
Farbentanz (Entwurf für Essen) [Color Dance I (Project Essen), 1932. © Museum Folkwang Essen/ARTOTHEK.
Quando Ernst Ludwig Kirchner (1880-1938) emigrou para a Suíça, em 1917, encontrava-se em má condição de saúde. Foi na comuna de Davos que ele não apenas se recuperou, mas também encontrou novas fontes de inspiração para sua arte, no cenário natural espetacular e na vida austera dos camponeses da montanha. Longe do ritmo agitado das grandes cidades de Dresden e Berlim, mas ainda informado sobre os debates artísticos contemporâneos, desenvolveu um rico corpo de obra tardio que dialoga de maneira fascinante com sua obra inicial.

Strasse mit roter Kokotte [Street with Red Cocotte], 1914/25. © Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid.
A mostra Kirchner x Kirchner revela como o artista, ao selecionar, pendurar e até retocar suas próprias obras, buscou não apenas reformular o percurso de sua produção artística, mas também construir uma experiência espacial pensada como extensão do gesto pictórico. Cerca de 65 obras de todas as fases de sua carreira – com empréstimos de coleções internacionais de prestígio – compõem um retrato potente do artista que também se reconhecia como designer, encenador e curador de si mesmo.
O REENCONTRO DE UM PAR MONUMENTAL
Um dos momentos mais simbólicos de Kirchner x Kirchner é a reunião, pela primeira vez, desde 1933, das obras Domingo nos Alpes, Cena no poço e Camponeses na montanha em um domingo – pinturas monumentais que abriram a retrospectiva histórica do artista. Exibidas lado a lado, elas condensam a ideia de Kirchner sobre como monumentalidade e espaço podiam dialogar como uma só composição.

Sonntag der Bergbauern [Mountain Peasants on Sunday], 1923-24/26. © Bundesrepublik Deutschland.
Essas telas nasceram de um desejo: provar que sua arte podia existir para além do ateliê, alcançando o espaço público e social. Essa necessidade se tornava ainda mais urgente em 1933, quando seu grande projeto de decorar o salão principal do Museu Folkwang, em Essen, foi cancelado.
Desde então, as duas pinturas nunca mais haviam sido mostradas juntas. A primeira, Cena no poço, foi adquirida diretamente pelo Kunstmuseum Bern – um ato simbólico, por ter sido a única compra de um museu suíço durante a vida de Kirchner. Já Camponeses na montanha em um domingo entrou décadas depois para a coleção da Chancelaria Federal Alemã, que cedeu a obra de forma excepcional para esse reencontro histórico.

Alpaufzug (Ascending the Alps), 1987/1993 © Kunstmuseum St. Gallen, photograph: Stefan Rohner.
KIRCHNER, O ARTISTA QUE TAMBÉM FOI CURADOR
A exposição mostra o quanto Kirchner tinha consciência do papel do curador – e o quanto o assumiu como parte inseparável de seu gesto artístico. Em 1933, ele organizou sua retrospectiva em estreita colaboração com Max Huggler, então diretor da Kunsthalle Bern. Kirchner supervisionou tudo: a seleção das obras, o desenho do espaço expositivo, o pôster da mostra e até o catálogo, assinado sob o pseudônimo Louis de Marsalle.
Mais do que uma exposição, tratava-se de um ato de criação. Kirchner reeditou obras, reordenou fases de sua trajetória e usou o espaço expositivo como parte integral de sua linguagem plástica. Em uma carta a Huggler, datada de dezembro de 1932, escreveu:
“Montar uma exposição corretamente, em termos de cor e forma, é o mesmo que compor uma pintura.”

Bikinis Max Huggler [Portrait of Max Huggler], 1933 © Kunstmuseum Bern.

Esser [Eaters], 1930. © Galerie Henze & Ketterer, Wichtrach/Bern.
Essa visão serve de eixo para Kirchner x Kirchner, que não pretende reconstruir a mostra de 1933 tal como foi, mas compreender sua estrutura e intenção a partir de uma perspectiva contemporânea. A questão central é: o que significa quando um artista escreve sua própria história? E por que, naquele momento, Kirchner escolheu se representar dessa maneira?
Como observou Nadine Franci, curadora da mostra:
“A retrospectiva de 1933 foi mais do que uma exposição – foi um manifesto artístico. Nela se condensava a luta de Kirchner por uma linguagem pictórica própria e o desejo de se reposicionar no campo da arte.”
Ao confrontar a leitura histórica consolidada de sua obra com a visão que o próprio artista construiu sobre si, Kirchner x Kirchner abre uma nova interpretação sobre sua prática – e revela o poder criativo de um artista que compreendia a curadoria como parte vital do processo artístico.
O CONTEXTO DE UM ARTISTA EM TRANSIÇÃO
Eu poderia facilmente fazer toda a exposição apenas com obras minhas

