Bald Eagle, 1955. Na pág. anterior. Shattered Color, 1954, © The Pollock-Krasner Foundation. © 2017 Christie’s Images

DASARTES 100 (Edição Especial 12 anos) /

LEE KRASNER

MUSEU GUGGENHEIM BILBAO APRESENTA RETROSPECTIVA DEDICADA À ARTISTA NOVA-IORQUINA LEE KRASNER, UMA PIONEIRA DO EXPRESSIONISMO ABSTRATO. O PÚBLICO VERÁ A CONSTANTE REINVENÇÃO E EXPLORAÇÃO QUE CARACTERIZA A OBRA DA ARTISTA AO LONGO DE SUA CARREIRA DE CINQUENTA ANOS: DOS PRIMEIROS AUTORRETRATOS E DESENHOS DO NATURAL ÀS OBRAS EXUBERANTES E MONUMENTAIS DOS ANOS 1960

Sem titulo.

Bald Eagle, 1955. Na pág. anterior. Shattered Color, 1954, © The Pollock-Krasner Foundation. © 2017 Christie’s Images

Nascida no Brooklyn em uma família de imigrantes judeus ortodoxos, Lee Krasner decidiu ser artista aos 14 anos de idade. Após anos de esforço em sua formação artística, Lee se tornou referência e trunfo no incipiente Expressionismo Abstrato, movimento multifacetado que fez de Nova York o centro da arte do pós-guerra.
Em 1942, a obra da artista foi incluída na exposição de pinturas americanas e francesas realizada na galeria McMillen Inc., juntamente com a dos amigos Willem de Kooning e Stuart Davis. O único dos artistas participantes dessa exposição que Lee não conhecia era Jackson Pollock, a quem visitou seu estúdio e com quem se casou em 1945.

Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Lee Krasner rejeitou a ideia de elaborar uma “assinatura icônica”, algo que lhe parecia muito rígido. A artista trabalhava em ciclos e buscava continuamente novos meios de expressão autêntica, mesmo em seus momentos mais difíceis, como aquele que se seguiu à morte repentina de Pollock, em um acidente de carro, em 1956.

Depois da morte de vários entes queridos nos anos 1950, e após um período de luto com uma produção em tons ocres, nos anos 1960, Lee permitiu que a luz e a cor explodissem novamente em sua pintura.

DE LENA A LEE

O nome original da artista é Lena Krassner, mas, em 1922, ela adotou o nome mais americano “Lenore”, que, por sua vez, se tornou “Lee” quando ela estudou na Cooper Union Women’s Art School. Desse período inicial, há três autorretratos. Um deles pintou no verão de 1928, na casa de seus pais em Greenlawn, Long Island, para o qual pregou um espelho em uma árvore no jardim e capturou a própria imagem em um fundo arborizado.

Aos 19 anos, graduada, e depois de um breve período na Art Students League, preparou-se para ingressar na prestigiosa National Academy of Design, na esperança de que seu Autorretrato, c. 1928 permitisse o acesso à aula de desenho natural. Embora, em princípio, a academia se recusasse a acreditar que o retrato foi feito no jardim, considerando que era um retrato de interior com a floresta adicionada posteriormente, Lee protestou e conseguiu a admissão. Na Academia, a artista lutaria contra sua abordagem tradicional e criticaria seu “ambiente estéril e fechado de […] mediocridade”.

Self-Portrait, c. 1928. © The Pollock-Krasner Foundation. Courtesy the Jewish Museum, New York

DESENHOS DO NATURAL

A Grande Depressão da década de 1930 forçou Lee Krasner a deixar a National Academy e se matricular em um curso de ensino no City College de Nova York, onde o treinamento era gratuito. Paralelamente, passou a frequentar aulas de desenho vivo, inspirados em “mestres” renascentistas como Michelangelo. Os quatro Estudo de Nu (1933) mostram a desinibição da artista em relação à nudez, que usava carvão para sublinhar a musculatura do corpo do modelo.

Em 1937, obteve uma bolsa para estudar na Escola Hans Hofmann. Hofmann foi um modernista alemão que viveu e trabalhou em Paris e conheceu Picasso e Matisse, que para Lee eram “deuses”. Os desenhos dessa época mostram as primeiras incursões da pintora na abstração.

