DASARTES 156 /

KERRY JAMES MARSHALL

KERRY JAMES MARSHALL COLOCA PESSOAS NEGRAS NO CENTRO DE PINTURAS BASEADAS NOS PRINCÍPIOS DA TRADIÇÃO PICTÓRICA OCIDENTAL – AQUELA QUE CONHECEU NOS LIVROS E MUSEUS DE SUA INFÂNCIA. SUA OBRA É ATRAVESSADA PELA HISTÓRIA DA ARTE, PELA CULTURA CONTEMPORÂNEA, PELO AFROFUTURISMO E PELA FICÇÃO CIENTÍFICA. NELA, ELE ENCARA AS FERIDAS DO PASSADO, CELEBRA A VIDA COTIDIANA E IMAGINA UM FUTURO MAIS OTIMISTA

Untitled, 2009. Yale University Art Gallery. © Kerry James Marshall.

A prática de Kerry James Marshall é fundamentada em um profundo envolvimento com as histórias da arte. Ele reimagina e transforma as convenções e os gêneros da pintura ocidental – do retrato e da paisagem à pintura de história, um gênero que inicialmente tratava de narrativas bíblicas e míticas, mas que também foi usado para representar eventos políticos contemporâneos. O artista também se inspira na arte da África e de suas diásporas – como as figuras de poder nkisi nkondi, do Congo, e os vévés do vodu haitiano, desenhos usados para invocar espíritos.

Para Marshall, é essencial que um artista conheça profundamente as histórias da arte, a fim de contribuir para elas de maneiras poderosas, significativas e originais.

Past Times, 1997. © Kerry James Marshall.

Muitas das obras apresentadas nesta exposição abordam momentos da história negra – desde a travessia do Atlântico e as rebeliões de pessoas escravizadas até os movimentos pelos Direitos Civis e pelo Poder Negro, que formaram o pano de fundo da infância do artista. Mais recentemente, ao desafiar representações romantizadas do passado africano, suas pinturas têm enfrentado temas históricos difíceis que outros preferem evitar.

A ACADEMIA

As obras dessa seção retratam cenas de escolas de arte, ateliês e museus – lugares como a Royal Academy, onde artistas estudam, criam e exibem seus trabalhos. Há uma profunda fascinação, na tradição da arte ocidental, pelo ateliê como espaço de criação e pelo museu como repositório de maravilhas. Ampliando essa tradição, Kerry James Marshall a transforma ao colocar figuras negras no centro – tanto como produtoras quanto como consumidoras de arte.

Os pintores que ele representa são mestres em seus meios e materiais. O modelo em The Academy adota uma pose que remete aos atletas americanos Tommie Smith e John Carlos nos Jogos Olímpicos de 1968. Sobre a mesa do estudante de pintura, vê-se um esboço preparatório da modelo e uma figura de poder nkisi nkondi.

The Academy, 2012. © Kerry James Marshall. Image courtesy of the artist and Jack Shairman Gallery, New York.

Marshall utiliza diferentes pigmentos pretos para representar os tons de pele – sobrepondo ou justapondo Ivory black, Mars black e Carbon black, e misturando outras cores para tornar o preto plenamente cromático. Como ele afirma: “se você diz preto, deve ver preto.” Embora seus pretos sejam complexos, Marshall raramente tenta reproduzir os tons marrons da pele real. Suas figuras são, ao mesmo tempo, personagens individuais e exemplos de uma negritude enfática – real e retórica – que provoca reflexões mais amplas sobre a presença e a representação de figuras negras na arte.

Untitled (Blanket Couple), 2014. © Kerry James Marshall. Image courtesy of the artist and David Zwirner, London.

Se você diz preto, deve ver preto.

HOMEM INVISÍVEL

A família de Marshall se mudou de Birmingham para Los Angeles em 1963, e foi lá que ele se aproximou da arte, visitando museus e, em 1968, ingressando em um curso de verão no Otis Art Institute, onde conheceu o trabalho de Charles White, e decidiu seguir carreira artística. Formou-se em 1978, em meio a um cenário artístico turbulento, marcado pelo abandono da pintura e por obras políticas do Movimento de Artes Negras.

Inspirado pelo romance Invisible man (1952), de Ralph Ellison, Marshall começou a criar obras em que figuras negras surgem sobre fundos escuros, quase invisíveis, explorando estereótipos e caricaturas raciais. A partir desse primeiro grande ciclo em têmpera de ovo, suas figuras passaram a atuar de forma retórica, questionando a ausência e a presença de pessoas negras na sociedade e na história da arte.

Untitled (Porch Deck), 2014. © Kerry James Marshall. Image courtesy of the artist and David Zwirner, London.

 

A PINTURA DA VIDA MODERNA

No século 19, artistas franceses como Édouard Manet e Georges Seurat transformaram o gênero da pintura histórica ao representar cenas da vida moderna em escala épica.

As pinturas dessa seção feitas sobre telas sem moldura e fixadas à parede com ilhoses, datam do início a meados dos anos 1990 – período em que Marshall, já instalado em Chicago e com estúdio próprio, começou a criar suas próprias cenas do cotidiano: crianças brincando, casais dançando, famílias aproveitando um dia no parque.

