DASARTES 127 /

MADALENA SANTOS REINBOLT

DE SEU ESPAÇO, CIRCUNSCRITO AOS SEUS TRAJETOS E TRAJETÓRIAS, MARIA MADALENA SANTOS REINBOLT EXPRESSOU SUBJETIVIDADE IMAGINADA EM UM VASTO MUNDO DE PERSONAGENS, PAISAGENS E SITUAÇÕES DO COTIDIANO. A PINTURA (E, DEPOIS, OS BORDADOS E TAPEÇARIAS – QUE A ARTISTA INTITULOU QUADROS DE LÃ) FOI SUA MANEIRA DE EXISTIR

O FIO DA VIDA

Da minha terra tenho saudade de tudo até hoje, porque eu adoro minha terra porque ela é linda. […] De dentro de uma cidade se enxerga outra.

Madalena Santos Reinbolt

Nazaré, 1950–60. Foto: © Daniel Cabrel. Cortesia MASP

Ainda que sem o reconhecimento devido, Madalena Santos Reinbolt inovou e foi pioneira, produzindo uma obra passível de diálogo com grandes movimentos artísticos. Não que as comparações sejam necessárias para afirmar sua produção, antes para apontar que não cumpre tratar sua singularidade de maneira isolada, negando-lhe relações com outros artistas e movimentos. No entanto, há uma série de enredos próprios ao conjunto de sua obra que merecem maior atenção.

Até muito recentemente, apenas a crítica e curadora de arte Lélia Coelho Frota (1938-2010) havia dedicado uma leitura atenta ao trabalho da artista, a exemplo de seu seminal artigo “Madalena Santos Reinbolt escreve o mundo nos seus quadros de lã”, publicado em 1975. A circulação restrita e sua inserção na categoria de arte popular a relegou majoritariamente a coleções privadas: poucos museus têm seu trabalho em acervo, sendo o Museu Afro Brasil a instituição com o maior número deles. No Museu de Arte de São Paulo “Assis Chateaubriand”, antes de adentrar a coleção, Santos Reinbolt figurava no restaurante do museu que exibe uma pequena mostra dos nomeados artistas populares. É certo que tal privação da apreciação pública restringiu a valorização e a análise de sua produção, faltando-lhe olhares críticos plurais e presença em livro e exposições de arte que, espera-se, essa mostra monográfica seja capaz de apoiar e promover.

Árvore do Pai Bié, 1974. Foto: © Antônio Caetano. Cortesia MASP.

A biografia de Santos Reinbolt é lacunar, pouco se sabe sobre essa artista nascida no município baiano de Vitória da Conquista, em 1919, e viveu em Salvador e na cidade do Rio de Janeiro antes de se fixar em Petrópolis, quando trabalhou na casa de Lota Macedo Soares e Elizabeth Bishop. A poeta registrou em suas anotações pessoais eventos da vida da artista. Tais relatos, não raros carregados de preconceitos e parcialidades, constituem uma das poucas fontes de informação para uma genealogia de sua produção.

Embora conectada desde muito cedo ao exercício criativo, incentivada pela mãe Ana Maria de Souza Pereira, foi somente nos anos 1950 que Santos Reinbolt passou a se dedicar à produção de pinturas, período a que se deu menor atenção e que se estendeu até o final dos anos 1960, quando a tinta óleo, empregada de maneira figurativa e gestual, deu lugar aos mais valorizados, lineares e, às vezes, abstratos “quadros de lã”. Em ambos, há em comum a expressão de cenas amplas, criadas em grandes massas, com motivos esquemáticos e de onde pouco a pouco se conformam os limites que ensejam as personagens, a fauna e a flora, além das cidades, dos parques, igrejas e lagoas – ambientes de sociabilidade que integram humanidade e natureza e de onde surgem seus enredos em narrativas reimaginadas. Se há uma lacuna na biografia da artista e seus trabalhos são criados mais a partir da memória que da observação, é lícito apreender sua história a partir de sua obra.

Seus quadros sugerem um movimento que ultrapassa os elementos que o constituem individualmente como se, em conjunto, fossem animados, vibrando em lampejos a invenção de uma memória que opera a construção do fio de sua vida. Tais reminiscências refletem domínios de sua experiência e deflagram um balanço de forças sociais envolvendo diferentes pertencimentos e trânsitos que não deixam de estar integrados e serem interdependentes ao que a artista reconhece e representa não apenas como o mundo externo, mas como a si mesma. Dessa perspectiva, a noção de memória aqui evocada opera como um instrumento de ação e um método de reflexão que cruza experiências e expectativas, temporalidades, vigília e sonho, apontando a relação entre a posição da artista no mundo e a possibilidade de ultrapassá-la.

Santos Reinbolt não representa as coisas contingenciadas à escala real dos objetos, não que esteja faltando impressão de volume e tridimensionalidade, ao contrário, tais qualidades são obtidas por uma abundância de ritmo que constrói certa ilusão de cinesia e de recordação. O sistema cromático de seus trabalhos tampouco é rígido, a impressão da cor é também a impressão da forma. A abundância e complexidade de linhas exige distância, quando se observa diferentes escalas de apreensão da cena. Os elementos de suas composições são repetidos de maneira agrupada e podem ser esquemáticos, não raro transbordando um único ponto focal em favor das variadas situações e texturas que compõem o quadro geral.