VITRINES PARA O SERVIÇO DE GUERRA

Após a crise econômica de 1929, o presidente Franklin D. Roosevelt lançou uma série de programas para reconstruir a economia americana. Em 1935, ele criou a Works Progress Administration (WPA) e o Federal Art Project (FAP), que ofereceram apoio a artistas e financiaram projetos. Ao longo da década de 1930, Lee colaborou em alguns deles e, em 1942, foi contratada para supervisionar o projeto e a montagem de vinte vitrines de lojas de departamentos em Manhattan e Brooklyn, anunciando cursos de treinamento para a guerra. A artista conheceu Jackson Pollock e o designou para sua equipe de projeto. Lee decidiu fotografar os cursos e integrar as imagens em seus designs, juntamente com uma tipografia dinâmica e referências abstratas que sugerem seus interesses artísticos.

PEQUENAS IMAGENS

No outono de 1945, Krasner se mudou para Palm Springs, em uma fazenda adquirida graças ao apoio financeiro de Peggy Guggenheim a Pollock, em um momento em que estava superando um impasse artístico: a morte do pai dela no ano anterior a impedia de pintar outra coisa senão o que ela chama de suas “placas cinzentas”. Logo, essa imersão na natureza deu origem a um novo tipo de iconografia e a artista começou a trabalhar em suas “Pequenas imagens”, que são abstrações vibrantes, como joias. Em algumas delas, aplicava camadas densas de tinta com uma espátula, que depois trabalhava com pincel duro, enquanto em outros criou uma trama de arabescos com tinta rebaixada com aguarrás. Exemplos dessas obras são Cor quebrada (1947), Abstração nº 2 (1947) e Sem título (1947).

Abstract nº 2, 1947. © The Pollock-Krasner Foundation.

STABLE GALLERY

Depois de suas “Pequenas imagens”, em 1950, Lee Krasner começou a trabalhar em sua primeira exposição individual, inaugurada na Galeria Betty Parsons em outubro de 1951. Para a ocasião, criou 14 trabalhos abstratos geométricos, em cores suaves e luminosas. Receberam boas críticas, mas não foram vendidos. Decepcionada, a artista começou a trabalhar uma série de desenhos em preto e branco, que pregava nas paredes do estúdio do chão ao teto, na esperança de surgirem uma nova orientação. Um dia, ela entrou no estúdio, decidiu que “não os aguentava” e os quebrou. Incapaz de voltar ao estúdio por várias semanas, quando o fez, ela descobriu, para surpresa dela, que havia “um monte de coisas que estavam começando a me interessar”.

Os restos de papéis rasgados foram o ponto de partida para uma série de colagens, que ela montou em 12 das telas da exposição de Betty Parsons Gallery. Ela incorporou folhas secas, pedaços rasgados de jornal e papel fotográfico, bem como alguns dos desenhos de Pollock que ele descartou, adicionando algumas pinceladas de tinta. Todas essas grandes obras, como Luz estilhaçada (1954), Conversa de pássaro (1955), Águia careca e Serralha (1955) foram expostas em setembro de 1955, na Stable Gallery, de Eleanor Ward.

lee-krasner-blue-level-1955

Desert Moon, 1955

PROFECIA

No verão de 1956, em um momento complicado em seu relacionamento com Pollock, Krasner pintou Profecia, uma obra que não se assemelhava a nenhuma das anteriores, e na qual as formas onduladas e carnudas dominam, emoldurada em preto e com toques de rosa que marcam a iconografia corporal. A própria artista comentou que a pintura “a perturbava muito” e permaneceu no cavalete quando ela partiu sozinha em viagem à França. Em 12 de agosto, ela recebeu um telefonema informando que Pollock morrera em um acidente de trânsito. Algumas semanas depois, Lee pegou os pincéis e criou três trabalhos que deram continuidade à série: Nascimento, Abraço e Três em Dois. Essas telas parecem ser paisagens agitadas por forças psicológicas sombrias. Questionada sobre sua decisão de começar a pintar em meio à dor, as palavras da artista foram: “Pintar não é algo estranho à vida. É a mesma coisa. É como se me perguntassem se quero viver. Minha resposta é sim, e é por isso que pinto”.

Profechy, 1956

VIAGENS NOTURNAS

Em 1957, Lee decidiu se mudar para o estúdio de Pollock no celeiro de Springs, o que lhe permitiu trabalhar em obras de dimensões até então implantáveis, pregando as telas sem moldura diretamente na parede. Por sofrer de insônia crônica na época, ela trabalhou à noite e decidiu restringir sua paleta ao branco e à terra torrada, já que não gostava de aplicar cor com luz artificial. A escolha do tom terroso umbra conferiu às obras dela um carácter orgânico, enquanto as finas camadas de tinta fazem com que se mantenha fiel ao seu “impulso original”.

