Viciados. Não entre sem bater.

DASARTES 99 /

J. CARLOS

O ARTISTA CARIOCA J. CARLOS ATUOU COMO UM CRONISTA VISUAL, TRAÇANDO OS JOGOS POLÍTICOS, AS DICOTOMIAS SOCIAIS E AS NUANCES DOS PRIMEIROS 50 ANOS DE REPÚBLICA NO BRASIL, TEMPERADOS POR UM SENSO DE HUMOR ÁCIDO, DEBOCHADO E CRÍTICO

A velha Europa (Charge política)

Viciados. Não entre sem bater.

J. Carlos (1884-1950), como ficou conhecido José Carlos de Brito e Cunha, era carioca de Botafogo, e viveu grande parte de sua vida no bairro da Gávea, onde produziu um acervo de obras e que agora, grande parte delas, foram restauradas para esta nova exposição.
A amplitude da obra de J. Carlos ultrapassa as fronteiras temporais de sua época. Sua presença transformou o ambiente das publicações de periódicos no Brasil de modo definitivo, ao incorporar uma visão ampla da revista como um produto estético em si.
Para a exposição online na Danielian Galeria, delineou-se um panorama de temas e aspectos recorrentes nos seus 48 anos de produção. A seleção foi feita a partir de um conjunto de 300 obras que pertenceu a Carlos Eduardo de Brito e Cunha, bisneto do artista, dado que permitiu um olhar diversificado dentro da cornucópia criativa que é a obra de J. Carlos. No escopo dessa coleção, os cinco segmentos escolhidos: As capas, A política, A sociedade, A revista e Les femmes, em vez de serem restritivos, propõem um olhar atento à versatilidade e à sensível observação social que fazem de J. Carlos um cronista não só de seu tempo, mas de aspectos gerais da nossa sociedade, positivos e negativos, que ainda se fazem presentes.
A revisitação de sua obra não se limita tão somente ao aspecto histórico, como também permite ampliar o olhar sobre a qualidade formal, estética e poética de sua produção. A liberdade criativa, impressa na fluidez precisa de suas linhas, instiga a repensar seu lugar no cenário artístico brasileiro, assim como na formação de um imaginário nacional que supera os limites do tempo.

AS CAPAS

O crescimento do número de publicações nos primeiros anos da República acompanhou um movimento de modernização da sociedade e uma concentração da população nos centros urbanos. Durantes quase cinco décadas de produção, J. Carlos contribuiu com a maioria das revistas desse período, mas foi nas capas onde mais elaborou suas composições. Soube adequar a relação entre o público-alvo e os perfis editoriais, alcançando grande alcance popular. Em publicações como O Malho e Careta, marcadas por seu posicionamento político, apresentou um relato ácido e crítico pertinente aos conflitos bélicos da primeira metade do século 20. Em contrapartida, nas revistas de variedades como a Fon Fon e a Para Todos, pode-se observar uma maior leveza: na primeira, a tendência de um perfil anedótico inspirado na vida cotidiana da cidade e, na segunda, um verdadeiro Olimpo de figuras femininas, em composições envoltas em uma atmosfera sensual e onírica.

Capa para a Revista Fon Fon.

A POLÍTICA

A periodicidade na publicação das revistas possibilitou que o conjunto da obra de J. Carlos traçasse um panorama sobre as questões inerentes ao cenário vivido entre as duas grandes guerras mundiais. Nelas, fica clara sua posição antifascista.
No ambiente de uma ainda frágil república brasileira, o caráter de denúncia de suas obras (carregadas de deboche e sarcasmo) estimulou a reflexão de nossa sociedade pouco habituada à política, fundamentada em bases democráticas instáveis e constantemente ameaçada por dinâmicas de privilégios e episódios ditatoriais, como foi o exemplo da Era Vargas.
A precisão do seu traço e sua aguda observação fizeram com que muitas vezes seus desenhos alcançassem inclusive repercussão internacional. Suas charges e caricaturas são, portanto, uma fonte para o entendimento histórico desse período tão conturbado.

