeu se lança em uma busca pela esposa nas mais sombrias regiões. Sua descida às trevas do Hades, o reino dos mortos, resulta no resgate da amada que, por exigência dos deuses, só se daria com o cumprimento de um acordo: Orfeu a levaria consigo desde que não se voltasse para trás a fim de avistá-la.
Os amantes percorrem um território obscuro, de difícil transposição, repleto de densa fumaça e no mais profundo silêncio. Em vias de concluir a transição definitiva para o mundo dos vivos, a missão de ambos falha. Diante da súplica de Eurídice por um sinal e uma resposta ao seu amor, Orfeu sucumbe e se volta para trás. Ao encará-la, perde-a definitivamente.

Sem título, 2016.

Sem título, 2017. Todas fotos: Everton Ballardin

Os trechos do poema Metamorfoses, de Ovídio (8 d.C.), que narram o instante desse triste desfecho, referem-se ao termo lumina como a síntese do instante em que os amantes se encaram. Trata-se da luz dos olhos de Orfeu que, no momento em que se volta para Eurídice, emite um raio em sua direção.
No poema, a leitura do mito de Orfeu e Eurídice nos abre uma possibilidade de interpretação para seus destinos. A fraqueza do herói que não suporta a espera para finalmente estar frente a frente com sua amada teria peso equivalente à impaciência de Eurídice para a confirmação de seu amor. A síntese de lumina traz consigo uma dubiedade: remete ao tão esperado encontro do casal, mas faz desse encontro um destino fatídico, que leva à separação desses corpos.
A exposição, em cartaz no Instituto Tomie Ohtake, vale-se da narrativa do mito de Orfeu para conduzir um percurso pela produção da artista paulistana Mariana Palma. Como em uma série de atos, tal qual uma ópera adaptada, o visitante percorre diversos momentos de seu trabalho tendo como nortes suas usuais referências imagéticas e compositivas. Explorando elementos provenientes da botânica, estampas, organismos marítimos e fragmentos arquitetônicos, Palma aborda a interpenetração de corpos, destaca alternâncias entre instantes de tensão e expansão, e compõe infindáveis universos frutos da exploração de luz e sombra.
Já no primeiro ato – que abre o percurso pelo espaço expositivo – uma série de aquarelas, pinturas e fotografias corrobora a mitologia desses amantes. De caráter claramente labiríntico, a sucessão de salas narra junto à produção da artista desde o enamoramento de Orfeu e Eurídice até o instante em que voltam a se encarar.
Longos corredores, ligeiramente estreitos, abrem a mostra apresentando uma vasta sucessão de aquarelas recentes com elementos como conchas, flores e folhagens. Esse primeiro contato com a produção de Palma dá pistas à presença contundente de naturezas mortas em sua trajetória. Os motivos escolhidos guardam referências à pintura flamenga do século 17, presente como objeto de estudo e observação pela artista desde o início de sua formação.
É em um jogo de hibridismos inesperados que Palma destrincha o rigor de seu desenho e a sutileza na escolha das cores. Há no conjunto um evidente indício de sedução, muitas vezes explícito na conformação de frutos que se abrem para evidenciar seus sulcos.
É inevitável ao observador mais atento a indagação acerca da proveniência dos motivos desses desenhos e fotografias. A artista resgata na domesticidade a beleza contida no ordinário, elege em elementos prosaicos seus desafios à representação. Uma visita ao ateliê e à residência de Palma dá indícios dessas longas imersões a que se dedica a observar contornos de folhagens, estruturas de caules e o movimento inerente a cada espécie. Recorrentemente, a artista se debruça sobre esses elementos buscando a abertura de novas vias de investigação.

Sem título, 2010.

Sem títulos, 2017. Cortesia Casa Triângulo.

Sem títulos, 2017. Cortesia Casa Triângulo.

Sem títulos, 2017. Cortesia Casa Triângulo.

Nessas imersões, as analogias formais e os encaixes entre elementos de universos distintos parecem ganhar certa banalidade e naturalidade para a artista. Há, na escolha dos elementos pictóricos de Palma, uma vertente matissiana que explora incansavelmente aquilo que há de doméstico e banal em pinturas de cores vibrantes.
O habitar poético da artista nesses espaços que lhe são íntimos também é determinante aos seus experimentos fotográficos. Sob o mais límpido leite e o mais turvo dos óleos, Palma experimenta submergir flores e folhas realizando registros em topo. O comportamento do líquido diante da planta não somente delimita um campo de cor como evidencia contornos e linhas frutos da sutil penetração de luz.
O componente líquido e viscoso suscita também interpretações mais orgânicas dessa mescla de corpos híbridos produzidos pela artista. Há algo de úmido, fecundo, gozo, que subjaz essa hibridização, como se dali derivassem o renascer de novos corpos.
Os demais atos e salas expositivas exploram a atmosfera da busca de Orfeu por Eurídice. O encontro de ambos, que associa o clímax de uma possível fusão de corpos à desagregação inevitável, é materializado por uma instalação em que frutos de palmeiras, tais quais duas cascatas, vertem para uma bandeja de líquido viscoso. Palma constrói, por intermédio do jorro das plantas, uma metáfora pujante desses corpos fatidicamente cindidos.
Ainda no paralelo entre a produção da artista e a narrativa do mito, o reino de Hades e a possibilidade de uma fértil união do casal se contrapõem em duas salas marcadas por pinturas de diferentes momentos da produção de Palma. O umbral e sua obscuridade, o renascimento e sua fertilidade, são fios que conduzem à aproximação dos trabalhos. Esses dois polos explorados são determinantes para a compreensão da multiplicidade do léxico da artista. Embora a profusão de elementos, aliada à intensidade do uso da cor, salte aos olhos no primeiro fitar das obras de Palma, a sutileza e o rigor com que a artista articula cada camada sucessiva de tinta desvelam um processo lento e meticuloso evidente apenas quando nos debruçamos sobre a superfície planar de suas pinturas.

Sem título, 2009. Foto Ding Musa

Sem título, 2012. Foto Edouard Fraipont

A noção de lumina de que se vale Ovídio parece permear diversos momentos da trajetória de Palma. A retrospectiva no Instituto Tomie Ohtake demonstra a recorrência com que a artista se refere à ideia de integração de partes e superfícies que se tocam e atritam dando forma a um novo corpo. Utilizando inúmeros suportes, Palma associa a gramática da pintura barroca a colagens e registros digitais. Tal qual a lumina que define os mais pujantes encontros, nosso deparar com a produção da artista não resulta esquivo. Somos imersos em uma poética sedutora e ansiamos pelo desvelar de suas camadas.

Priscyla Gomes é curadora
associada do Instituto Tomie
Ohtake.

MARIANA PALMA: LUMINA •
INSTITUTO TOMIE OHTAKE •
SÃO PAULO • 18/2 A 5/4/2020

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