The End, 2006. Courtesy Kris Martin.

DASARTES 103 /

KRIS MARTIN

KRIS MARTIN CRIA IMAGENS A PARTIR DE OBJETOS QUE LEVANTAM QUESTÕES SOBRE CONCEITOS COMO TRANSITORIEDADE, IDENTIDADE E MORTE. DENTRO DE TEMAS QUE PERCORREM A HISTÓRIA DA ARTE HÁ SÉCULOS, O ARTISTA BELGA ENTRELAÇA LITERATURA E MITOS EM SEU TRABALHO   Quanto vale um minuto de silêncio para uma sociedade frenética? Em 2007, Kris Martin conseguiu silenciar […]

KRIS MARTIN CRIA IMAGENS A PARTIR DE OBJETOS QUE LEVANTAM QUESTÕES SOBRE CONCEITOS COMO TRANSITORIEDADE, IDENTIDADE E MORTE. DENTRO DE TEMAS QUE PERCORREM A HISTÓRIA DA ARTE HÁ SÉCULOS, O ARTISTA BELGA ENTRELAÇA LITERATURA E MITOS EM SEU TRABALHO

 

Quanto vale um minuto de silêncio para uma sociedade frenética? Em 2007, Kris Martin conseguiu silenciar a Frieze Art Fair de Londres, uma das feiras de arte contemporânea mais badaladas do mundo. Visitantes e galeristas se entreolharam quando uma voz feminina deu o comando no sistema de autofalante. O artista belga de 48 anos é sempre bem-sucedido quando se trata de provocar um momento raro e precioso de reflexão pessoal ao espectador, com absoluta simplicidade de método. “Um minuto de silêncio sem motivo. Para ninguém. Por nada. Só um minuto para você. Um minuto para ganhar ou perder, para desperdiçar ou usar. Depende de você”. Estar presente. Um desafio caro à modernidade.

T.Y.F.F.S.H., 2009. Courtesy Kris Martin. Photo MCA Chicago

Para quem ainda tem dificuldade em se despir do preconceito e sair da caixinha da pintura de cavalete, encontra aqui mais uma oportunidade de desviar seriamente do convencional na arte. Martin ressignifica a identidade de materiais e objetos familiares do cotidiano com um vasto vocabulário simbólico. Suas intervenções engenhosas criam novos espaços de investigação para os bons e velhos dilemas da existência humana: o tempo, a vida e a morte. É bem verdade que essas questões permeiam a arte e angustiam a humanidade há séculos – e, nesse ponto, não há ineditismo –, mas ele garante ao menos o convite para a construção de um novo olhar sobre o que você, talvez até pretensiosamente, acreditava que já sabia. Um olhar mais poético e não tão sério quanto o que estamos acostumados a destinar à nossa finitude.

Bee, 2009. Foto: Dirk Pauwels.

Como um bom filho que à casa torna, é na Bélgica, em Gante, no museu S.M.A.K., que acontece a primeira retrospectiva do artista, EXIT, com alguns dos mais significativos trabalhos produzidos ao longo dos seus 20 anos de carreira. Aqui, um alerta: a data das obras pode causar surpresa. As provocações de Martin vestem tão sob medida o momento de hoje que parecem ter sido produzidas nos últimos meses ou semanas. É certo que as noções de impermanência, transitoriedade e vulnerabilidade da existência no planeta nunca estiveram tão escancaradas, mas é de muito antes o esforço do artista para mostrar como são ingênuas as nossas aspirações de longevidade. Por meio de instalações e esculturas com forte poder visual, ele nos coloca frente à incerteza da vida. Mas, ao contrário do que se poderia pensar, o desconforto desse encontro não o deprimirá e pode até ser que lhe arranque um sorriso. Em tempos de crise, talvez seja exatamente o que precisamos.

