Foto: Edouard Fraipont

DASARTES 93 /

Leonor Antunes

As obras da artista portuguesa LEONOR ANTUNES, em exposição monográfica no MASP, estabelecem relações entre a escultura, a arquitetura, o design, a luz, e o corpo – do espectador que trafega pela galeria ou do ambiente que a artista ocupa. Por Amanda Carneiro.

Os trabalhos de Leonor Antunes, definidos por ela mesma como “esculturas criadas no espaço”, são extraordinários em seus resultados visuais porque combinam uma execução primorosa das peças, ora maleáveis, ora rígidas, à textura de diferentes materiais e superfícies, como o uso inteligente da luz e da sombra, da opacidade e da transparência, das diferentes medidas, escalas e maneiras de expor, que, calculadas com precisão pela artista, promovem uma experiência singular e direcionada do corpo no espaço. Por outro lado, não se furtam a estabelecer e explicitar relações com o vocabulário e a linguagem de outras produções artísticas, em especial aquelas conectadas a práticas vernaculares.

Bienal de Veneza, 2017
Foto: Nick Ash.

No Museu de Arte de São Paulo Assis Chateubriand (MASP), Antunes reforça seu diálogo e pesquisa pelos “vazios, intervalos e juntas” da arquitetura de Lina Bo Bardi (1914-1992), produzindo especialmente para a exposição que acontece simultaneamente em duas de suas construções icônicas: o edifício do MASP e a Casa de Vidro. Nota-se, por meio do título da mostra, que a artista intenciona retraçar as práticas de Bo Bardi com relação à materialidade (e à disposição no espaço), bem como ao conteúdo simbólico que estas mobilizam, investigando a maneira como aspectos arquitetônicos impactam a experiência de quem utiliza o espaço, e abrindo a percepção para conotações cotidianas e mesmo não artísticas. Situar a produção de Antunes em relação a Bo Bardi equivale a posicionar o exercício artístico em uma perspectiva de presentificação histórica do passado, na qual o instrumento e a medida da interação entre arte e arquitetura valorizam os saberes anteriormente constituídos. Isso leva em consideração a correlação de indivíduo, tempo e espaço, em uma dedicada colaboração com os materiais, a qual recai mais sobre os aspectos e inspirações ditas populares do que sobre o seu contrário canônico. Por isso as retomadas de Anni Albers (1899-1994), Clara Porset (1895-1981), Egle Trincanato (1910-1988), Ruth Asawa (1923-2013) e da própria Bo Bardi são tão indiciárias, já que todas essas artistas apostaram em um modernismo articulado a saberes e práticas artesanais.

Vista da exposição no MASP, 2019/2020.

Em caipiras, capiau, pau a pique (2019), por exemplo, a artista referencia a exposição de mesmo nome realizada por Bo Bardi no Sesc Pompeia. “Caipiras” e “capiaus” são alcunhas dadas a pessoas que vivem em zonas rurais; “pau a pique” é uma base vernacular de construção, feita a partir do entrelaçamento de madeiras verticais e vigas horizontais preenchidas com barro. Em desenho de Bo Bardi para essa exposição, a arquiteta chama atenção para que os objetos não sejam expostos “como peças folclóricas”, tensionando os limites entre o saber formal e o não formal. A mostra é então recodificada por Leonor nesse trabalho, que, apesar de ser constituído por um material industrial, é revestido por um pó natural que dá coloração às peças. Suas medidas foram calculadas a partir da altura de Lina Bo Bardi, revelando a preocupação de Antunes em dotar o espaço de dimensões e esquemas corporais como parte da experiência no ambiente, como se não houvesse espaço que não estivesse relacionado à imagem, mesmo que inconsciente, do sujeito que o experimenta.

Resonating Spaces na Fondation Beyeler, Basel, Suiça, 2019.

Antunes parece operar uma destilação formal das proposições da arquitetura, da arte e do design modernos, por meio de alguns princípios básicos, como a aposta nos materiais e na abstração como lugar central para o tratamento dos intercâmbios entre gerações e disciplinas ao longo do século 20. Em um primeiro momento, Leonor Antunes semelha abordar pontos eclipsados e menos aparentes da prática dessas arquitetas e artistas que, quando analisadas em conjunto, revelam um interesse axiomático da artista por aquilo de vernacular e orgânico que o trabalho de cada uma delas contém como ponto de partida. Esse procedimento de mediação entre gerações e fazeres é tanto linear quanto cíclico, buscando ligação e não separação porque revela e enriquece uma tradição de ofício que, no trabalho de Antunes, é incorporado à sua arte, iluminando retrospectivamente características radicais e singulares da atuação dessas que são suas referências.

The Pliable Plan , 2015. CAPC musée d’art contemporain de Bordeaux, França.
Foto: Arthur Pequin e D. Deval

Os trabalhos abstratos de Antunes reconectam a imaginação à materialidade e à sua dimensão artesanal, fazendo com que os processos de criação surjam à consciência. Nas esculturas, a matéria-prima e o resultado final apontam tanto para a colaboração com o material quanto para processos de pesquisa e realização de outros artistas.

Exposição Raumplan na Galeria Luisa Strina, 2013. Foto: Edouard Fraipont.

Contudo, não se deve confundir esse processo como algo linear, claramente divisível. Em vez disso, tais processos se constituem também pelo reconhecimento ou preenchimento dos vazios, juntam referências de espaços-tempo distintos, encontram-se nos intervalos entre práticas reconhecidas e outras negligenciadas.

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