Seu amigo, o poeta Richard Howard, batizou essas obras de Viagens Noturnas, e a própria Lee explicou que alguns títulos, como Ataque ao plexo solar (1961), eram “embaraçosamente realistas […]. Tive um desentendimento com o Greenberg, minha mãe tinha morrido […]. Foi um momento muito difícil”. O choque a que se refere se deveu à decisão do influente crítico de arte, Clement Greenberg, de cancelar uma exposição de Lee ele que estava organizando por não gostar da direção que a pintura dela tomou. Em vez de abandonar a série, a pintora se lançou ao público e expôs as obras resultantes na Howard Wise Gallery, em 1960 e 1962, tendo uma recepção notável.

Assault on the Solar
Plexus, 1961. © The Pollock-Krasner Foundation.

SÉRIE PRIMÁRIA

No início dos anos 1960, Lee permitiu que as cores brilhassem novamente em suas pinturas. Como em suas Viagens Noturnas, Outra Tormenta (1963) tem uma paleta reduzida, mas a cor umbra deu lugar a um carmim alizarina mais brilhante. Quando a pintora quebrou o braço direito, aprendeu a manusear a mão esquerda, aplicando tinta diretamente do tubo e usando os dedos da mão direita para direcionar os movimentos. Desse modo, criou obras mais táteis, como Através do Azul (1963) e Ícaro, (1964). Nos anos seguintes, o gesto de Lee se tornou mais solto, mais caligráfico, com formas ousadas em tons dissonantes.

Another Storm, 1963.

As cores que Lee usou nessa série são exuberantes, referindo-se a Matisse, seu herói artístico, que havia declarado que, “com a cor, você obtém uma energia que se diria que vem da bruxaria”. A confiança que a artista demonstrou nessa época talvez se deva à exposição individual organizada pelo curador Bryan Robertson, na Whitechapel Gallery, de Londres, em 1965. Foi a primeira exposição dela em instituição pública e recebeu críticas muito positivas.

PALINGÊNESIS

No início dos anos 1970, Lee evoluiu das formas biomórficas suaves de seus trabalhos posteriores para composições abstratas com mais elementos recortados. Ganhou reputação como colorista com a exposição de 1955 na Stable Gallery, e sua mais recente Série Primária, mas, nesse momento, seu trabalho tinha uma energia mais descontraída. Como a historiadora da arte Cindy Nemser observou, essas novas pinturas parecem ser “expansivas, embora contidas […] nobres e lentas”.

Apresentadas pela primeira vez na Marlborough-Gerson Gallery, as pinturas ocuparam lugar de destaque na exposição Lee Krasner: Pinturas de grande formato, com curadoria de Marcia Tucker, e realizada no Whitney Museum of American Art, em 1973; foi a primeira grande individual de seu trabalho em uma instituição pública em Nova York, sua cidade natal. As pinturas atestam a força criativa de Lee, mesmo no último estágio de sua carreira. Palingênesis (1971) leva o título da palavra grega que significa “renascer”, conceito fundamental na prática da artista. Como ela explicou em entrevista à curadora Barbara Rose, “evolução, crescimento e mudança continuam. Mudança é vida”.

Palingenesis, 1971
© The Pollock-Krasner Foundation

ONZE MANEIRAS

Em 1974, Lee Krasner encontrou uma velha pasta com desenhos feitos por ela quando estudava na escola de Hans Hofmann, e decidiu usá-los como matéria-prima para uma nova série de colagens. Elas foram exibidas na Pace Gallery, em 1977, sob o título coletivo Onze maneiras de usar as palavras para ver, com cada obra intitulada com uma forma verbal diferente, como Passado Imperfeito de Indicativo, Imperativo e Futuro Indicativo. Numerosas críticas enfocaram o uso engenhoso de uma obra anterior com tamanha carga emocional, e a Art in America comentou que “a energia [dos desenhos] é recarregada pela energia desse retrabalho, que, por um lado, os idolatra, como tantos outros troféus, e, por outro lado, os rejeita como parte de um passado medíocre.”

Lee Krasner faleceu em 19 de junho de 1984, recebendo no final de sua vida o reconhecimento que tanto merecia. No entanto, ela própria admitiu que, em certos aspectos, o fato de ter sido ignorada foi uma “bênção”. Livre de grande pressão crítica e do controle de uma camarilha de negociantes e colecionadores, Lee criou as obras que se viu impulsionada a fazer, fluindo como ela desejava a cada nova fase, nunca sendo forçada a se repetir.

 

 

Lucía Aguirre é historiadora de arte, curadora do
Guggenheim Museum Bilbao e técnica gestora de
Museus e Pinacotecas na Italia.

LEE KRASNER: LIVING COLOUR • GUGGENHEIM
MUSEUM BILBAO • ESPANHA • 18/9/2020 A 10/01/2021

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