DASARTES 53 /

João Villela

Em GARIMPO, Elisa Maia desvenda as técnicas do trabalho de João Villela. O artista usa como suporte revistas antigas, roteiros de filmes e cadernos de anotação.

Revistas antigas, roteiros de filmes e cadernos de anotações de aulas são alguns dos suportes usados por João Villela para compor seus trabalhos. Partindo das páginas já povoadas, João escreve sobre os desenhos e desenha sobre os escritos, não em um sentido ilustrativo, em que o texto fornece o tema para imagem, mas literalmente “sobre” as palavras impressas, usando-as como suporte. Em seus desenhos, a letra das palavras e o traço das figuras se contaminam e se deixam contaminar, borrando os contornos entre o que é visto e o que é lido. Há momentos em que o texto usado como suporte fica aparente por entre os espaços vazados dos desenhos, e outros em que é coberto, de forma que apenas determinadas palavras, expressões ou ideias são enfatizadas. Embora não se debruce sobre um tema específico, é possível notar um repertório de assuntos que se repetem de maneira recorrente: a política, as vertigens sociais, o amor, o desejo, certa angústia existencial presente nas figuras que carregam uma marca expressionista e o sexo. Este último lhe rendeu um convite para publicar seus desenhos na “NIN”, uma recém-lançada revista de arte erótica. Em uma construção “mise en abyme”, João usou a edição impressa como suporte para novas intervenções. Há, nos seus trabalhos, uma afirmação do corpo em sua dimensão física, que parece querer se impor por diferentes vias. João não apenas desenha corpos, masculinos e femininos, mas também enfatiza o corpo da letra, os acidentes da matéria e os vestígios do gesto. Essas concretudes físicas reconduzem o olhar em direção à materialidade da imagem e ao corpo físico dos objetos que servem de suporte. A relação com a literatura também é um dispositivo importante na sua produção. João, que já estudou Letras, aponta, entre suas influências, muitas referências literárias – de Shakespeare (ele tem uma série de desenhos feitos a partir de suas peças) a livros de poesia contemporânea. Seus cadernos e revistas ocupam um lugar privilegiado de passagens entre o desenho e a escrita, um lugar onde os revezamentos plástico-discursivos possibilitam o surgimento de imagens indisciplinadas, que parecem marcadas pelo afeto e dotadas de desejo.

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