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DASARTES 53 /

Los Carpinteros

Para a sessão REFLEXO, os cubanos Los Carpinteros falam em detalhes sobre quatro de suas obras que estão no Brasil para a mostra itinerante “Objeto Vital” em cartaz pelo CCBB nas principais capitais.

Marco Antonio Castillo Valdes e Dagoberto Rodríguez Sánchez falam em detalhes sobre quatro de suas obras que estão no Brasil para a mostra itinerante “Objeto Vital” em cartaz pelo CCBB nas principais capitais.

Dos Pesos

M: “Dos Pesos (Dois Pesos) resume um pouco a filosofia do início da nossa união, que se baseava em duas fontes fundamentais: por um lado, o trabalho da carpintaria e da marcenaria e, por outro, a pintura como forma de documentação. Também um resgate de certas tradições artesanais ou trabalhos manuais e de insistir na construção e na produção do objeto. As pinturas descrevem o processo de produção das peças em madeira: a árvore era cortada, a madeira era derrubada, transportada… uma nota que fala de certos valores que eram importantes para nós e para nossa geração.

D: É a segunda versão de uma peça original que tinha em seu centro a imagem do Herói Nacional. Nós o colocávamos como se fosse uma espécie de peso, um estigma e, de alguma forma, como se a interpretação do assunto Martiano (referência a José Martí) fosse uma tragédia. Sobre a variante em exibição na mostra, interessava-nos, naquela época, documentar como produzíamos arte, e a documentação desse processo era realizada pelo Marco; foi nesse processo de colaboração que começamos a trabalhar juntos. Ah, outra história: a madeira usada era de uma mesa que “pegamos emprestada” até o dia de e quase nos expulsam da escola em virtude da brincadeira.

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D: Dentro da arte contemporânea, muitos artistas trabalharam a impressão humana partindo da forma de um pé, das mãos, ou de qualquer parte do corpo; mas para nós era muito mais interessante a pegada calçada, como segunda pele. Esse pequeno ensaio foi o pontapé para uma grande série de obras de piscinas que fizemos entre 2003 e 2004, em uma extensa colaboração com o Brasil. Fabricavamos quase tudo aí.

M: E pensando no que as piscinas significam para nós: o governo cubano não aceita que as pessoas tenham piscinas. Você pode ser perseguido e perder sua casa se constrói uma. Algumas pessoas dizem que é para economizar água, outras, que que não é visto com bons olhos que as pessoas tenham piscinas em um país socialista; fala-se de tudo, mas realmente não se entende por que o Governo se revolta contra um direito tão elementar, ainda mais em um país tão quente e tropical. Cuba pede piscina!

Por outro lado, todos nós somos filhos de operários, camponeses. Somos, digamos, o tipo de gente que ficou em Cuba. O outro tipo de gente foi embora. Eles representavam uma classe social que tinha piscinas e a suposta classe operária e camponesa que herdou Cuba começou a morar em suas casas. Assim, de repente, não sabiam o que fazer com aquelas piscinas. Na da minha casa, os donos anteriores criavam patos. Quando as casas eram divididas, tinham que dividir a piscina também e, claro, uma família podia encher a piscina com água e a outra não. As piscinas começaram a gerar uma série de conexões muito interesantes. Também jogam com a questão da posse legal. A pessoas de outros países, elas respondem a questões diferentes das nossas e pareceu-nos muito interessante utilizá-las como motivo de discurso.

Sala de Lectura

D: As “Salas de Lectura” (Salas de Leitura) são bibliotecas. Uma combinação de edifícios panópticos com livreiros. Nas primeiras, tratamos de nos ajustar ao modelo, que era o “Presídio Modelo de Cuba”: uma prisão panóptica, construída pelo governo de Machado, em 1920. Com o tempo, fomos variando a forma do panóptico, seguindo a mesma ideia de Jeremy Bentham, onde uma pessoa, do centro, podia controlar o espaço circundante; é oferecida uma disposição científica do espaço onde se cria uma espécie de “reality show”.  Isso foi mudando muito ao longo dos anos e temos uma série extensa de “Salas de Lectura” com diversas formas, algumas mais simbólicas, outras levando em conta edifícios existentes, umas utilitárias.

M: Conseguimos realizar nas “Salas de Lectura” um velho objetivo nosso: a escultura não se encontra no papel preponderante e egocêntrico onde normalmente está a obra de arte. Dessa vez, ela pretende oferecer um serviço. Em “Yelmo” (2014) que está em Essen, ela continha toda uma coleção de arte arqueológica e antropológica pertencente ao museu. “The Globe” (2014), do Victoria & Albert Museum, ajuda a dar palestras e concertos.

D: Há algo fascinante na estrela de oito pontas e foi extensamente usada pela arte islâmica para suas decorações nos tetos, que sempre tem relação com a reprodução da cúpula celeste. Pode-se observar esse mesmo efeito olhando para essa peça, tanto de baixo como de cima.

M: A religiosidade também é uma espécie de panóptico porque o indivíduo se sente sempre observado por um Deus. O panoptismo é algo que se reflete de muitas maneiras. Nesse caso religioso, é de uma maneira mais subjetiva; porém, no caso da internet, por exemplo, o panoptismo é mais concreto: não é apenas que alguém se sinta vigiado, mas que verdadeiramente está sendo vigiado e controlado.

El pueblo se equivoca

D: “O povo se equivoca” é uma frase famosa de Fidel Castro. Dizia que era necessário educar o povo e nos pareceu tremendamente explícita essa frase sendo dita por ele. Tem muita verdade: “o povo se equivoca” e nós vivemos equivocados com ele. Quisemos fazer a frase em um edifício de maneira que não fosse um grafite, mas que funcionasse como parte da estrutura. Ou seja, a luz, a entrada e a saída desse edifício têm que ser através da frase. Parte da estrutura porque é parte da filosofia com a qual temos sido governados.

M: E não há melhor forma de perpetuar esse tipo de ideia do que na arquitetura. O que é feito na arquitetura de alguma forma se perpetua.

D: Essa peça continua sendo um projeto para realizar no futuro. Pensamos na possibilidade de construí-la em um galpão completo.

 

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