DASARTES 92 /

Leonardo da Vinci

No Louvre, retrospectiva sem precedentes da carreira do pintor LEONARDO DA VINCI ilustra como ele deu maior importância à pintura e como sua investigação do mundo, que ele chamou de “a ciência da pintura”, foi o instrumento de sua arte, buscando nada menos que trazer vida às suas obras-primas.

POR ALECSANDRA MATIAS DE OLIVEIRA

No século 15, ou no quattrocento, como o chamam alguns historiadores, as cidades da Itália se organizaram como estados soberanos e independentes: eram repúblicas, ducados, marquesados, principados e senhorios, governados por famílias, como os Visconti, em Milão; os Médicis, em Florença; os Mantefeltro, em Urbino; os Bentivoglio, em Bolonha; os Este, em Ferrara, e os Gonzaga, em Mântua. Suas minúsculas cortes abarrotadas de filósofos, escritores e artistas se tornaram centros ativos de cultura. Viviam, entretanto, sob rivalidades econômicas, ambições políticas e permanentes batalhas armadas. Estavam entregues a condottieres e bandos mercenários.

Retrato de um jovem segurando uma partitura, conhecido como Le Musicien, 1483-1490.
Foto: © Veneranda Biblioteca Ambrosiana.

Uma das principais cidades-estados era Florença. Sua riqueza vinha da indústria dos tecidos e dos negócios bancários. Por todo o século, estava sob a égide da família Médici, antigos farmacêuticos, depois grandes banqueiros e comerciantes. Apesar de suas origens modestas, essa família tinha papel relevante na história da política e das artes, entre os seus membros mais ilustres, estavam: Cosimo de Médicis (1389-1464) e Lorenzo de Médicis (1448-1492). Cosimo era chamado de pai da Pátria, por sua esclarecida administração e amor às artes. Lorenzo se tornou protetor de Botticeli e Michelangelo; poeta inspirado, recebeu o título de “o Magnífico”, por sua visão política e o trato com os artistas.

Entre mecenas e artistas, destaca-se Leonardo da Vinci (1452-1519): arquiteto, mecânico, urbanista, engenheiro, fisiólogo, químico, escultor, botânico, geólogo, cartógrafo, físico, percursor da viação, da balística, da hidráulica, inventor do escafandro, paraquedas, isqueiro e pintor. Sua acuidade e versatilidade inauguraram o tempo “do homem como medida de todas as coisas”.

Santa Anna, a Virgem e o Menino Jesus , 1503-1519.
© RMN-Grand Palais (musée du Louvre) / René-Gabriel Ojéda.

Reconhecido como genial por seus contemporâneos, suas ideias escritas de trás para frente e escondidas em cadernos de anotações quase não chegaram aos dias atuais. As cinco mil páginas que restam dos blocos de anotações de Da Vinci contêm pesquisas em anatomia, mecânica, hidráulica e uma ampla gama de outras ciências. Os blocos de anotações descrevem muitos esquemas de engenharia civil e projetos de uma enorme variedade de dispositivos mecânicos – um helicóptero, uma bicicleta, uma máquina de cunhar moedas e uma grua com articulação. Algumas dessas máquinas estão muitos anos à frente de seu tempo e nunca foram fabricadas, mas outros projetos são de enorme significado, como o canal de comportas herméticas em forma de mitra, ainda em uso atualmente, e o mecanismo de meia engrenagem para converter movimento rotatório em movimento recíproco (vai-e-vem), que foi largamente usado no decorrer do século 15.

Como pintor, sua listagem de obras é, de modo geral, pequena – a maioria são atribuições e poucas têm a certeza de que são exclusivamente do artista – entre elas, obras-primas, tais como: a Mona Lisa ou Gioconda (1503-1507), a pintura mais famosa do mundo e, a Última Ceia (1495-1498), a mais reproduzida na história da arte. Discípulo de Verrochio, em Florença, o percurso de Da Vinci passou por ser artista e consultor técnico do duque de Milão, engenheiro militar de César Bórgia, além de pintor e arquiteto do rei Francisco I, da França.

São Jerônimo penitente (1480-1490).
Foto: © Governatorate of the Vatican City State – Vatican Museums. All rights reserved.

Seu “fazer arte”, ou seja, o método de Leonardo para esboçar composições, é amplamente estudado por historiadores e pesquisadores de diversas disciplinas. Isso porque o estilo inovador de Leonardo se difere do procedimento tradicional, seguido e aceito por artistas da mesma época. Leonardo não realizava uma obra pronta e acabada, mas desenvolvia um projeto, um esboço ou até mesmo um estudo da obra previamente.

