On Fire at 80. © Judy Chicago.

DASARTES 97 /

JUDY CHICAGO

MUSEU DE SÃO FRANCISCO CELEBRA A ARTISTA FEMINISTA PIONEIRA JUDY CHICAGO COM A PRIMEIRA RETROSPECTIVA DE SEU TRABALHO. DESDE O SEU ENVOLVIMENTO INICIAL COM O MOVIMENTO CALIFORNIANO DE LUZ E ESPAÇO NA DÉCADA DE 1960 ATÉ O SEU TRABALHO MAIS ATUAL – UMA INVESTIGAÇÃO ABRASADORA DA MORTALIDADE E DEVASTAÇÃO AMBIENTAL. JUDY CHICAGO: A RETROSPECTIVE TRAZ À TONA A CONTÍNUA RADICALIDADE DA PRÁTICA DA ARTISTA, TANTO NA ESCOLHA DE SUAS QUESTÕES QUANTO NA ADOÇÃO DE MÍDIAS TRADICIONALMENTE EXCLUÍDAS DO CÂNONE HISTÓRICO DA ARTE.

Through The flower 2, 1973. © Judy Chicago

On Fire at 80. © Judy Chicago.

Devido à atual pandemia de Covid-19, o De Young Museum (São Francisco – Califórnia) adiou o evento Judy Chicago: a retrospective, ainda sem nova data. A exposição, organizada por Claudia Schmuckli, celebra a primeira retrospectiva da artista norte-americana Judy Chicago, trazendo ao público obras produzidas desde o início de sua carreira, nos anos 1960, até seu trabalho mais recente. Considerada uma artista feminista pioneira, Chicago teria sua obra apresentada em conjunto com o 100º aniversário do direito de voto das mulheres nos Estados Unidos. A exposição trará cerca de 150 pinturas, além de esculturas, performances, gravuras, entre outros. Judy Chicago: a retrospective também vai expor materiais de arquivo, sinalizando o papel de Chicago não só como artista, mas também como educadora.
Para a abertura da retrospectiva, Judy Chicago pretende criar uma performance com fumaça colorida, técnica que já usou em mais de 40 projetos, desde 1968. O primeiro deles é a série Atmospheres (1968-1974), trabalho colaborativo de performances em protesto à cena artística daquele momento, quase inteiramente dominada por homens. Com a fumaça, Judy Chicago faz uma espécie de intervenção fluida no espaço, abraçando-o com uma densidade colorida que, no entanto, é leve como o ar. Ela retoma a atenção às cores das obras minimalistas que produziu em 1965, na importante exposição Primary Structures, no Jewish Museum (Nova York). Na ocasião, contudo, das 51 obras expostas, apenas três eram de artistas mulheres. Assim, na contramão desse sistema, a fumaça de Judy Chicago implode as formas fixas, como em um impulso dinâmico de libertação da própria arte.

Smoke Bodies, 1972. © Judy Chicago

Chicago publicou 14 livros, a maioria sobre suas próprias obras. Como educadora, criou o primeiro programa feminista de educação e arte na CalArts (California Institute of the Arts), nos anos 1970. Pouco depois, cofundou o Feminist Studio Workshop e o Woman’s Building. Em constante movimento, Judy sempre buscou sua própria autonomia, dentro e fora da arte. Nascida Judith Sylvia Cohen, em 1939, em Chicago, a artista de origem judaica decidiu mudar seu sobrenome aos 31 anos. Ela abdicou dos nomes do pai e do marido e passou a se chamar Judy Chicago. Em referência à mudança, publicou uma foto usando luvas de boxe: mudar o nome é também mudar a própria história.
É a partir de 1973 que Judy Chicago começou a compor obras mais explicitamente feministas, muito embora a própria existência de seu trabalho na história da arte já represente, em si, um ato feminista. The Great Ladies (1972-73) e Through the Flower (1973) são as suas primeiras obras a abordar a sexualidade e o corpo femininos. Alguns anos depois, a artista fez a instalação The dinner party (1979), hoje uma de suas obras mais celebradas, mas que, à época, segundo a própria artista, foi bastante criticada por ser acessível a um público mais amplo.
No entanto, Judy estava à frente das críticas. The dinner party é composta por diferentes camadas: 1) os Cartazes de Entrada, com desenhos que lembram o interior do corpo humano e mencionam frases como let it all hang out, anunciando o recorte feminista; 2) a imensa Mesa Cerimonial, em forma de triângulo equilátero, na qual Judy dedica 39 lugares a mulheres importantes na história; 3) o Chão de Herança, mosaico de mais de dois mil azulejos feitos à mão, citando os nomes de 999 mulheres, entre artistas, ativistas e escritoras; 4) os Painéis de Herança, que elucidam quem são essas mulheres; e 5) os Painéis do Reconhecimento, onde são citados colaboradores da obra. The dinner party é uma instalação-monumento: ela resgata e celebra a memória coletiva das mulheres.

Queen Victoria from the Great Ladies series, 1973. © Judy Chicago.

Entryway Banner #2.

Boadaceia plate from The
Dinner Party, 1974-79.