Russisches Tänzerpaar [Russian dancers], 1909. © Erbengemeinschaft Eberhard W. Kornfeld

Wiesenbahnen und Katze [Meadow Flowers and Cat], 1931/32. © bpk / Nationalgalerie, SMB. Foto: Volker-H. Schneider
A retrospectiva de 1933 aconteceu em um momento decisivo, política e pessoalmente. Na Alemanha, o regime nazista começava a difamar e retirar suas obras de museus. Já na Suíça, onde vivia desde 1917, Kirchner encontrou o espaço e a liberdade para apresentar o conjunto de sua produção.
Com mais de 290 obras, aquela retrospectiva foi a mais abrangente de sua vida. Muitas pertenciam ao próprio artista, mas ele insistiu em incluir empréstimos de coleções públicas e privadas – um gesto estratégico para se afirmar como criador consolidado. Em carta a Huggler, escreveu:
“Eu poderia facilmente fazer toda a exposição apenas com obras minhas, mas fica melhor se incluirmos também algumas de coleções públicas ou privadas.”
ENTRE DIE BRÜCKE E DAVOS: O ARCO DE UMA VIDA
Como em 1933, Kirchner x Kirchner percorre o arco que vai dos anos iniciais no grupo Die Brücke (1905-1913) até as obras tardias criadas em Davos (1917-1937). Diferente da mostra histórica, a nova leitura oferece equilíbrio entre as fases de sua trajetória – incluindo trabalhos ausentes da exposição original, seja por escolha do artista, seja por indisponibilidade. Essa inclusão torna mais visíveis as decisões que Kirchner tomou, e os motivos por trás delas.

Sich kämmender Akt [Nude Woman Combing Her Hair], 1913. © Brücke-Museum, Ernst Ludwig Kirchner, CC-BY-SA 4.0.
A apresentação se organiza em cinco núcleos temáticos, que revelam tanto os principais grupos de obras quanto o pensamento curatorial do artista. O primeiro é dedicado aos anos em Dresden e Berlim – com nus, cenas de rua e o universo dos cabarés, hoje reconhecidos como o ápice de sua produção. Na mostra de 1933, Kirchner deu preferência a obras já consagradas ou que evidenciavam rupturas formais.
No último núcleo estão as obras tardias – por muito tempo vistas como menores, mas que o próprio artista considerava o ponto culminante de sua evolução. Sua intenção era clara: exibir a amplitude de sua linguagem e narrar sua trajetória por meio das próprias obras, sem seguir uma ordem cronológica. Muitas vezes, ele chegou a retrabalhar pinturas antigas para explicitar as linhas de desenvolvimento de sua linguagem.
CURADORIA COMO LINGUAGEM PLÁSTICA

Alpaufzug [Ascending the Alps], 1918/1919. © Kunstmuseum St. Gallen, Foto: Stefan Rohner.
A exposição atual adota esse mesmo princípio, enfatizando tanto a diversidade estilística quanto o raciocínio conceitual que guiava a curadoria do artista. O grande espaço central é dedicado à retrospectiva de 1933, reconstruindo pares de obras, perspectivas visuais e contrastes cromáticos que recriam o olhar de Kirchner.
As salas adjacentes se concentram em aspectos formais e compositivos: estudos e desenhos que mostram como o artista experimentava incessantemente com cor, plano, linha e movimento – e como sua linguagem se manteve coerente mesmo nas transformações mais radicais.
A combinação entre seleção de obras, contexto histórico e reflexão sobre o próprio gesto de curar faz de Kirchner x Kirchner uma experiência singular – uma exposição que não apenas revisita a obra de um dos grandes nomes do expressionismo, mas revela o artista como autor consciente de sua própria narrativa.
KIRCHNER X KIRCHNER •
KUNSTMUSEUM BERN •
BERNA • SUIÍÇA •
12/9/2025 A 11/1/2026
Nadine Franci é curadora
de gravuras e desenhos do
Museu de Arte de Berna.


