Mano Penalva, Sem título, Palhinha, 2019

DASARTES 89 /

Mano Penalva

Um dos principais interesses de MANO PENALVA é a cultura material. O artista propõe a subversão do valor de objetos do cotidiano, sobretudo aqueles ligados a ambientes domésticos. Por Thiago Fernandes.

Nascido em Salvador, Mano Penalva vive e trabalha em São Paulo e atualmente realiza a exposição individual Casa de Andar, na Portas Vilaseca Galeria (Rio de Janeiro), com curadoria de Pollyana Quintella. Um dos principais interesses do artista é a cultura material. Penalva propõe a subversão do valor de objetos do cotidiano, sobretudo aqueles ligados a ambientes domésticos. Tal dado é realçado pelo título de sua mostra individual, expressão utilizada na Bahia para denominar as casas com mais de um andar, os sobrados.

Mano Penalva, Sem título, Palhinha, 2019, Palhinha, peneiras, muxarabi, madeira e chassi, 230 x 170 x 10 cm

Na série de Ventanas, o artista utiliza materiais como palhinha, muxarabi e peneiras para compor novas peças em escala arquitetônica adotando a lógica da arte construtiva. O que esses objetos de natureza tão distinta têm em comum é o vazio provocado por seus diferentes padrões de trançados, que produzem um jogo de velar e revelar. Esses agrupamentos de materiais encontrados se distanciam do sentido do ready-made duchampiano, caracterizado pelo desinteresse visual, e produzem uma lógica própria a partir de sua ordenação visual deliberadamente executada pelo artista, como pode ser constatado ao observar a tonalidade dos objetos reunidos e o cuidadoso arranjo de sobreposição e justaposição produzido por Penalva. Novas possibilidades estruturais e mesmo funcionais são sugeridas a partir dessas estranhas conjugações de elementos tão distantes em seu caráter utilitário, mas com certas proximidades em sua visualidade. Dessa maneira, o artista evidencia como o olhar superficial pode ser traiçoeiro e tende a embaçar as diferenças, ao mesmo tempo em que indica a harmonia que pode ser alcançada pela união de elementos heterogêneos.

Mano Penalva, 1 quarto, 2 quartos, 3 quartos, 2019, Banco, moringa e quartinha, 70 x 40 x 40 cm

Não apenas objetos de uso ordinário, mas também utensílios provenientes de cultos religiosos são apropriados pelo artista. É o caso de 1 Quarto, 2 Quartos, 3 Quartos, trabalho em que Penalva aproxima quartinhas brancas – utilizadas em cultos afro-brasileiros – e moringas de barro – que servem como reservatórios de água fresca. O título ambíguo remete tanto a espaços de repouso quanto às frações matemáticas observadas na divisão dos objetos sobre três superfícies de madeira (1 quartinha com 3 moringas, 2 quartinhas com 2 moringas e 3 quartinhas com 1 moringa). Como nas Ventanas, o artista adota uma referência arquitetônica do ambiente doméstico e produz um jogo de semelhança e diferença, dessa vez a partir da aproximação entre o sagrado e o comum. Algo semelhante ocorre em Kitnet, que consiste na fixação de duas quartinhas apertadas em um suporte vertical de madeira, que evocam as moradias urbanas de pequenas proporções. Os dois objetos são estrangulados pelo suporte estreito, ocupando toda sua largura sem deixar zonas de respiro. Ao mesmo tempo, a composição vertical distancia as duas quartinhas, produzindo um grande vazio entre as peças, ressaltando o dado da privacidade e o cerceamento dos encontros e das afetividades.

Mano Penalva, Kitnet, 2019, Suporte madeira e quartinhas, 160 x 20 x 20 cm

A intimidade é também um dos pontos de Tribeira, trabalho em que o artista se apropria de um biombo – objeto de decoração interna ou de uso prático, que produz paredes falsas para fins de privacidade. O título do trabalho faz referência à arquitetura do período colonial. Enquanto as casas de famílias mais abastadas eram cobertas por três camadas de telha – eira, beira e tribeira –, as casas mais pobres recebiam apenas um acabamento: a tribeira (daí surge o ditado “sem eira, nem beira”). Tribeira conjuga um biombo com ornamentos delicados, em estilo rococó, com cacos de vidro que contornam suas laterais. A elegância e a graciosidade do rococó, estilo decorativo proveniente dos palácios franceses e adotado pelas igrejas do Brasil colonial, contrasta com a agressividade dos vidros pontiagudos, comumente utilizados como gambiarra em muros de moradias populares, não como elementos decorativos, mas com a função de impedir invasões e delimitar limites entre público e privado. Ao agregá-los ao biombo, o artista aproxima e contrasta distintas faces da proteção, da privacidade e da ordenação dos corpos, evidenciando diferenças de classe e refluxos do passado.

Mano Penalva, Tribeira, Casa de Andar, 2019, Biombo e cacos de vidro, 195 x 160 x 15 cm

Mais do que rearranjos visuais, o trabalho de Mano Penalva desperta novos sentidos e funcionalidades em objetos do cotidiano. A aproximação de materiais de diferentes origens e utilidades direciona nosso olhar para detalhes que não são percebidos nos objetos isoladamente e, ainda, aponta para além deles, para aquilo que faz parte do amplo horizonte das culturas onde estão inseridos.

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