Sem título, 1969-1977. Foto: © Eduardo Ortega. Cortesia MASP.

Remetendo à infância e parte da juventude de Santos Reinbolt em Vitória da Conquista, representações de lagoas constituem seu tema mais constante e são apresentadas de diferentes maneiras, criando paisagens dinâmicas e servindo a representação de fauna e flora variadas. Às vezes, elas aparecem como espaço de sociabilidade e realização de festejos públicos, às vezes, exclusivamente dedicadas à representação do incrível imaginário que pode advir da observação da natureza. Constituem-se de organismos vivos que retornam consistentemente representações enraizadas na memória. Fora de um tempo definido, as mais figurativas parecem remeter ao passado, e, as que caminham rumo à abstração, prenunciam seu devir.

Representações geradas pela observação são distintas daquelas geradas pela memória, mas elas não se distinguem por pretensa objetividade. De fato, criar um trabalho que tenha sua origem na memória é algo fundamentalmente singular, como um mapa da alma, revela a expressão de um mundo interior e a agência da artista de recuperar justiça a sua própria experiência.

Não seria leviano, portanto, celebrar a produção de Santos Reinbolt como uma artista de paisagens, exímia no retrato de grandes sóis e céus, de muitas distintas plantas e de vidas aquáticas complexas e intrincadas como vivenciou nas suas duas primeiras décadas de vida, mas seu entusiasmo pelas cidades também ocorreu em sua arte de forma pouco reconhecida.

Três obras da artista representam sua memória de Salvador, em que se destaca o Elevador Lacerda.

Em tese, esse ponto turístico forneceu à artista uma imagem precisa da sua localização e de sua aparência no fluxo da paisagem, mas ela saiu dos limites do mapa para representar a paisagem nos termos que ressoavam com sua sensibilidade. Para a pintura Sem título (1950-60), a composição foi planejada, haja vista as marcas que evidenciam o esboço anterior. A construção turística é simples e sintética em que cada ponto sugere um andar, ela também marca centralmente a divisão de dois espaços quase simétricos. A cidade se projeta maior que a natureza, e se sobrepõe tanto ao mar quanto ao céu de uma noite estrelada de lua cheia que, em seu peso, desloca a linha do horizonte. Dada a faixa de azul mais claro e pontos de cores em tons de amarela, é possível imaginar que a lua acaba de despontar no céu.

Sem título, 1950-1960. Foto: © Eduardo Ortega. Cortesia MAS

Horizontalmente, a tela pode ser observada considerando a composição em três terços. No primeiro, abaixo, está a baía de Todos os Santos, com duas embarcações à vela que se confundem com patos n’água. Duas construções avançam na linha do mar, sugerindo um píer e, quiçá, o mercado-modelo. Todas as edificações são bastante esquemáticas, diferenciadas por linhas demarcadas em contraposição aos inúmeros pontilhados que aludem às janelas. Entre os prédios emerge uma vegetação que valoriza o acidente geográfico a que o elevador corresponde, dividindo a cidade baixa da cidade alta. A paleta cromática é majoritariamente criada com cores análogas em escalas de tons azuis e verdes, com pontos de luz criados a partir de áreas brancas e o uso de tons quentes de maneira mais sutil, corroborando a sensação de crepúsculo.

Sem título, 1969-1977. Foto: © Daniel Cabrel. Cortesia MASP.

Ainda que este seja um ponto turístico e central, há a sensação de movimento, mas não há qualquer figura humana.

Com o mesmo motivo, mas criados a partir de escalas de observação distintas, esta pintura e outros trabalhos foram retomados detidamente porque sugerem a reconstrução de uma memória declarativa, anunciando elementos da percepção e da experiência da artista na cidade, mesmo que de forma indiciária. Perseguir e expressar essa memória a partir de uma particular combinação entre recordação e projeção, sublinha o caráter sensível e afetivo da faceta voluntária de Santos Reinbolt de se apropriar de seu passado para se inscrever na história. Se tomarmos seus trabalhos como um projeto que se articula para dar significado não apenas às suas ações e aos seus deslocamentos, mas, sobretudo a sua vida ou, em outros termos, sua própria identidade, sua obra é uma amarra fundamental porque apresenta tanto visões retrospectivas como prospectivas. É certo que Santos Reinbolt perseguiu o desejo de se tornar artista combinando sua habilidade com a paixão que sentia em dar vida às memórias únicas da sua individualidade.

Amanda Carneiro é curadora assistente do
Museu de Arte de São Paulo Assis
Chateaubriand (MASP) e co-editora do
Afterall Journal da Central Saint Martins.

MADALENA SANTOS REINBOLD: UMA CABEÇA
CHEIA DE PLANETAS • MASP •
SÃO PAULO • 25/11/2022 A 26/2/2023

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