Da Vinci rejeitou os traços definitivos e incentivava o emprego do rascunho. “Para ele, o esboço não era apenas o registro de uma inspiração, podendo também tornar-se a fonte de mais inspiração”, diz o historiador Ernst Gombrich, em seu livro Norma e forma. Isso, em termos práticos, é um rompimento com a tradição de Verocchio, que pregava o traço seguro e infalível, que prescinde de correção e reformulações.

Figura de estudo para a Batalha de Anghiari, 1504.
Foto: © Szépmuvészeti Múzeum – Museum of Fine Arts Budapest.

“Esboçai os retratos rapidamente, sem dar aos membros um acabamento excessivo: indicai a posição deles, que em seguida podereis desenvolver ‘à vontade’”, era a recomendação de Da Vinci a seus aprendizes. Talvez, esse método que privilegia o esboço possa ser atribuído à sua formação, uma vez que Leonardo, sendo filho ilegítimo de Ser Piero (um ilustre senhor) e uma camponesa do povoado de Vinci, recebeu educação considerada até mesmo deficiente para os padrões de uma pessoa letrada. Assim sendo, Da Vinci era essencialmente prático, aliando sua forma de refletir e agir à corrente aristotélica e, dessa forma, entrava em franco desacordo com correntes que defendiam o platonismo – tão vigoroso à época.

Mesmo assim, Leonardo era um homem de seu tempo. Nele, coabitavam valores medievais e renascentistas: ruptura e permanência emanadas em somente uma forma de conceber o mundo. Exemplo disso era sua afinidade com o fantástico e o místico, mas, ao mesmo tempo exercia de modo sistemático e com certo “rigor científico” observações sobre os fenômenos naturais, muitas vezes fornecendo respostas racionais às coisas que antes eram atribuídas à magia.

Cortinas Saint-Morys. Figura sentada, 1475-1482.
Foto: © RMN-Grand Palais (musée du Louvre) / Michel Urtado.

Para Da Vinci, arte e ciência tinham métodos e processos semelhantes – todos dependem do inquérito do olhar. A criatividade é a chave para as duas formas do Saber. Ambas podem descobrir “novos mundos”, criar e ampliar fronteiras de conhecimento e de autoconhecimento, pois, quando há uma “descoberta” sobre a natureza, o homem acaba por conhecer sua própria essência.

Por último, é muito importante ter em mente que a distinção contemporânea entre arte e ciência é ininteligível para Leonardo. Essa distinção sequer existiria na época na qual a “medicina” ou a caça eram consideradas uma “arte” e a pintura ou a escultura poderiam ser chamadas de “ciência”. Evidentemente, dentro das convenções renascentistas da pintura, qualquer ampliação da liberdade de criação que se chama de “arte” exigia uma igual intensidade dos estudos que, hoje, designamos como “científicos”. Por esses e outros aspectos, os 500 anos de genialidade de Leonardo da Vinci estão sendo celebrados aqui, no Brasil, e diversas outras partes do mundo. São lições que rememoram o espírito de um tempo.

LEONARDO DA VINCI: A EXPOSIÇÃO
POR LEONARDO IVO

São João Batista, 1508-1519.
Foto: © RMN-Grand Palais
(musée du Louvre) / Michel Urtado.

Para marcar o aniversário de 500 anos de morte do ilustre Leonardo Da Vinci, o Museu do Louvre organiza uma exposição que pretende ser o acontecimento cultural mais importante deste final de década. Sob a curadoria de Vincent Delieuvin, conservador chefe do departamento de pintura do museu, e de Louis Frank, conservador chefe do departamento de artes gráficas do mesmo museu, a exposição foi idealizada para atingir o grande público, porém, a complexa e extensa obra de Leonardo não permite deixar de lado os aspectos científicos, técnicos e históricos, dignos de um público especializado.

As primeiras obras da exposição são estudos de drapeados. Figuram desenhos atribuídos a Andrea Verrocchio (1434/37 ? – 1488) e a Leonardo. Contudo, paira sempre a dúvida sobre a verdadeira mão que os fez. Isso mostra como a presença de um jovem Da Vinci no ateliê do grande mestre da escultura italiana foi determinante para ele. Paralelos são encontrados entre esses desenhos e a escultura de Cristo e São-Tomás, produzida para a igreja florentina de Orsanmichele, entre 1467 e 1483, os detalhes de diferentes drapeados foram copiados diretamente sobre a estátua, mas também de outras obras de Verrocchio, como O batizado do Cristo (1468-78; Uffizi). Esse contato com o homem comparável a Donatello será determinante para o pensamento do futuro mestre das ciências artísticas.