 

Na mesa triangular, cada um dos 39 lugares tem um prato, um cálice (ambos de cerâmica) e um guardanapo bordado com fios de ouro. A maioria desses pratos tem vulvas pintadas com cores e formatos que se relacionam à obra de cada artista homenageada. Ao usar bordado e cerâmica, Judy opta por técnicas de artesanato, historicamente lidas como “menores” perante a arte, além de estarem associadas a tradições femininas. A obra foi vista por mais de um milhão de pessoas, em seis países, e hoje está em exposição permanente no Elizabeth A. Sackler Center for Feminist Art, do Brooklyn Museum. A obra recebeu um apoio expressivo do público e assim Judy fundou a Through the Flower (1977), organização sem fins lucrativos voltada para a educação de mulheres. Das deusas da pré-história à era das revoluções, a instalação é considerada a primeira grande obra feminista épica. Segundo a artista, ela contaria uma história simbólica da mulher no Ocidente.

Rainbow Pickett, 1965.

Antes de The dinner party, Chicago já havia participado daquela que foi considerada a primeira exposição feminista pública de arte nos EUA: Womanhouse (1972). Em uma mansão abandonada, um grupo de mulheres capitaneado por Judy Chicago e Miriam Schapiro se organizou para conceber um espaço artístico de troca entre mulheres. O caráter subversivo de Womanhouse fica evidente não só nas instalações e performances resultantes, mas desde o processo: mulheres que se organizam coletivamente para limpar, pintar, levantar paredes e fazer reparos. O espaço funcionou por apenas um mês e ainda assim recebeu cerca de dez mil visitantes.Constituída por espaços como Menstruation Bathroom (Judy Chicago), Aprons in Kitchen (Susan Frazier) e The Nursery (Shawnee Wollen), a casa-instalação foi citada em 2019 pela revista T Magazine como uma das 25 obras que definem a arte contemporânea. Entre as performances apresentadas em Womanhouse, está Cock and cunt play, de Judy Chicago. Trata-se do diálogo de dois personagens, interpretados por atrizes vestidas com roupas pretas e exibindo grandes genitálias de tecido – um pênis e uma vagina. Em dado momento, o corpo com vagina questiona: “por que você não lava a louça?”, e o corpo com pênis responde: “porque eu tenho um pau!”. A “peça” lembra o que faz a personagem Pomme no filme Uma canta, a outra não, de Agnès Varda, também da década de 1970: apresentações feministas itinerantes que são, ao mesmo tempo, didáticas e sutis – como o trabalho de Chicago.

Menstruation Bathroom.

Cock
and cunt play, 1972.

No início da década de 1980, Judy Chicago abordou as múltiplas complexidades do nascimento em Birth project. Junto a mais de cem mulheres bordadeiras, compôs obras como Earth Birth (1983), tapeçaria de mais de três metros de comprimento que expressa, no corpo da mulher, a matéria viva do mundo. Do fundo escuro da obra, o corpo pulsa e faz nascer a luz. Mas essa imagem gloriosa se contrapõe a Birth Tear: encontro entre a dor e a potência do corpo feminino, expressas no parir.

Birth Tear, 1982. © Judy Chicago

Earth Bird, 1983. © Judy Chicago

A partir de 1985, Judy Chicago se voltou para o Holocausto. Holocaust Project: from Darkness into Light, criado junto com seu marido, Donald Woodman, indica a masculinidade tóxica como causa direta da destruição humana, ideia que a artista aborda mais explicitamente em PowerPlay (1982-1987). Perto de completar 81 anos, Judy mantém sua arte viva e atenta. The End: a meditation on death and extinction são pinturas sobre o impacto humano no meio ambiente e, assim como no projeto sobre o Holocausto, Chicago sinaliza a destruição da natureza como a autodestruição humana.

Logo from the Holocaust Project, 1992. © Judy Chicago and Donald
WoodmanLogo from the Holocaust Project, 1992. © Judy Chicago and Donald
Woodman.

Crippled by the Need to Control/Blind Individuality, 1983
© Judy Chicago

Em The Dinner Party já era possível observar um ponto-chave para pensar o trabalho de Judy Chicago: a memória como salvação da arte produzida por mulheres. Pelo caminho do arquivo, do registro de contribuições feitas por mulheres na história da arte, a artista parece fixar no tempo sua própria obra. Na urgência de resgatar as histórias apagadas pela subvalorização das mulheres, a artista lançou, em outubro de 2019, um portal online com a maior parte de sua obra digitalizada, que pode ser acessada em http://www.judychicago.com/. Além disso, depositou obras e materiais de arquivo em quatro instituições diferentes, onde também estão acessíveis para pesquisa.
Esta matéria não é uma tentativa de dar conta da vasta trajetória de Judy Chicago. É, na verdade, o esforço de indicar algumas obras para que, por meio dessa artista, olhemos também para as histórias de outras mulheres.

Purple Poem for Miami , 2019. Fireworks performance commissioned by ICA, Miami © Judy Chicago.

Smothered from The End: A Meditation on Death and Extinction, 2015.
© Judy Chicago/Artists Rights Society (ARS), New York; Photo © Donald Woodman/ARS, NY.

 

Drika de Oliveira é fotógrafa e atua também como preservadora audiovisual na Cinemateca do MAM-Rio. Graduada em Comunicação Social-Cinema pela PUC-Rio. Membra da ABPA (Associação Brasileira de Preservação Audiovisual).

JUDY CHICAGO: A RETROSPECTIVE • DE YOUNG
MUSEUM • SÃO FRANCISCO • EUA • EM BREVE

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