Sem título, 1986 Foto: Rômulo Fialdini

DASARTES 82 /

Leonilson

Dasartes relembra a crítica de Guilherme Bueno, publicada por ocasião da última retrospectiva de LEONILSON, em São Paulo, e complementa-a com resenha de Rodrigo Qohen para nova mostra no Centrol Cultural FIESP.

Entender uma obra de José Leonilson (1957-1993) é observar seu todo. Como humano, como artista e entre os objetos que escoam de si. Olhar apenas para um fragmento do pintor é não fazer jus ao diálogo que ele estabelece consigo mesmo em múltiplas perspectivas, entre os símbolos que lhe orbitam e o que acontece com o mundo externo. É um artista de uma só época – Geração de 80 –, tão curta foi sua vida, mas que transborda para o futuro, até os dias de hoje.

Grande círculo do qual não podemos escapar, 1988

Uma das salas da exibição Leonilson: arquivo e memória vivos é dedicada às montanhas – com telas, desenhos e objetos tridimensionais. Ele, como um monte de boca aberta – ainda que seus desenhos de cabeças estivessem constantemente calados –, pronto para expelir com furor os (desa)bafos de uma digestão calorosa. Leonilson, mais do que montanha, era vulcão – nunca adormecido. O todo de seu trabalho é vivo. Pulsante, pungente e enigmático.Accurate work, it’s really a fantastic replica omega, thank you!
Primeiro porque é energético como a erupção vulcânica que usa da quentura para nos transbordar figuras. A essas, recorre a chaves em símbolos, sempre revividos, que partem de dentro para fora. São os caminhos, em corredeiras, que percorrem a psique do homem, e refletem através de uma cabeça aberta – ou furada – pelas pinceladas. Veja que os caminhos partem de uma abertura no crânio e não nos dentes, que são lineares e também labirínticos. São a corda do Teseu, que não permite que se perca. Estonteiam-nos, como público, com o uso de algumas palavras pontuais. Como se fossem estalos incandescentes, ou avisos de perigo a queimaduras.

Missing one friend, 1990

Conforme escoa, acumula resíduos a partir do movimento na base. Como se os pés cobertos por sal fossem afogados por algum oceano seco. Dá um sabor áspero à garganta, pois há sempre algo entalado. Como quem não poderia revelar – e, se dependesse dele, nunca o faria – a homossexualidade, com receio do mal entendimento de entes próximo. A pungência é da dor que vem do âmago, de questões de um mundo íntimo. Como a mensagem aos bloodsuckers – quando descobriu que tinha AIDS –, denunciados como sultões (sultan) de garotos ingênuos (os rapases/a poesia). Padres perversos, que tentam roubar a alma e o talento das flores a desabrochar.

Grande círculo do qual não podemos escapar, traz grafado “pedra peixe homem” no centro do círculo, como se fosse esse animal confinado no aquário, um escorpião cercado por chamas, cuja única saída é o veneno dentro de si mesmo. O bestiário é amansado pela consciência. Ele usa dos bichos como pets, ou criaturas que vemos no zoológico, vivendo uma proximidade distante. Como bichos-do-mato confinados na cidade, respirando fumaça, mas sonhando com a vegetação rara.

Sem titulo, 1992.

O enigma – aquecido em magma – vem do vórtex dos ícones. Mesmo quando recontava histórias, lembra uma ingenuidade áspera e onírica, como em Lewis Carrol, Antoine Saint-Exupéry, ou nas heroicas medievais, Leonilson o fez a partir de sua perspectiva individual. A maioria das insígnias retorna, e por isso a importância de observar o todo. Para encontrar a linha, é preciso mergulhar junto e se abrir a percepção do entorno. É andar duas vezes pelo espaço e revisitar.

Os rios por meu fluido entrego meu coração, 1990. Foto: Rômulo Fialdini.

 

Leonilson: arquivo e memória vivos • Centro Cultural FIESP • 19/2/2019 a 19/5/2019

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