Cabeça de uma jovem conhecida
como La Scapiliata (“L’Echevelée”), 1501-1510.
Foto: © Licensed by the Ministero per i beni e le
attività culturali – Complesso Monumentale della
PilottaGalleria Nazionale di Parma.

Depois da morte de Donatello, em 1466, Verrocchio se tornou o escultor da família Médici. A importância dessa família durante o Quattrocento já foi explicada por Alecsandra Matias De Oliveira. Nesse contexto da primeira Renascença italiana, os temas religiosos e da antiguidade grega e romana são apenas um pretexto para o gênio artístico de Leonardo, que desenvolve a perspectiva atmosférica junto ao sfumato, um processo pictórico ligado à impressão naturalista da representação artística que borra ligeiramente os rostos de suas figuras para lhes dar vida. Que seja a Mona Lisa ou Santa Anna, a Virgem e o Menino Jesus (1503-1519), que será o foco principal da equivocada análise de Sigmund Freud sobre a homossexualidade de Leonardo, a impressão de realidade e vida que emerge das figuras é uma maneira de o artista elevar tecnicamente a arte da pintura. Os vários estudos da figura de Santa Anna mostram com qual cuidado Leonardo elaborou a composição de uma tela que levou mais de 15 anos para ser concluída.

Isso nos leva a outra característica da obra do mestre: Leonardo começava muitas obras, mas acabava poucas. De fato, a famosa Batalha de Anghiari, encomendada ao mestre em 1503, foi vítima de defeitos técnicos de reboco, mas também do preparo de cores que não aderiram à superfície da parede. Outro exemplo dessa peculiaridade da obra de Leonardo reside no famoso São Jerônimo penitente (1480-1482). Para tentar desvendar os mistérios da obra de Leonardo, o comitê científico do Louvre fez várias impressões em infravermelho, assim como análises químicas das inúmeras camadas de pintura a fim de estabelecer novas hipóteses de datação.

Vista da exposição
© Musée du Louvre – Antoine Mongodin

Porém, isso não deveria nos surpreender. Para Leonardo da Vinci, tudo parece ser cosa mentale; de fato, a exposição dá ênfase ao aspecto científico da obra de Leonardo. A curiosidade intelectual desse humanista fez com que ele se debruçasse sobre todos os segredos e entropias que nosso mundo podia lhe oferecer: arquitetura, ciências naturais, óticas, meteorológicas e biológicas. E como esquecer os estudos de armas mortais para os exércitos reais, de máquinas voadoras e até de leis universais da natureza, como a gravidade e a controversa teoria heliocêntrica do universo. Tais ideias não eram permitidas no mundo católico cujo universo gira em torno de Cristo e Deus, e, por isso, as anotações de Leonardo são escritas de cabeça para baixo; usando um espelho, podemos ler os pensamentos do mestre artista-mago-científico vanguardista que era Leonardo da Vinci.

E é claro que um homem como Leonardo faria escola na Itália. Seus desenhos preparatórios para Leda e o cisne mostram como artistas, entre eles, Giampetrino, aluno do mestre, ou o grande Raffael, se inspiraram em seu legado. A exposição nos apresenta também várias versões do Salvator Mundi, obra de autoria duvidosa que subverteu recentemente o mercado da arte. Três versões dessa obra, assim como dois desenhos da autoria de Leonardo, atestam que a composição foi inventada por ele. Porém não há qualquer certeza, e historiadores concordam sobre uma possível autoria de um aluno fiel ao mestre, que poderia ter realizado essa pintura sob seus conselhos.

Vista da exposição
© Musée du Louvre – Antoine Mongodin

Esgotada até o fim de sua exibição, a exposição do Louvre nos oferece um olhar quase onipotente da obra de Leonardo. Como enfatiza o diretor do departamento de Pinturas do museu, Sébastien Allard, o poder da imaginação do mestre italiano é o meio mais eficaz ao caminho da sabedoria: “Leonardo realizou o sonho da fusão entre arte e ciência, mas à sua maneira: como pintor.”

 

 

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