
Sem título, 1980. Acervo do Instituto John Graz.
Está é a resumida, porém notável, história de um artista estrangeiro que fez do Brasil o seu lar e sua inspiração, história esta que estará disponível para apreciação por meio de algumas de suas obras na Pinacoteca de São Paulo, a partir do dia 31 de julho. Fala-se aqui de John Graz, suíço que se fez digno de marcar seu nome nas páginas dos livros da história da arte nacional.
Em 12 de abril de 1891, nascia John Louis Graz, em Genebra, na Suíça. Artista gráfico, pintor, desenhista e escultor, Graz se mudou para o Brasil, em uma década muito significativa para a arte brasileira: os anos 1920, que foram marcados pela efervescência do modernismo nacional, embalado pelas revoluções pictóricas das vanguardas europeias, e pela célebre Semana de Arte Moderna de 1922, da qual ele veio a participar com sete obras, todos os quadros feitos por ele ainda na Europa.
Tendo estudado arte desde muito jovem, já em 1911, Graz entrou para a Escola de Belas Artes de Genebra, cujo diretor era Daniel Baud-Bovy. Em 1915, ele iniciou sua produção de cartazes publicitários, os quais lhe renderam premiações em diversos concursos, destacando-se nessa época o cartaz de abertura do magazine suíço Grand Passage, que hoje faz parte do acervo do Museu de Arte de São Paulo.

Sem título, 1980.
Acervo Instituto John Graz
A seguir, o artista teve uma breve passagem pelos ateliês da vanguarda parisiense, por onde coletou aprendizado e começou a definir sua identidade artística, aperfeiçoando-se em publicidade e praticando litografia, técnica que ele dominou com excelência. Nesse período, ele se identificou com as obras de Cézanne e as estudou, além de entrar em contato com os movimentos cubista, fauvista e futurista. Depois dessa experiência, Graz retornou a Genebra, onde iniciou a produção de vitrais, pinturas e gravuras. Vale destacar, desse período, seu autêntico e complexo trabalho nos vitrais da Igreja des Eaux Vives, na capital Suíça, que demonstram o poder criativo e composicional do artista e já revelam a sagacidade dele em provocar uma profunda interação e simbiose entre suas obras e o ambiente onde se encontram (característica que ele viria a aperfeiçoar ao decorar ambientes aqui no Brasil). Com tanto empenho, John Graz recebeu por duas vezes a bolsa de estudos Lissignol, o que lhe proporcionou uma viagem à Espanha.

Sem título (Índios na rede), Sem data.
Em 1920, Graz expôs na Sociedade de Arquitetos, Pintores e Escultores de Lausanne. É nesse mesmo ano que ele vem para o Brasil e logo expõe algumas de suas produções no Salão do Cinema Central em São Paulo. Esse passo inicial viria a ser o começo de sua importante contribuição com a arte e o design no cenário nacional.
John Graz se casou com a brasileira Regina Gomide, irmã de Antônio Gomide, e se tornou aqui amigo de Oswald de Andrade, o qual adquiriu uma de suas telas e o convidou a compor o tão simbólico grupo modernista brasileiro, tendo Graz publicado alguns de seus trabalhos na lendária Revista Klaxon.

Paisagem de Espanha, 1920. Acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo.
A Pinacoteca de São Paulo realizará uma exposição de obras de John Graz que enfatizam sua principal vertente: o lado decorativo. O evento contará com obras doadas pelo instituto John Graz à Pinacoteca, que serão o núcleo principal da exposição, contando ainda com outras obras, de coleções particulares. Essa homenagem e o reconhecimento da Pinacoteca são válidos, visto que John Graz é um dos maiores nomes do modernismo nacional, sendo frequentemente indicado como um dos introdutores do estilo Art Déco e precursor do design de interiores no Brasil. Tendo se baseado nos princípios da, então recente, escola de arte alemã Bauhaus, Graz adaptou suas produções à cultura e à identidade brasileiras. Pouco tempo depois da Semana de 22, ele iniciou alguns projetos no estilo, em São Paulo, na mesma época em que o Déco alcançava seu apogeu na Europa, sincronizando assim a arte nacional ao que estava em vigor no Velho Continente. O art déco, que abrange o design, a arquitetura, o desenho industrial, e, claro, as artes decorativas, era na época sinônimo de modernidade e elegância.
Dentre as produções de Graz estão painéis, objetos para ambientes de trabalho ou familiares, criação e produção de mobiliário, tapetes, ferragens, afrescos e projetos de decoração cuja inspiração vem do povo, da fauna, da flora e história do Brasil. Dessa forma, o artista deu identidade e criou, por meio de seu intelecto artístico altamente criativo, uma vertente brasileira moderna e exclusiva do estilo déco. Sem exageros, seria natural afirmar que o Brasil despertou o auge do potencial criativo de Graz.

Cadeira, década de 1960 (reedição da década de 2010). Acervo do Instituto John Graz.
O arquiteto russo Gregori Warchavchik, que também havia chegado há pouco em São Paulo, tornou-se companheiro de John Graz nas produções artísticas. Warchavchik projetava e construía residências e Graz as decorava. Ele aplicava o mesmo conceito em móveis, painéis pintados, objetos e iluminação que iriam compor um ambiente. Dessa forma, a decoração do artista tinha uma interação estética e funcional com o local onde seria instalada, sendo que Graz usava seu conhecimento técnico e prático para criar móveis modernos que pareciam ter sido projetados exatamente para o lugar onde ficariam, criando também afrescos, luminárias e vitrais para casas de algumas personalidades paulistanas da época (aquelas que não tinham resistência à arquitetura e decoração modernas), como o casal Caio Prado Júnior e Antonieta Penteado da Silva Prado e o industrial e político Roberto Simonsen.

Sem título, década de 1920. Acervo da Pinacoteca de São Paulo.

Sem título, 1935.

A Ponte de Ronda, 1978.
Acervo Pinacoteca de São Paulo.
A exposição se tornou viável graças à doação de mais de 40 obras do Instituto John Graz ao acervo da Pinacoteca, em 2020 e, junto com os trabalhos emprestados de outras coleções, o público poderá ter uma interessante experiência com a obra de Graz por meio de desenhos, guaches, telas e até uma tapeçaria que o artista fez junto com a esposa dele. Vale a pena conferir este evento que resgata e valoriza uma importante personalidade do modernismo nacional. A brilhante mente criativa de John Graz, somada à sua presença e absorção artística da cultura brasileira, juntamente com algumas de suas produções artísticas posteriores à vinda dele para o país estarão disponíveis na exposição para quem quiser e puder ver de perto o significativo trabalho desse artista. Para além de um dos nomes que compôs o grupo da Semana de 22, John Graz revelou capacidade de trazer a arte para mais perto da vida ao criar obras modernas que ajudaram a atualizar e a situar o Brasil definitivamente no eixo das artes.
Edvaldo Carvalho é professor de arte na rede
estadual de ensino do Estado do Amapá e MBA
em História da Arte.
JOHN GRAZ: IDÍLIO TROPICAL E MODERNO •
PINACOTECA DE SÃO PAULO •
31/7/2021 A 31/1/2022

