O Côncavo. Todas fotos: Luiz Escañuela.

DASARTES 86 /

Luiz Escañuela

As pinturas hiper-realistas de LUIZ ESCAÑUELA convidam o espectador a um complexo percurso pela tela por meio do olhar e parecem ativar outro sentido além da visão: o tato. Conheça a expressiva e dramática obra do jovem artista.

Desde o advento da arte moderna, a pintura de caráter representativo ora é combatida, ora é celebrada pela crítica. Clement Greenberg, crítico norte-americano e principal defensor do Modernismo, engajado sobretudo com o expressionismo abstrato, acusava os grandes mestres do passado de utilizar a “arte para ocultar a arte”, enquanto os modernos, segundo o crítico, afirmavam a planalidade do quadro. A planalidade, por ser a única característica que a pintura não compartilha com outras artes, deveria ser o atributo ao qual ela deveria se voltar para afirmar sua autonomia em relação ao mundo que lhe é exterior e, enfim, abolir a ideia de representação.

SUPERIMAGE 1

Essa teoria formalista da autonomia dos meios artísticos, defendida por Greenberg, teve seu prazo de validade decretado pela arte contemporânea, que é multidisciplinar, multimidiática ou ainda transmidiática, além de retomar a figuração em muitas de suas manifestações, como a pop, a nova figuração, o neoexpressionismo e o hiper-realismo. A arte, contudo, continua atuando no território da liberdade na medida em que o artista se libera de quaisquer regras ou funções específicas que possam condicionar sua produção e, sobretudo, quando propõe ao espectador um exercício de sensibilidade e livre interpretação por meio do olhar. Dentro desse caminho, encontramos a obra hiper-realista de Luiz Escañuela, jovem artista paulista em exibição na Luis Maluf Art Gallery.

Rogo

O hiper-realismo costuma provocar imensa admiração e êxtase em grande parte do público, que glorifica a capacidade do artista em produzir com tinta e pincel imagens tão fiéis à realidade, capazes de serem confundidas com fotografias em alta resolução. Já outros questionam a validade de uma arte mimética na contemporaneidade e creem que não há muito a ver ou pensar sobre esse tipo de produção pictórica. Mas Luiz Escañuela nos prova o contrário. Suas pinturas não se restringem a um caráter meramente descritivo. Elas convidam o espectador a um complexo percurso pela tela por meio do olhar, conduzido por uma experiência subjetiva do tempo. Um olhar distraído, superficial, é incapaz de apreender o que as pinturas de Escañuela têm a oferecer. Elas demandam a participação do espectador, sua imersão em um exercício de liberdade do olhar modulado por uma temporalidade subjetiva.

O outro do outro.

Ver também é uma ação. Ter essa ideia em mente nos ajuda a desconstruir a ideia do espectador como um ser passivo e a dicotomia espectador-participante, colocada por uma arte participativa no senso estrito. Sendo assim, a experiência diante dos trabalhos de Escañuela não se encerra na identificação das imagens apresentadas ou na constatação de sua exímia qualidade técnica. As telas do artista propõem percursos labirínticos pela sua superfície que há tanto a mostrar e, nesse trajeto pela imagem, o espectador cria seu próprio mundo sensível, percorre o objeto artístico com o olhar, exercendo sua capacidade interpretativa, criando associações, dissociações, em uma experiência singular de empatia. Ademais, a pintura de Escañuela parece ativar outro sentido além da visão: o tato. A linha, em seus trabalhos, evoca a tradição da composição renascentista conferindo solidez e qualidade tátil às formas. Esse atributo tátil é levado ao extremo com a técnica hiper-realista que é capaz de confundir os sentidos, fazendo-nos sentir a textura, a temperatura e o toque, apenas com o olhar.