De Style (1993), que retrata um grupo de homens negros em uma barbearia, foi a primeira obra de Marshall adquirida por um museu. Ela combina diferentes estilos da história da arte e funciona também como um monumento ao “estilo negro”.

De Style, 1993. Los Angeles County Museum of Art. © Kerry James Marshall. Foto: © Museum Associates/LACMA.

Um ano após concluí-la, Marshall iniciou as obras de sua série Garden Project. Elas remetem aos conjuntos habitacionais públicos norte-americanos chamados Gardens, cujos primeiros moradores incluíam famílias como a do próprio Marshall – migrantes do Sul que se estabeleceram no Norte e no Oeste dos Estados Unidos a partir da década de 1940.

PASSAGEM DO MEIO

As cinco pinturas dessa seção foram realizadas no início dos anos 1990 e constituem a primeira tentativa de Marshall de abordar a história da Passagem do Meio – a perigosa travessia do Oceano Atlântico durante a qual muitos africanos cativos morreram antes de chegar aos mercados de escravos nas Américas.

Trata-se de uma história compreendida em fragmentos e, por isso, em vez de criar obras que funcionem como dramas históricos com figurinos, Marshall compõe pinturas com imagens, motivos e texturas díspares, incorporando símbolos e diagramas derivados da religião iorubá, do vodu e de outras religiões sincréticas praticadas pela diáspora africana – tanto como atos de resistência quanto como formas de manter conexões com a África.

VINHETAS

Para Marshall, todo gênero e estilo histórico da pintura está pronto para ser reinventado e, em uma série aberta e de longa duração, ele revisita as pinturas românticas, desafiando-se a criar obras profundas e complexas a partir de temas aparentemente leves.

A primeira Vignette, datada de 2003, era uma paisagem ao estilo de Henri Rousseau, ambientada em um parque americano, mostrando um casal nu usando joias ligadas ao movimento afrocentrista. Nas Vignettes posteriores, Marshall reelaborou composições de artistas do rococó francês, como Jean-Antoine Watteau e Jean-Honoré Fragonard.

Vignette #13, 2008. © Kerry James Marshall. Image courtesy of the artist and Jack Shainman Gallery, New York.

Ao pintar cenas românticas, Marshall produz imagens de resistência. Isso porque, durante a escravidão, o “cruzamento” (breeding) – e não o casamento – era incentivado por alguns proprietários de escravos como uma forma de aumentar sua riqueza e sua força de trabalho.

A PINTURA DA VIDA MODERNA II

Nos anos 2010, Marshall continuou a construir cenas poderosas do cotidiano, ambientadas em parques, casas noturnas, residências, ruas da cidade e galerias de arte. Ele frequentemente reelaborava arranjos e elementos de pinturas famosas, sendo o exemplo mais notável a transformação da caveira anamórfica de Hans Holbein, em The Ambassadors (1533), em uma Bela Adormecida distorcida, perturbando o espaço de um salão em School of Beauty, School of Culture, obra irmã de sua pintura anterior em barbearia, De Style.

Algumas pinturas fazem referência a momentos específicos do passado, como a coroação de Gloria Smith como a segunda Miss Black America, no auge do movimento Black is Beautiful, em 1969.

Outras obras provocam reflexões sobre a própria época de Marshall: Untitled (Policeman) (2015) foi criada logo após o início do movimento Black Lives Matter, quando manifestantes defendiam a ideia de “desfinanciar a polícia”.

Untitled (Policeman), 2015. © Kerry James Marshall Foto: The Museum of Modern Art, New York/Scala, Florence.

Juntas, essas pinturas expressam uma ampla gama de experiências e atitudes negras em relação à América, que vão desde uma alegria profunda até uma ambivalência intensa e inquietante.

VERMELHO, PRETO E VERDE

Knowledge and Wonder, 1995. © Kerry James Marshall. Foto: Patrick L. Pyszka, City of Chicago.

Marshall utilizou as cores da UNIA (Universal Negro Improvement Association) ou da Bandeira Pan-Africana, criada por Marcus Garvey, em 1920, assim como a imagética e os slogans dos Panteras Negras do final dos anos 1960.

Mas, em vez de simplesmente celebrar o Nacionalismo Negro, Marshall constrói trabalhos irreverentes e complexos, que também fazem referência às histórias interligadas da pintura e da erótica.

Artistas como Ticiano, Goya e Manet tornaram famosas as telas com nus femininos reclinados. Marshall substitui essas figuras femininas por um homem negro que esconde seus genitais com uma bandeira.

Da mesma forma, ao se deparar com a ausência de mulheres negras nas revistas pin-up americanas, Marshall decidiu criar suas próprias imagens.

Uma das modelos imaginadas se transforma em uma “Estrela Negra”. Na pintura há referência à “Black Star Line” – a companhia de navegação fundada por Marcus Garvey, em 1919, para estimular o comércio com a África e o retorno voluntário de afro-americanos ao continente.

Segurando uma estrela como se fosse o leme de um navio, a mulher olha para trás como uma modelo em sessão fotográfica. Ficamos então diante da pergunta: as criações de Garvey servem hoje apenas para imagens estilosas e sensuais, ou seu projeto político ainda é relevante?

KERRY JAMES MARSHALL: THE HISTORIES
• ROYAL ACADEMY OF ARTS •
REINO UNIDO • 10/9/2025 A 18/1/2026

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