Mandi VIII, 2006. Courtesy Kris Martin. Foto: Sara Deal

O título EXIT, além de brincar com o retorno de Martin à sua terra natal após 20 anos, esconde outra aparente (e excelente!) contradição: entre para sair. Assim como o artista, que pensa profundamente e faz do seu cérebro o estúdio, reflita para além da imagem, desafie-se. É um processo transformador e tocante. Em Bee (2009), como alegoria da crise ambiental, o visitante observa o cadáver de uma pequenina abelha de ouro de barriga para cima. Já em 100 Years (2004), Martin apresenta uma esfera de aço dourada preparada para detonar cem anos depois, em 2104. Ainda restam 84 anos ao cronômetro interno. Em Festum II (2010), milhares de confetes de bronze foram espalhados ao chão. Na sensação de pós-festa, a solidez do material contraria a efemeridade da celebração. Há ainda um Microscópio (2020) com lentes adaptadas para deixar os objetos menores e um grande balão de ar quente em uma sala vazia, longe do céu e sem passageiros. O sonho abandonado de voo do corpo e da mente (T.Y.F.F.S.H., 2009).

Vase, 2005. Coutesy Kris Martin.

Para Vase (2005), Kris Martin quebrou um vaso de porcelana e o remontou colando penosamente os pedaços a cada nova exibição. Toda vez que a obra é levada a público, o ciclo de destruição e reconstrução se repete. Atualmente fragmentado em incontáveis cacos, ainda se pode vê-lo de pé, talvez ostentando a força que há em sua fragilidade. A paciência de um monge também foi exatamente o que o artista precisou para criar Idiota, do mesmo ano, quando reescreveu à mão o clássico romance de 1.494 páginas de Fyódor Dostoiévski, substituindo o nome do protagonista Myshkin pelo dele. “Fazendo isso, eu mesmo me tornei o idiota”, diz na descrição obra.

Um rico diálogo se estabelece em Altar (2014), que surge da admiração de Martin pela suntuosa obra prima do século 15, Retábulo de Ghent (1432), dos irmãos Hubert e Jan Van Eyck. Uma enorme estrutura de aço replica a moldura do políptico, omitindo apenas os painéis religiosos que compõem o seu interior. Aliás, lacunas eloquentes são típicas do seu trabalho. Ele sabe que é exatamente a sensação de estar faltando algo que possibilita espaço livre à imaginação. Na estrutura, originalmente instalada na praia de Ostend e agora no centro de Gante, por ocasião da mostra, as narrativas bíblicas dão lugar à paisagem em todos os seus detalhes, em uma bela conexão entre o real e o divino. Através das janelas, um espelho do mundo visível, tal como pretendido nos esforços realistas dos irmãos Van Eyck. Ainda do fascínio pelo retábulo nasce Eva e Adão (2017), em que os rostos do homem e da mulher, em vez de olharem fixamente um na direção do outro – no trabalho original eles estão posicionados frente a frente nas asas articuladas exteriores –, olham em direções opostas, de costas e divididos por um espaço em branco, possivelmente dispostos em solidão e silêncio.

Eve & Adam, 2019 – Courtesy the artist and Sean Kelly, New York. Photography: Jason Wyche, New York

Para os amantes de história da arte, também causa impacto ver incompleta uma das mais comoventes e fascinantes obras clássicas do período helenístico: Lacoonte e seus filhos. Na réplica da icônica escultura grega, Mandi VIII (2006), Kris Martin suprimiu o elemento de horror da tragédia e fez desaparecer as ferozes serpentes marinhas, enviadas pelos deuses gregos para punir a interferência do sacerdote, que tentou advertir os compatriotas troianos a não aceitarem o presente dos gregos, o cavalo de Troia. O artista parece ter retirado o essencial, mas quem chegou até aqui já entendeu que a arte, às vezes, está exatamente naquilo que não se vê. Agora, contra o que ou quem é a luta desesperada? A experiência de cada um dirá.

Altar, 2014. Foto: Benny Proot.

 

KRIS MARTIN: EXIT • S.M.A.K • BÉLGICA •
3/3/2020 A 01/3/2021

Iasmine Souza Encarnação Novais é Procuradora do Município de São
Paulo, entusiasta da história da arte e autora do perfil @minutodearte.

 

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