Nunca más - 2 Cardenal Antonio Quarracino (Foto Tony Valdez) + Jorge Videla, 2006. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca

DASARTES 90 /

León Ferrari

Pinacoteca celebra a verve crítica do artista argentino LEÓN FERRARI (1920-2013) em exposição inédita composta de 94 obras.

A obra de León Ferrari questiona, de modo contundente, qualquer tipo de repressão e cerceamento perpetrados por estruturas de poder. A violência do aparato do Estado e as ações normativas da Igreja Católica foram os alvos mais frequentes de sua verve crítica, ao longo de quase seis décadas de trajetória – embora também o sistema artístico e os cânones da disciplina História da Arte fossem objetos recorrentes de sua mira.

A produção de Ferrari surge em seu país natal, Argentina, no começo da década de 1960. Já em 1968, ele toma parte do Tucumán Arde, projeto que preconizava uma arte coletiva, social e revolucionária. Tal iniciativa envolveu: o contato de um grupo de artistas de Buenos Aires com habitantes e com representantes políticos de cidades do interior do país; a documentação da vida nessas regiões; e a organização de exposições, com documentos e registros desse conjunto de ações, não apenas em espaços culturais, mas também em sindicatos.

Nunca más – 42 Fragata Libertad + Massera (fotografia Secretaría Informaciones Públicas) + Noticias de los diarios: La Razón 6/9/76, La Opinión 25/5 y 11/5/76, y La Prensa
3/5/76, 2006. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca

O golpe militar de 1976, que deu início ao período da última ditadura argentina, motivou a transferência de León Ferrari e a família dele para São Paulo, onde logo se integrou ao circuito artístico local. Aqui, León estabeleceu relações profissionais e de amizade com artistas, historiadores e críticos de arte. Até 1991, quando regressou em definitivo para a capital argentina, León participou de diversas exposições ocorridas em São Paulo e logo consideradas importantes para o quadro de renovação das linguagens artísticas naquele período – a exemplo das mostras Gerox e Heliografia, ambas abrigadas pela Pinacoteca, respectivamente em 1980 e 1981.

Para esta mostra, a curadoria da Pinacoteca selecionou obras concebidas entre 1977 e 2001. Em geral, são colagens que resultam da manipulação de materiais da imprensa em circulação na época e reproduções de gravuras, recolhidas em livros de arte, história e publicações católicas. Os trabalhos reportam também, de maneira incisiva e ao mesmo tempo irreverente, a relações de proximidade entre lideranças e instituições políticas e religiosas, sobretudo na Argentina e na Europa, no curso do século 20.

L´Osservatore Romano – Preservativos, 2007. Foto: Isabella Matheus/Pinacoteca

Em julho de 1995, o periódico Página 12 publicava na Argentina o primeiro fascículo de Nunca más, uma edição especial que veiculava informes da publicação homônima, produzida pela Comisión Nacional sobre la Desaparición de las Personas (Conadep). Compilados em 1984 – um ano após o fim do último regime militar argentino – e 11 anos mais tarde divulgados no jornal, os informes traziam à público uma sucessão de violações dos direitos humanos; desta vez, acompanhados por um trabalho de colagens de León Ferrari. As páginas do periódico foram o primeiro destino da série aqui reproduzida, em que o artista trazia a público uma abordagem não só nova à trajetória de sua produção artística, mas também ao campo do debate político argentino, que cada vez mais clamava pela necessidade de reconstituir criticamente sua memória. Nesse momento inicial de reconstrução democrática, León Ferrari integrava um engajamento coletivo que revelava a imagem de uma Argentina cada vez mais invadida pela recordação de seus crimes. As ideias de violência e extermínio estão dispostas no centro da denúncia de Nunca más, abrindo espaço a uma associação entre diferentes momentos da história próprios a essa caracterização, como entre gravuras de Gustave Doré e a figura do ditador Jorge Videla.

Nunca más – 31 Escuela de Mecánica de la Armada + detalle del juicio final del Bosco, 2006
Foto: Isabella Matheus / Pinacoteca

Nesse contexto, o uso de imagens aparentemente controversas do imaginário argentino, como a sobreposição da silhueta de um desaparecido político sobre a bandeira do navio Fragata Libertad, evidencia uma verdadeira chamada à ação, no sentido de reconstruir e libertar uma história até então tida como instrumento de legitimação da repressão.

Em L’Osservatore Romano, periódico de circulação na comunidade eclesiástica da Cidade do Vaticano, confere título à série de colagens de León Ferrari aqui reproduzida. O jornal, utilizado como eixo condutor e suporte para as colagens, une dois dos principais agentes que compõem a trama da história desvelada por Ferrari: a Igreja Católica e a imprensa.

L´Osservatore Romano – Miniatura del siglo XIII, Biblioteca Nacional, Paris, 2007

Aqui, a literalidade, recorrente no trabalho de Ferrari, é apresentada pelo uso do jornal e suas manchetes, propondo um embate explícito entre trechos controversos da narrativa cristã ao longo de grande parte de sua história. O uso da fotografia e embalagens de preservativos leva ao limite esse contraste literal, acirrando a denúncia sobre o campo de ação e influência da Igreja Católica.

Em L’Osservatore Romano, a ideia de inferno, recorrentemente evocada no trabalho de Ferrari, é associada ao jogo político travado entre diferentes agentes históricos de repressão. A alusão a imagens do III Reich alemão ou a gravuras sobre o Tribunal da Santa Inquisição, interposta às declarações aparentemente conciliadoras das manchetes, representa o pivô daquilo que pode ser interpretado como tempos infernais do século 20: os períodos marcados pelo autoritarismo.

Nunca más – 15 “La estatua de la Libertad” de Dubourdieu + “Demonios torturando brujas” de Thomas Darling, 1597, 2006. Foto: Isabella Matheus / Pinacoteca

Para Ferrari, a relação íntima do Ocidente com uma violência dissimulada é um aspecto cultural determinante. Na série aqui apresentada, é possível observar uma enumeração de eventos históricos, caracterizados pelo artista como delitos do Processo Ocidental Cristão. Intercalam-se a estes uma sequência de representações da manifestação diabólica na narrativa bíblica, de maneira a delinear uma espécie de antologia da crueldade.

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