Getulio Vathas.

A SOCIEDADE

Os eventos do final do século 19 no Brasil, como a república e o processo de abolição da escravatura, geraram um verdadeiro cabo de guerra em nossas estruturas sociais. De um lado, o protagonismo de uma crescente burguesia mercantil e industrial; e, de outro, um grande contingente populacional que se vê obrigado a buscar sua subsistência sem qualquer amparo governamental. O adensamento da malha urbana e o desenvolvimento do trabalho informal agravaram a ideia de marginalização social. A cidade se transformava em palco de tensões e assunto para as crônicas de J. Carlos. Para essa exposição, foram selecionadas obras em que aparecem cenas cotidianas de ambas as partes e algumas em que esse conflito se torna o tema central.
A imagem do Brasil como o país do Carnaval se origina nas primeiras décadas do século e a contribuição de J. Carlos para isso foi fundamental. De forma sensível, o artista voltou seu olhar para as dinâmicas dessa festa popular, em diálogo com o modo de viver da nossa sociedade. A alegria festiva, o humor debochado e certa vontade de subversão se refletem nos foliões, nas melindrosas e colombinas e na figura urbana do malandro. A despeito de vantagens ou desvantagens, esse imaginário nacional permeia nossa cultura e vem sendo transformado e desenvolvido por diversos artistas até hoje.

Baile de Carnaval (Revista Para Todos)

LES FEMMES

J. Carlos tinha um fascínio pelas mulheres e criou um panteão de musas e personagens femininos. Suas charges e tirinhas revelam a dicotomia experimentada pela mulher na sociedade daquela época: a busca por independência dos padrões patriarcais em choque com uma visão sexualizada da figura feminina, que ainda hoje atravessa nossas estruturas. A figura da Melindrosa é icônica na obra de J. Carlos. Impressa pelo artista no imaginário nacional, ao mesmo tempo em que insinua malícia e sensualidade, também sugere uma libertação moral vanguardista em sua época.
O artista influenciou ainda a estética e a moda. Seus desenhos sintéticos, por vezes, inspiraram a confecção de roupas para a classe burguesa sedenta por novas tendências. Observe-se que, em razão desses fatos, a produção de J. Carlos não se limitou apenas a ser crônica de um período histórico, mas, sobretudo, expandiu seu papel para a formação do gosto e da opinião pública.

Deus fez a mulher.

Sem titulo .

A REVISTA

J. Carlos era autodidata e assumiu a direção artística de importantes revistas muito jovem. A falta de uma formação acadêmica, que poderia ser fator limitante, foi importante no desenvolvimento de sua liberdade criativa. Orientado por sua sensibilidade estética apurada, influenciou o design gráfico no Brasil. Como diretor artístico, criou identidades visuais que se alinhavam com o público-alvo de cada revista. Dado que contribuiu ao conceito de perfil editorial totalmente inovador para o ambiente brasileiro. No âmbito da diagramação, propunha soluções e recursos que ainda hoje surpreendem por seu caráter arrojado e dinâmico. Com o uso de vinhetas, elementos gráficos e capitulares, por exemplo, dotou de leveza a experiência da leitura. Na publicidade, elaborou importantes campanhas, como as da Caixa Econômica Federal e as do Cigarros Belmonte, onde chamava a atenção a composição de uma cena dramática baseada em imagens domésticas e cotidianas. A concepção de diversas fontes e tipologias, ao longo de sua carreira, aproximou sua produção das principais vanguardas internacionais da época. O olhar panorâmico sobre sua obra mostra que a habilidade de J. Carlos como designer ainda merece receber um olhar mais atento.

Quando vier para mim o inverno da vida.

Conversando com o seu retrato.

Conversando com o seu retrato.

Cristine Tedesco é doutora em
História pelo Programa de Pós-
graduação em História da
UFRGS. Desenvolve estudos
sobre o protagonismo feminino
nas artes.

J. CARLOS: ALÉM DO TEMPO •
DANIELIAN GALERIA • RIO DE
JANEIRO • 7/8 A 7/9/2020

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