O tato é não apenas o sentido evocado pelas pinturas de Escañuela, mas também, seu tema. Seu acervo imagético é composto por mãos que se encontram ou se atritam com o corpo, pés que se entrelaçam, corpos que parecem clamar pelo toque do outro. Algumas pinturas exaltam uma sensualidade melancólica. Outras enobrecem as imperfeições do corpo humano, que parecem ganhar valor estético pelo modo como são trabalhadas pelo artista. Escañuela se aparta dos ideais de beleza ao mesmo tempo em que se distancia de uma pura mimetização do real. O artista compõe suas pinturas a partir de fragmentos de diferentes referentes fotográficos, mas não para alcançar uma suposta perfeição, pois a essas imagens acrescenta rugas, manchas e traços que reforçam sua humanidade, mais do que a própria fotografia conseguiria.

SUPERIMAGE 4

Por fim, não se pode deixar de salientar a qualidade expressiva das pinturas de Escañuela. A dramaticidade ocasionada pelo uso deliberado das linhas e das cores evoca uma poética barroca e lhes dá vida. Mesmo nas pinturas que se limitam a apresentar apenas rostos, a dramaticidade é proporcionada pela cuidadosa iluminação, pelo tratamento expressivo conferido a cada elemento da face e pelas pinceladas milimetricamente calculadas que se atentam a detalhes que são pequenos, mas agregam muito à composição.

Autorretrato

Compartilhar:

Confira outras matérias

Destaque

MICKALENE THOMAS

O lugar central do meu trabalho e da minha arte é um espaço de amor.
Mickalene Thomas

A obra de Mickalene Thomas …

Do mundo

PAUL MCCARTHY

Há um filme italiano de 1975 cujo título poderia se situar como um ponto de partida para analisar a produção …

Reflexo

GILBERTO SALVADOR

VIU

É um trabalho da década de 1960, momento em que o país vivia uma forte censura em todas as áreas …

Resenha

SONIA GOMES

Ao inaugurar paradigma na historiografia da arte europeia que se consolidaria a partir do século 18, Johann Joachim Winckelmann estabeleceu …

Do mundo

WIFREDO LAM

A obra de Wifredo Lam ampliou os horizontes do modernismo, criando um espaço significativo para a complexidade e a beleza …

Destaque

RUTH ASAWA

Ao desafiar distinções entre abstração e representação, figura e fundo, espaço negativo e positivo, a obra de Ruth Asawa (1926–2013) …

Reflexo

Carlos Garaicoa

Toda utopía pasa por la barriga, 2024

“Toda utopía pasa por la barriga é uma instalação na qual trabalhei de 2008 …

Reflexo

MAHKU

Por Bane Huni Kuin
 

NA HENEWAKAMÊ

NA HENEWAKAMÊ representa a música da nixi pae (ayawasca). Para mim, ela é importante, pois representa …

Reflexo

MARILÁ DARDOT

O livro de areia

“Quando eu era estudante de artes na Escola Guignard, a Piti (Maria Angélica Melendi) nos deu como …

Panorama

BEATRIZ GONZALEZ

A artista colombiana Beatriz Gonzalez nasceu em Bucaramanga, Colômbia, em 1938. Iniciou seus estudos em arquitetura, mas os abandonou para …

Destaque

KERRY JAMES MARSHALL

A prática de Kerry James Marshall é fundamentada em um profundo envolvimento com as histórias da arte. Ele reimagina e …

Do mundo

KIRCHNER

KIRCHNER X KIRCHNER: COLORIDO, POTENTE, PIONEIRO

Quando Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) emigrou para a Suíça, em 1917, encontrava-se em má condição …

Capa

ÉDOUARD MANET

ÉDOUARD MANET: O REBELDE ELEGANTE QUE REINVENTOU A PINTURA MODERNA

Édouard Manet (1832-1883) foi, antes de tudo, um homem de Paris …

Reflexo

ANDRÉ GRIFFO

Sala dos provedores, 2018
“Nesta obra, tomo como ponto de partida o interior da Santa Casa de Misericórdia do Rio de …

Garimpo

FELIPPE MORAES

“Esses trabalhos compreendem a música brasileira e, mais especificamente, o samba, como um saber ancestral disseminado pelo mundo. Recorro a …